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Defasagem: como vencer esse obstáculo?

O desafio de fazer com que todos os estudantes avancem até o topo exige esforço do sistema educacional inteiro. Mas o professor não está de mãos atadas

Ilustração: Bárbara Malagori

Imagine a trajetória escolar como a subida de uma montanha, na qual você, professor, é o guia do grupo de alpinistas – os alunos. Eles precisam chegar ao topo, e sua responsabilidade é garantir que consigam fazer isso juntos. Todos são perfeitamente capazes de cumprir o trajeto, mas uns são mais rápidos, outros mais lentos e outros, ainda, têm menos firmeza no passo. Para que eles não se percam, você precisará acompanhá-los de perto, reforçar as cordas, repensar a trilha. O problema aparece quando um dos alunos-alpinistas fica muito para trás. O que fazer? Deixar o grupo e voltar para buscá-lo? Caminhar mais lentamente para que ele alcance o grupo? Ou simplesmente seguir em frente?

É esse o dilema da defasagem de aprendizagem, uma questão que persiste no sistema educacional brasileiro há décadas. Muitas vezes, o professor recebe uma turma e começa a notar que dois, três, dez alunos não conseguem cumprir tarefas básicas como ler, localizar informações no texto ou fazer contas. 

3º ano: O início

Pode ser cedo ainda para falar em defasagem, especialmente em alfabetização. Cada criança tem seu ritmo e é natural que haja ainda alguma disparidade. Mas é importante ficar atento: 

LEITURA E ESCRITA
OS PROBLEMAS O aluno pode estar completando o processo de alfabetização e ainda não consegue reconhecer algumas letras ou tem dificuldades mais pontuais, como localizar informações específicas. Ele até decodifica o texto, mas não é capaz de apreender o sentido.

AS POSSÍVEIS SAÍDAS As técnicas de sondagem das hipóteses de escrita, aplicadas geralmente até o 2º ano, podem ser bastante úteis em um diagnóstico individualizado. Mas inclua também atividades de leitura e interpretação de texto, e acompanhe a evolução semanalmente. Você pode incluir, ainda, diagnósticos mais sistemáticos a cada bimestre. A partir daí, amplie a exposição do aluno a textos diversificados e proponha pequenas produções escritas.

MATEMÁTICA
OS PROBLEMAS O aluno não sabe lidar com o sistema decimal e, por isso, não consegue avançar no aprendizado das operações aritméticas, o que pode ocorrer pelo excessivo foco em alfabetização. Também pode apresentar dificuldade em compreender um problema e não dominar estratégias de resolução.

AS POSSÍVEIS SAÍDAS Não é viável repassar o conteúdo todo. Priorize. Pense no que precisa ensinar (subtração, por exemplo) e no que é essencial para aprender isso. No caso da subtração, é preciso saber o que é essa operação, dominar aspectos do sistema decimal como valor posicional e escrever números. Faça atividades diferentes, como jogos que trabalhem o sistema decimal. Em resolução de problemas, deixe que cada um invista em suas próprias estratégias e discuta coletivamente as soluções.

Ilustração: Bárbara Malagori.

Na classe de 4º ano da professora Ivani Ferreira, 13 dos 31 alunos se enquadravam nesse perfil, e isso não foi uma novidade. Profissional experiente da EM Leon Renauld, em Brumadinho (MG), ela diz que sempre recebe alunos com defasagem. “Quando detecto que algo deu errado, elaboro uma avaliação diagnóstica com os conteúdos que são pré-requisitos para o ano em que o aluno está”, conta a docente.

O primeiro passo de Ivani – tentar compreender em que ponto está cada aluno – é fundamental para a solução. Para isso, ela toma como parâmetro o que a rede espera que os alunos saibam no 4º ano. “Eles deveriam já conseguir ler e interpretar textos, fazer pequenas produções escritas sem muitas trocas de letras. Dominar adição e subtração e ter algum conhecimento de multiplicação e divisão”, resume. A professora faz o diagnóstico por meio da leitura e interpretação de texto e um ditado com palavras. Em Matemática, ela observa os alunos fazendo operações utilizando algoritmos. “Assim eu posso ver em que nível estão”, diz. Tudo sempre levando em conta o que o planejamento municipal considera adequado.

Mas estabelecer essa régua não é simples nem em cidades como Brumadinho, muito menos para um sistema educacional tão diverso como o brasileiro. “Às vezes vemos crianças que pensam bem, cumprem bem uma tarefa, mas são reprovadas porque têm a letra feia ou não compreendem o que o professor pediu na avaliação. Isso não pode ser considerado defasagem”, defende Janaína Barros, coordenadora do Instituto Chapada, que atua há 20 anos na formação de professores.

Chegar a uma definição sobre a fronteira entre as desigualdades naturais nos ritmos de aprendizagem e uma diferença problemática é assunto que faz especialistas quebrarem a cabeça. Entende-se como defasagem a distância entre o que o aluno sabe e o que ele deveria saber em uma determinada idade ou ano da Educação básica para que continue avançando. E o que um aluno deveria saber, em geral, é definido por documentos como o currículo da escola ou da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que passou a estabelecer quais os objetivos de aprendizagem precisam ser alcançados a cada ano. As avaliações externas, como a Prova Brasil, possuem descritores que servem de régua para medir essa aprendizagem. “Há sempre um tipo de julgamento que pode ser discutível. As avaliações procuram descrever o que o aluno sabe e é capaz de fazer, e então se interpretam os resultados, definindo se ele está no nível de conhecimento esperado para uma determinada série”, diz Ruben Klein, pesquisador da Cesgranrio e um dos maiores especialistas do país no assunto.

Ruben construiu com outros especialistas do movimento Todos pela Educação uma possível interpretação para os resultados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), que reúne o conjunto de avaliações que medem a qualidade da Educação brasileira. Os estudiosos partiram das quatro classificações da Prova Brasil para as pontuações obtidas em Língua Portuguesa e Matemática – insuficiente, básico, proficiente e avançado – e definiram que apenas os alunos nas categorias “proficiente” e “avançado” têm aprendizado realmente adequado para a série na qual se encontram. “Mesmo quem alcançou pontuação equivalente ao básico costuma estar longe do ideal. No 5º ano, um aluno como esse pode ter algum domínio das operações básicas da aritmética, mas não consegue aplicá-las em diferentes situações”, exemplifica. Inserindo nessa escala os resultados da Prova Brasil de 2015, só 50% dos alunos de 5º ano têm nível adequado em leitura e 39%, em Matemática. No 9º ano, cai para 30% em Português e apenas 14% em Matemática.

6º ano: O passo aperta
Essa é uma etapa de transição, em que há uma mudança no ritmo das aulas e, em geral, maior distância entre professor e aluno.

LEITURA E ESCRITA
OS PROBLEMAS O aluno passa a ter uma demanda maior por leitura. As várias disciplinas, especialmente História e Geografia, propõem textos cada vez mais densos e complexos, os quais o estudante não consegue compreender o sentido. Em alguns casos, só localiza informações explícitas.

AS POSSÍVEIS SAÍDAS O professor de Língua Portuguesa não pode ser o único responsável pelo desenvolvimento da competência leitora e da escrita. É necessário que os docentes das outras disciplinas selecionem gêneros diversificados e adequados ao nível de leitura do estudante. Também vale pensar em estratégias de mediação de leitura: o docente lê um trecho e introduz o assunto por meio de um diálogo, e os alunos retomam a leitura individualmente.

MATEMÁTICA
OS PROBLEMAS A defasagem se acentua e aparece especialmente quando se tenta desenvolver conteúdos como números decimais e frações. O aluno ainda desconhece divisão e multiplicação, o que dificulta o entendimento dessas representações. Além disso, não consegue entender conceitos como área, densidade demográfica e marcações temporais.

AS POSSÍVEIS SAÍDAS Reforce o trabalho com as operações, mas com estratégias diferentes das do Fundamental 1. O uso de jogos é útil, bem como a investigação de padrões e regularidades, similares aos da tabuada, com a calculadora. Não deixe frações e números decimais para o fim do ano. As ideias são mais complexas e todos precisarão de tempo para aprendê-las. Separe uma aula por semana para esse conteúdo e foque nos conceitos essenciais antes de chegar às operações.

Ilustração: Bárbara Malagori

As razões

O sistema educacional brasileiro sempre teve dificuldades em garantir que todos os alunos alcançassem bons resultados. Até o início da década de 1990, o remédio do sistema era a repetência. O resultado eram altas taxas de distorção idade-série (em torno de 50%) e de evasão (10% no fim dos anos 1980). Com a implantação da progressão continuada, em que a Educação básica é dividida em ciclos maiores, e só neles é que se pode reprovar (ou não), essa distorção vem caindo e, em média, está em 12%. A evasão, no entanto, continua girando em torno dos 10%.

Isso não significa, porém, que se avançou o suficiente. “O grande nó é a falta de um processo de acompanhamento. Se o sistema não sabe onde cada criança parou em termos de aprendizagem, não se atua adequadamente e a defasagem vai crescendo, como uma bola de neve”, opina Inês Kisil Miskalo, gerente executiva de Educação do Instituto Ayrton Senna e responsável pelos projetos de aceleração de aprendizagem que a instituição desenvolve. No caso de Ivani, o fato de a rede municipal de Brumadinho estabelecer as expectativas
de aprendizagem ajuda, bem como a conexão com as colegas. “Quando mudei de escola, mantive contato com a professora do 5º ano, para quem passei minha turma”, explica a docente. Em outras localidades, as orientações da BNCC podem suprir uma eventual falta de diretriz ou de plano para o ensino do município.

A bola de neve da defasagem cresce também por outros fatores, a começar pela desmotivação dos alunos. Eles se sentem incapazes e culpados. “A autoestima vai lá para baixo. Cria-se um clima de que o problema está nele, a família diz que o menino ‘não tem cabeça para o estudo’, que é melhor desistir”, diz Inês. E o problema, quase sempre, não está no aluno. “Precisamos diferenciar o que é dificuldade do que é não aprendizagem. As pessoas costumam usar a palavra ‘dificuldade’ de forma generalizada, quando muitas vezes o problema é que o aluno não teve a exposição necessária ao conhecimento”, explica Kátia Smole, consultora de NOVA ESCOLA e diretora da Mathema. O professor de Geografia e Ciências Marcelino Anderson consegue enxergar essa distinção. Ele dá aulas para turmas de Ensino Fundamental e Educação de Jovens e Adultos em Presidente Figueiredo (AM). Este ano, sua classe de 6º ano recebeu dois alunos que ainda não sabem ler. “Notei em ambos essa defasagem e preparei intervenções bem focadas em leitura. Só que um dos dois tem um sério problema de frequência, tudo por causa das dificuldades de transporte para a escola”, conta Marcelino. Para o docente, estava claro que seria bem mais difícil ajudar esse estudante.

9º ano: Arranque final

Nesse ponto, os problemas já são mais graves e complexos de serem resolvidos. O acúmulo de defasagens é grande e, de modo geral, as aulas de reforço desempenham papel importante. 

LEITURA E ESCRITA
OS PROBLEMAS O acúmulo de defasagens cria entraves ainda maiores. Nesse ano, o aluno precisará ler textos complexos, lidar com nuances de sentido, figuras de linguagem e inferir dados, o que se torna inviável. E isso não se deve apenas à dificuldade de ler. O aluno com esse perfil, em geral, também tem menos repertório e conhecimento de mundo, consequência do seu afastamento do universo letrado.


AS POSSÍVEIS SAÍDAS Dependendo do nível de dificuldade, pode ser necessário buscar apoio pedagógico e pensar em atividades que estimulem as competências básicas de leitura e escrita, mas ligadas ao universo do aluno e aos conteúdos do ano. Do contrário, corre-se o risco de infantilizar as atividades e desestimular o adolescente. Trabalhar textos de interesse
do aluno e propor pequenas produções textuais, a exemplo do 6º ano, ajuda.

MATEMÁTICA
OS PROBLEMAS Sem ter entendido conceitos básicos de aritmética, o aluno não consegue compreender álgebra. Isso também dificulta o trabalho com geometria, que exige esse conhecimento. Outro obstáculo é o pouco domínio da linguagem matemática. Termos como “minuendo” ficam obscuros e o professor não os explica adequadamente.

AS POSSÍVEIS SAÍDAS Evite as listas de exercícios repetitivos. Será preciso revisitar os princípios da aritmética e da álgebra, utilizando outros contextos e formas de investigação. Os alunos podem experimentar, por exemplo, o efeito dos números zero e 1 nas operações fundamentais. Nesse ano, o uso de aulas de reforço pode ser ainda mais valioso, mas elas não podem ficar para o fim do ano e precisam se articular com os conteúdos da aula regular.

Ilustração: Bárbara Malagori

As soluções

Apesar de a defasagem ser um problema sistêmico, você, professor, e sua escola podem fazer muito para que os alunos cheguem ao topo dessa montanha. Antes de tudo, é preciso saber que as estatísticas mostram três gargalos que exigem maior atenção: o 3º ano, o 6º ano e a transição entre o 9º ano e o Ensino Médio. Esses são os períodos em que o índice de reprovação costuma ser maior. O 3º ano coincide com o fim do primeiro ciclo do Fundamental e é decisivo: nele acontece a alfabetização. O 6º ano é um momento de transição, em que o
ritmo das aulas se acelera, o número de professores aumenta e já se espera um bom nível de leitura e proficiência em Matemática. Por fim, o 9º ano costuma ser crítico porque encerra o ciclo do Fundamental e o acúmulo de anos de defasagem fica muito pesado.

O esforço de Ivani é justamente para evitar que seus alunos do 4º ano continuem passando de ano sem suprir as lacunas. Partindo do diagnóstico, criou um plano de intervenção focado nos pontos mais críticos. Ao olhar as planilhas que usa para registrar o que precisa melhorar, ficou claro que os problemas se concentravam em Matemática, nas operações básicas e em grandezas e medidas. Ela, então, priorizou o uso de jogos e materiais concretos de contagem, como copinhos. Além disso, diversificou as atividades de leitura. Foram, ao todo, oito meses de trabalho. “Ao final, os problemas foram sanadas e todos foram promovidos para o 5º ano e o ano seguinte”, conta, com orgulho. Pesou no resultado o apoio da direção da escola e a aproximação dos pais para garantir a frequência dos mais faltosos.

No Amazonas, porém, Marcelino não conseguiu evitar o grande número de faltas de um de seus alunos. Junto com o professor de Língua Portuguesa, ele elaborou atividades de pesquisa que exigiam leitura e simplificou textos do livro didático para os dois estudantes. “O resultado foi que um avançou bastante de lá para cá. O outro, porém, continua com dificuldades para chegar à escola e seu avanço tem sido mais lento”, conta. O que não significa que o professor desistirá de ajudar a conduzir o aluno da escola de Presidente Figueiredo até o final do caminho proposto.

Diante do enorme desafio da defasagem de aprendizagem e das limitações do sistema educacional, Ivani, Marcelino e muitos outros docentes entendem que é possível transpor essa grande montanha e garantir a aprendizagem de todos os alunos.

FONTE: CARLOS EDUARDO CANANI, DIRETOR DE ENSINO DA SECRETARIA DE EDUCAÇÃO DE LAJES (SC) E MESTRE EM EDUCAÇÃO PELA UNIVERSIDADE DO PLANALTO CATARINENSE (UNIPLAC) E KÁTIA SMOLE, DIRETORA DO MATHEMA.