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Especialistas | Mudança de Hábito

Bullying: o sofrimento que preferimos não ver

Na aula, os relatos de bullying se sucediam. Meus alunos passaram o mesmo que eu, 20 anos atrás

Ilustração: Adriana Komura

"Qual música marcou a adolescência de cada um de vocês?”, perguntei a meus alunos do 2º ano do curso de jornalismo. Sugeri que pusessem os fones e colocassem o som para tocar no celular. “Que memórias as canções evocam? Reflitam e preparem um texto curto sobre as recordações.” E eles se puseram a escrever.

Fiquei surpreso com o que apareceu. Um após o outro, os relatos de bullying iam se sucedendo. “Me tacharam de veado”, disse um. “Escreviam gorda na minha carteira, e ainda por cima erravam meu nome”, confessa a garota. “Fui jogado no lixo, me sentia deslocado”, li noutra parte. Tudo muito doloroso, embalado ora por sons melancólicos, ora por canções de superação.

Revisitei minha própria trajetória. Não precisei de música para isso: é uma lembrança que ainda está viva. No Ensino Médio, um grupo autodenominado “Cantinho do Terror” controlava o resto da classe composta só de meninos (era um curso técnico de eletrônica). Faziam jus à alcunha: inventavam motivos para bater nos outros, interditavam carteiras na sala e até obrigaram um aluno a cheirar pó de giz fingindo que era droga.

Eu não era um alvo preferencial, mas ia para a escola com medo. Típico “nerd”, como diziam, também fui agredido e coagido a fazer trabalhos em grupo com os valentões. Corriam os anos 1990 e, naquela época, esse tipo de tirania nem tinha uma palavra específica – alguns chamavam, e ainda chamam, de “frescura”. Hoje sabemos que esses atos recorrentes de violência física ou psicológica são bullying. É uma tristeza observar que, duas décadas depois, a questão continue causando intenso sofrimento. Onde seguimos errando?

Na época, todos na escola sabiam que havia algum problema em nossa classe. Nem sempre o bullying ocorre à vista dos educadores, mas ele sempre deixa marcas. Um comportamento que muda (o aluno antes alegre se torna calado), uma brincadeira mais agressiva e constante, um grupo que domina o intervalo. A um olhar sensível e atento, tudo isso seria evidente.

Ocorre que, a partir do Fundamental 2, nenhum docente se sente “dono” da sala (raciocínio corrente: “Sou especialista, dou minhas aulas e vou embora”). Alguns até percebem o problema, mas preferem deixar para lá. Deveria ser o contrário: para que o bullying seja visibilizado e enfrentado, o aluno precisa ser de todos. Assim fica mais fácil tomar outra providência fundamental: agir rápido. Como a vítima em geral tem vergonha de comunicar o problema e dificuldade de reagir, o papel dos educadores para interromper o ciclo de agressões é central. É preciso trabalhar para evitar que o bullying se instale. Devemos dizer aos envolvidos, sem meias palavras: “Sabemos o que está acontecendo. Não vamos tolerar”. Quem sabe daqui algum tempo as músicas que marcam a juventude tragam alegres memórias escolares em vez de tristes recordações.

RODRIGO RATIER é repórter especial de NOVA ESCOLA e doutor em Educação pela Universidade de São Paulo (USP)

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