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Contos de Clarice Lispector e Machado de Assis mostram retrato da vida no Brasil

Histórias de autores clássicos revelam como as pessoas estudavam, trabalhavam e se divertiam nos séculos 19 e 20

POR:
Paula Calçade
"Conto de Escola" de Machado de Assis revela como eram as salas de aula do século 19. Ilustração:  Renato Alarcão 

As escolas, as ruas e os escritórios eram claramente diferentes na época em que Machado de Assis escrevia seus romances. Algumas características ainda são as mesmas. Nas aulas de História, os fatos que envolvem o período da Regência revelam um período político conturbado com a Guerra dos Farrapos, por exemplo. Mas como um professor lecionava a seus alunos naqueles anos? Em “Conto de Escola”, Machado de Assis mostra que a tensão era vivida inclusive dentro das salas de aula e sua narrativa pode servir para entender melhor esse período.

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Da mesma forma, Artur de Azevedo escreve que a importância dada à hierarquia na época do Império também era sentida dentro das repartições, revelando como a sociedade se organizava no conto “De cima para baixo”. Já Clarice Lispector narra a cultura do carnaval de rua do século passado, que explica as expectativas vividas hoje quando pensamos nas folias de Momo.

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NOVA ESCOLA reúne essas três histórias que podem ajudar os alunos a entender um pouco da história do Brasil, para além dos livros didáticos. São contos que conferem uma atmosfera e revivem a cultura brasileira, além de gerar muita conversa boa em sala de aula. Confira:

Conto de escola
Machado de Assis

“A escola era na Rua do Costa, um sobradinho de grade de pau. O ano era de 1840. Naquele dia - uma segunda-feira, do mês de maio - deixei-me estar alguns instantes na Rua da Princesa a ver onde iria brincar amanhã. Hesitava entre o morro de S. Diogo e o Campo de Sant?Ana, que não era então esse parque atual, construção de gentleman, mas um espaço rústico, mais ou menos infinito, alastrado de lavadeiras, capim e burros soltos. Morro ou campo? Tal era o problema. De repente disse comigo que o melhor era a escola. E guiei para a escola. Aqui vai a razão.

Na semana anterior tinha feito dois suetos e, descoberto o caso, recebi o pagamento das mãos de meu pai, que me deu uma sova de vara de marmeleiro. As sovas de meu pai doíam por muito tempo. Era um velho empregado do Arsenal de Guerra, ríspido e intolerante. Sonhava para mim uma grande posição comercial e tinha ânsia de me ver com os elementos mercantis, ler, escrever e contar, para me meter de caixeiro. Citava-me nomes de capitalistas que tinham começado ao balcão. Ora, foi a lembrança do último castigo que me levou naquela manhã para o colégio. Não era um menino de virtudes.”

Artur de Azevedo escreve sobre a trasferência da culpa através da hierarquia. Ilustração:  Mauricio Paraguassu

De cima para baixo
Artur de Azevedo

“Naquele dia o ministro chegou de mau humor ao seu gabinete e imediatamente mandou chamar o diretorgeral da Secretaria.

Este, como se movido fosse por uma pilha elétrica, estava, poucos instantes depois, em presença de Sua Excelência, que o recebeu com duas pedras na mão.

- Estou furioso! - exclamou o conselheiro. - Por sua causa passei por uma vergonha diante de Sua Majestade o Imperador!

- Por minha causa? - perguntou o diretor-geral, abrindo muito os olhos e batendo nos peitos.

- O senhor mandou-me na pasta um decreto de nomeação sem o nome do funcionário nomeado!

- Que me está dizendo, Excelentíssimo?...

E o diretor-geral, que era tão passivo e humilde com os superiores, quão arrogante e autoritário com os subalternos, apanhou rapidamente no ar o decreto que o ministro lhe atirou, em risco de lhe bater na cara, e, depois de escanchar a luneta no nariz, confessou em voz sumida:

- É verdade! Passou-me! Não sei como isto foi…”

O conto de Clarice Lispector narra o carnaval de rua do Rio de Janeiro do século 19. Ilustração:  Ana Raquel

Restos do Carnaval
Clarice Lispector

“Não, não deste último carnaval. Mas não sei por que este me transportou para a minha infância e para as quartasfeiras de cinzas nas ruas mortas onde esvoaçavam despojos de serpentina e confete. Uma ou outra beata com um véu cobrindo a cabeça ia à igreja, atravessando a rua tão extremamente vazia que se segue ao carnaval. Até que viesse o outro ano. E quando a festa ia se aproximando, como explicar a agitação íntima que me tomava? Como se enfim o mundo se abrisse de botão que era em grande rosa escarlate. Como se as ruas e praças do Recife enfim explicassem para que tinham sido feitas. Como se vozes humanas enfim cantassem a capacidade de prazer que era secreta em mim. Carnaval era meu, meu.

No entanto, na realidade, eu dele pouco participava. Nunca tinha ido a um baile infantil, nunca me haviam fantasiado. Em compensação deixavam-me ficar até umas 11 horas da noite à porta do pé de escada do sobrado onde morávamos, olhando ávida os outros se divertirem. Duas coisas preciosas eu ganhava então e economizava-as com avareza para durarem os três dias: um lança-perfume e um saco de confete. Ah, está se tornando difícil escrever. Porque sinto como ficarei de coração escuro ao constatar que, mesmo me agregando tão pouco à alegria, eu era de tal modo sedenta que um quase nada já me tornava uma menina feliz.”

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