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13 de Junho de 2018 Imprimir
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Como aproveitar as inovações russas em sala de aula

A Rússia pode não ser o país do futebol, mas a sede da Copa da Mundo venceu alguns campeonatos quando o assunto é inovação. Veja como aproveitar essas conquistas nas aulas de Física, História, Geografia, Ciências e Arte

Por: Paula Salas

Cartaz de propaganda celebra as conquistas espaciais da Rússia, na época União Soviética   Foto: Wikipedia

Ao pensar em pioneirismo e Rússia algumas imagens clássicas, como a Corrida Espacial, surgem na cabeça, mas acredite: há muito mais conquistas em campo. Entre elas, os russos foram os primeiros a chegar à Antártida, os pioneiros nos estudos de vitaminas e a organizar a tabela periódica como conhecemos hoje. Não podemos esquecer a expressividade do país na literatura e na música, com nomes como Tolstoi, Gógol, Dostoiévski e Tchaikovsky. Não se pode negar a contribuição russa para a produção de conhecimento.

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Inovação e Rússia
Os investimentos em pesquisa são anteriores à União Soviética (1922-1991), eles começaram ainda no Império Russo. Após a Revolução Russa, Lênin reconheceu a importância das pesquisas científicas. Em 1920, foram criadas universidades e centros de pesquisas na área. “Segue-se a criação de diferentes institutos ligados à área militar, econômica ou a campos como medicina e comunicação. Cerca de 40 a 70 deles instituídos a partir de 1920”, conta Roberto Lopes Dos Santos Junior, da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, no artigo “Análise histórica da evolução e desenvolvimento dos campos da Ciência e da Tecnologia na antiga União Soviética e Rússia (1917-2010)”.

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Com a 2ª Guerra Mundial (1939-1945), a preocupação em desenvolvimento de tecnologias acelerou o processo. “O desenvolvimento foi o resultado do programa militar”, comenta Vicente Ferraro, pesquisador do Laboratório de Estudos da Ásia da Universidade de São Paulo (USP). Outro movimento que contribuiu para isso foi a Corrida Espacial. No período, Estados Unidos e União Soviética disputaram a chegada do homem ao espaço como parte do período histórico que ficou conhecido como Guerra Fria (1947–1991). Foi um momento de grande investimento em tecnologia e ciência na Rússia.

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Mas quem ganhou essa corrida? O americano Neil Armstrong foi o primeiro homem a pisar na Lua em 1969, mas no placar total aponta para o outro lado: “Os Estados Unidos chegaram primeiro à Lua, mas nas outras etapas a Rússia foi a grande vencedora”, confirma o pesquisador.

Essas conquistas eram utilizadas como propaganda política do regime socialista. “De forma a evidenciar a prevalência do socialismo diante do capitalismo”, explica Vicente. As pesquisas extrapolaram para outros setores. Veja abaixo 12 vezes em que a Rússia saiu na frente e como esses fatos podem contribuir para suas aulas.

As inovações russas podem ser aproveitadas em sala de aula. Crédito: Getty Images

PARA TRABALHAR HISTÓRIA, GEOGRAFIA, CIÊNCIAS E FÍSICA

1. O foguete R-7 e seus sucessores
Sergei Korolev foi o principal engenheiro de foguetes e aeronaves da União Soviética na época da Corrida Espacial. Em 1957, ele concluiu sua “grande obra-prima”: o foguete R-7 Semyorka, que era nove vezes mais potente que qualquer outro naquela época. Apesar de ter sido o primeiro míssil balístico intercontinental, ele nunca teve intuito de se tornar uma arma. Ironicamente, como míssil ele não era tão bom. Sua maior contribuição foi para a exploração espacial – fato que pode render discussões nas aulas de Geografia sobre o cenário mundial na época da Guerra Fria. “Quais são os impactos na exploração espacial na relação dos seres humanos com o planeta? Que aspectos geopolíticos interferiram na corrida espacial e como ela modificou esses aspectos?”, questiona Oldimar Cardoso, pós-doutor em História pela USP e assessor pedagógico dos planos de aula na NOVA ESCOLA, trazendo alguns caminhos possíveis para o tema em sala.

No campo da Ciência para o Ensino Médio, o R-7 se aproxima dos estudos de balística ao abordar os conceitos de lançamento de objetos e alcance, podendo ser um gancho para iniciar a discussão. Também é interessante pensá-lo como o protótipo dos lançamento de foguetes e levar a discussão para esse lado. “É possível fazer uma ligação com as conquistas na Guerra Fria e as atuais”, explica Margareth Polido, formada em Física pela USP, coordenadora da licenciatura em Matemática no Instituto Singularidades e especialista do Time de Autores da NOVA ESCOLA.

Apesar de simples, o Sputnik 1 fez história. Na foto aparece exposto no Museu Nacional da Força Aérea dos Estados Unidos. Créditos: Wiki Commons.

2. Ponto para a Rússia na Corrida Espacial
Depois de ter percebido que era possível fazer viagens espaciais, Korolev continuou os estudos. E, em outubro de 1957, os soviéticos foram os primeiros a enviar um satélite artificial para o espaço. O Sputnik 1 ficou em órbita por 22 dias e consistia em uma esfera de metal de mais de 80 kg com quatro antenas para transmissão de rádio. Apesar de sua simplicidade, o dispositivo ajudou os cientistas a compreender fenômenos espaciais, como, por exemplo, entender a propagação de ondas de rádio pelo espaço e fornecer informações sobre a densidade da atmosfera.

Por ser um marco histórico, o Sputnik tem uma importância econômica, política e científica. É possível abordar o tema até com os mais novos. “Para as crianças é muito interessante saber como é fora [da Terra]”, afirma Margareth. Segundo ela, os próprios livros de Ciências fazem essa abordagem histórica do espaço. Por isso, os professores podem tratar o tema desde como foi a chegada ao espaço até as motivações da exploração espacial hoje em dia. “Para mim, o mais interessante é resgatar o histórico dessas missões e entender as diferenças entre elas”, opina a educadora.

3. Passaporte russo
O primeiro ser vivo chegou ao espaço em 1957 e foi enviado pela Rússia. A vira-lata Laika saiu da Terra à bordo no satélite russo Sputnik 2. Apesar do final triste - a cachorrinha morreu 6 horas depois de entrar em órbita - foi um marco na corrida espacial, pois provou que poderíamos tolerar a gravidade zero. A experiência foi precursora para o envio do homem no espaço.


4. “A Terra é azul”
Essa frase emblemática foi dita pelo astronauta russo
Yury Gagarin, em 1961, quando se tornou o primeiro homem a ir ao espaço. Creditada como a reação que teve quando viu à distância a Terra, o que ele disse na hora foi: “Através da janela, eu vejo a Terra. O chão é claramente identificável. Eu vejo rios e as dobras do terreno. Tudo é tão claro”. Essa primeira viagem durou pouco mais de uma hora, mas foi um passo essencial para que os norte-americanos conseguissem pisar na Lua em 1969. “Esta foi a conquista mais significativa para a Rússia durante a Corrida Espacial”, declara Vicente.

Esta conquista pode ser uma questão geradora de um projeto com objetos de estudo variados como, por exemplo, como é a vida do homem no espaço, quais as diferenças entre lá e aqui ou focar em uma questão mais tecnologica. O importante é criar perguntas que envolvam os alunos. “Como vivem essas pessoas no espaço? Esse olhar para fora ajuda a entender o planeta Terra, como ele é acolhedor e deve ser cuidado”, sugere Margareth.

Valentina Tereshkova, primeira mulher a viajar para o espaço. Crédito: Wiki Commons

5. O espaço também é delas
A data 16 de junho de 1963 ficou marcado na história. Neste dia, Valentina Tereshkova se tornou a primeira mulher a viajar para o espaço. Sozinha, embarcou na nave Vostok 6 e deu 48 voltas em torno da Terra. Ao voltar, tornou-se uma heroína, ganhou reconhecimentos e, sem voltar ao espaço, atuou na área política e seguiu na área de pesquisa. Até hoje, é a única mulher a fazer a empreitada sozinha. Depois dela, a próxima mulher a ir ao espaço foi outra russa em 1982.

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Foto do receptor de rádio criado pelo russo Popov Crédito: Wikimedia Commons/Wikipedia

6. Nas ondas do rádio
O engenheiro russo
Aleksandr Popov teve contato com os estudos de Hertz sobre as ondas eletromagnéticas pela biblioteca da escola onde lecionava. Naquele momento começou a trabalhar em maneiras de receber essas transmissões a distâncias maiores - que viria a se tornar o rádio. Em 1895, escreveu um artigo dizendo que esse aparelho que desenvolvia podia receber ondas criadas pelo ser humano. No mesmo ano, demonstrou a transmissão de informações via o aparelho. O dispositivo que havia apresentado coincidia com a patente registrada pelo físico italiano Guglielmo Marconi em junho de 1896. “O russo só não tinha conseguido publicar suas descobertas, a vantagem de Marconi é que ele teve mais investimentos”, explica o pesquisador Vicente.

Desenvolvidos ao mesmo tempo em lugares diferentes, o italiano é amplamente creditado pela invenção, mas os estudos e resultados do Popov também merecem reconhecimento. Após ler o relato da invenção do Marconi, ele seguiu outro caminho e se uniu à marinha russa para estudar a comunicação entre os navios com e a terra firme.

Para abordar em sala de aula, é possível analisar como as tecnologias têm um aspecto cultural. Com um outro olhar, pode ser tema de interesse também dos menores: “As crianças adoram falar sobre como as coisas foram inventadas, então é possível juntar invenções e pensar nos próprios equipamentos”, comenta Margareth.

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O russo Igor Sikorsky foi responsável por criar o helicoptero. Crédito: Wiki Commons

7. Conquistando céus
Nascido no Império Russo,
Igor Sikorsky foi um pioneiro na área de design de aeronaves. Começou a desenhar protótipos em 1909, quando percebeu que naquele momento – por conta dos materiais, estudos e falta de dinheiro e experiência – não conseguiria desenvolver o seu produto. Continuou estudando e construíndo e, em parceria com o exército russo, desenvolveu, em 1913, o primeiro avião de quatro motores que ficou conhecido como Le Grand. Ele tinha, entre suas inovações, as cabines fechadas para pilotos e passageiros. Em 1919, mudou-se para os Estados Unidos e continuou as pesquisas com um grupo de russos até que, em 1939, fez o primeiro voo experimental do helicóptero. Em 1941, bateu o recorde de resistência no ar durante 1 hora e 32,4 segundos. A invenção se aproxima de temas sobre aerodinâmica.


8.
A essência das telas
A televisão é russa? Bom, a invenção foi do russo
Vladimir Zworykin, mas ele morava nos Estados Unidos. Em 1923, patenteou a ideia de um sistema digital de televisão. Então, começou a saga para colocar sua ideia no mundo. Em 1931, criou e registrou o iconoscópio, conversor de imagem em impulsos elétricos, item essencial para a criação da televisão.  

Iniciando pela contextualização da invenção, é possível fazer um trabalho ligado ao próprio aparelho, estudar os avanços das tecnologias e mecanismos, investigar desde as diferenças de imagem e resolução até algo mais abstrato como discutir o consumo televisivo.

9. Elas na política
Durante sua história, a Rússia teve retrocessos e contradições, mas saíram na frente de todos quando se tratava dos direitos e liberdade da mulher. O
Guia de Pesquisa da Universidade de Boston revela que a força de trabalho feminina – até na política – era próxima da masculina.

Com ampla participação na Revolução Russa, as mulheres soviéticas puderam ver Alexandra Kollontai – feminista declarada e uma das líderes do processo revolucionário – ocupar o cargo de ministra na área de assistência social. Durante o seu mandato pautou leis em prol dos direitos femininos, equiparação salarial, entre outras lutas. “A Revolução Russa representou um divisor de águas. A União Soviética foi o período de maior avanço de conquistas da mulher no país”, comenta Vicente.

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Apesar de ser a única mulher a ocupar um cargo de alto escalão, a participação feminina na política, Educação e mercado de trabalho se tornou referência para o resto do mundo. Um tema que pode aparecer em sala de aula ao comparar os papéis atribuídos às mulheres durante a história mundial.

Um caminho possível é criar discussões comparando elas com a realidade brasileira, pois, segundo Oldimar, foram posturas do Estado que permitiram a mulher soviética sair do papel doméstico, pois havia uma forte estrutura de creches e escolas. “Isso deu muita autonomia às mães que se sentiam amparadas pelo Estado tanto para poderem se separar dos maridos, quanto para terem mais liberdade mesmo casadas”, explica Oldimar.

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A psicanalista russa Sabina Spielrein    Foto: Wikimedia Commons/Wikipedia

10. Psique russa
A psicanalista russa Sabina Spielrein ficou esquecida pela história – apesar de ser lembrada pelo seu relacionamento conturbado com o famoso psiquiatra Carl Gustav Jung –, mas Sabina foi pioneira no trabalho com a psique das crianças, estudou temas como a origem da linguagem e do pensamento. É uma referência na interface entre Educação e psicanálise, foi precursora de importantes conceitos da área, mas se destaca a ideia “impulso de morte”, desenvolvido e consagrado posteriormente por Freud.

PARA TRABALHAR ARTE

Cena do filme mudo de 1925 Battleship Potemkin (traduzido em português para O Encouraçado Potemkin) dirigido por Serguei Eisenstein. O filme é um clássico do cinema soviético e considerado um marco na montagem de filmes, foi precursor de efeitos especiais e técnicas cinematográficas. A longa-metragem conta a história de uma rebelião de marinhos de um navio de guerra que aconteceu em 1905. Crédito: Wiki Commons


11. Adorado até hoje
Na época do cinema mudo, em 1919, Vladmir Gardin inaugurou o VGIK, a primeira escola de cinema do mundo. Na época funcionava como formação de atores, mas hoje oferece cursos em todos os campos da cinematografia. “O cinema soviético é considerado um clássico. Até hoje as gerações mais novas tem muito respeito e assistem os filmes”, conta Vicente.

 Criada por Vladimir Tatlin, o Monumento à Terceira Internacional (também conhecida como Torre de Tatlin) atualmente está exposto no Museu de Arte Moderna de Estocolmo, na Suécia.Crédito: Wiki Commons. 


12. Nem só de exatas
Dentro das artes, os russos se destacaram na arquitetura com suas cidades planejadas. Mas não podemos esquecer o Construtivismo Russo, movimento que influenciou a arte e o design e teve como inspiração o cubismo. Segundo a
Enciclopédia Itaú Cultural, a vanguarda entende a pintura e as esculturas como construções com um valor prático na vida das pessoas. Entre seus maiores expoentes temos o Vladimir Tatlin e os irmãos Antoine Pevsner e Naum Gabo.

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