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Sala de Aula | Arte

Aproveite a riqueza cultural do Brasil em sala de aula

O estudo de ritmos brasileiros deve priorizar as experiências protagonizadas pelo aluno e não a apresentação final para os pais

Atividade com o bumba meu boi aproxima crianças paulistanas do ritmo maranhense.

Crédito: Roberto Setton

Um boi colorido de papelão aparece e se ouve: “Boa noite, meu povo que veio aqui me ver, com essa brincadeira, trazendo grande prazer! Salve, grandes e pequenos! Este é meu dever. Saí pra cantar boi bonito pro povo ver”. A música é Novilho Brasileiro, eternizada pelo Mestre Coxinho, um dos principais artistas do bumba meu boi, ritmo característico do Maranhão. Mas quem se apresenta está a mais de 2.800 km de São Luís. São crianças do 1º ao 3º ano da EMEF Marechal Eurico Gaspar Dutra, na capital paulista. Esse é o resultado de um trabalho iniciado em 2016. Após uma apresentação de congada na festa junina da escola, a professora de Arte Marisa Pires Duarte passou a se reunir com um grupo de alunos no contraturno para estudar ritmos brasileiros (leia mais sobre eles nas imagens abaixo).

Enquanto as artes visuais dominam os currículos, a música e o teatro ficam em segundo plano. “O lugar da música na escola não é apenas na apresentação de Dia das Mães”, afirma Tiago Madalozzo, doutorando em Música na UFPR. Para mudar esse cenário, Marisa propôs trabalhar a diversidade cultural brasileira por meio da experimentação e do protagonismo criativo dos alunos, aliando musicalidade, dança, teatro e artes plásticas. “A diversidade de abordagens é o que permite conhecer a cultura”, comenta.

Preparação e aproximação

O corpo do boi é feito com caixa de papelão e adornado com tampinhas e fitas.

Crédito: Roberto Setton.

A professora sempre teve um interesse pelos ritmos brasileiros. “Quando viajo, procuro descobrir quais são as manifestações culturais daquele lugar. Vou conhecer e recolher materiais para, depois, ‘alimentar’ meus alunos”, conta. No entanto, não é necessário sair da própria cidade, pois cada comunidade tem muito a agregar à musicalização do professor. “Todo contato cultural é formação musical”, reforça Tiago.

Além de pesquisar vídeos e informações em sites dedicados aos ritmos, o professor pode recorrer a livros como Folias e Folguedos do Brasil, de Inimar dos Reis, utilizado por Marisa. É importante fazer uma curadoria dos materiais apresentados nas aulas, pois cada tradição envolve muitas variações. “A seleção deve proporcionar aos alunos uma experiência completa do ritmo”, comenta Ari Colares, percussionista e mestrando em Educação Musical na USP.

“Ao apresentar cada ritmo, converso sobre sua origem, características e se ele também é realizado aqui em São Paulo”, explica Marisa. “Enquanto para uma turma talvez seja mais interessante começar contando a história do ritmo, localizar no mapa, falar sobre aquela comunidade e sua religiosidade, para outra pode chamar mais a atenção conhecer o ritmo na prática antes de apresentar qualquer informação”, sugere Ari.

Também é possível introduzir o tema por meio da interdisciplinaridade. Esse conteúdo pode ser usado nas aulas de Língua Portuguesa para abordar os recursos linguísticos de cada manifestação cultural; em História, é interessante trabalhar o contexto do surgimento das tradições; já em Geografia, é possível abordar os ambientes onde elas acontecem e como chegaram lá. “Valorizar a arte não apenas como suporte mas em pé de igualdade com outras disciplinas é essencial”, diz Tiago.

Experimentar para aprender

Brincar, pular e improvisar também faz parte da encenação do bumba meu boi.

Crédito: Roberto Setton

Após a conversa inicial, a professora exibiu vídeos que ensinavam algumas batidas. Com base nessa introdução, os pequenos puderam explorar livremente os instrumentos disponíveis, as alfaias, da família dos tambores. No entanto, não há problema se a escola não tiver esse material. Ari sugere construir um ganzá com a turma, colocando uma mistura de arroz, feijão e milho num pote de iogurte ou latinha e vedando bem. Criar o próprio instrumento permite que o aluno entenda a origem do som. Outra possibilidade é iniciar o trabalho com os instrumentos pela vocalização sonora, criando onomatopeias que imitem as batidas. “A partitura não é escrita, ela está no corpo, na memória e na voz do aluno”, explica.

A professora mostra manifestações como maculelê, frevo, coco de roda, cavalo-marinho e catira e os alunos escolhem uma para estudar com mais afinco e apresentar no fim do ano. Com
base nas informações sobre a tradição, as crianças experimentam também a dança. “Eles brincam e pulam muito”, conta Marisa. As coreografias se baseiam no repertório de movimentos construído, mas não há rigidez em relação aos passos.

Na encenação, os alunos também improvisam suas falas, há apenas um texto definido para o narrador manter o fio da meada. “Para ampliar a experiência cultural, é fundamental participar ativamente da prática. O aluno cria uma memória corporal para a vida inteira”, comenta Ari. A possibilidade de inovar permite que a turma perceba a cultura com algo próximo e mutável. Por isso, ao contextualizar o ritmo, é interessante comparar como ele era originalmente e como é praticado hoje. “A arte muda, pois é feita pelas pessoas. As crianças também podem criar sobre aquela manifestação”, comenta Tiago.

Eles também praticaram as artes plásticas para montar o boi. “O corpo foi feito com uma caixa e os alunos escolheram materiais da ‘sucatoteca’ para decorá-la, como as tampinhas de garrafa”, explica Marina. “Sucatoteca” é um acervo de materiais recicláveis criado pela professora. Em 2017, a escola fez parcerias com outras instituições próximas para exibir o espetáculo do bumba meu boi para outras crianças.

“É um papel ético do professor de Arte mostrar a maior variedade de repertório possível e o ritmo está na base de quase todas as culturas”, comenta Tiago. “Se a gente oferta diferentes manifestações culturais antes de as crianças desenvolverem gostos pessoais ou preconceitos, elas vão ter a noção de que não existe apenas um ritmo para se gostar”, diz Marisa. Ainda este ano, sua turma apresentará o maracatu. “Mesmo que não saia igual ao tradicional, se a brincadeira for gostosa e significativa, já vale a experiência”, afirma Ari. O que fica, mais do que o espetáculo, é o reconhecimento e aceitação da diversidade cultural do Brasil.

RITMOS DO BRASIL

Confira informações sobre cada ritmo para iniciar sua pesquisa sobre o tema

Ilustração: Carla Barth

1) Bumba meu boi 2) Coco (umbigada) 3) Maracatu

ORIGEM

Surgiu na região Nordeste com o ciclo do gado. Foi documentado pela primeira vez em 1829, no Maranhão.

ORIGEM
Foi trazido pelos africanos escravizados para as regiões Norte e Nordeste. Faz referência à batida das cascas de coco.
ORIGEM
Fruto da resistência da cultura
africana em Pernambuco, teria nascido em terreiros de candomblé.

CARACTERÍSTICAS

Representa as relações entre patrões e trabalhadores das fazendas de gado. Tem traços católicos e muitas cores.

CARACTERÍSTICAS
É marcado por pisadas fortes, pelos
cantos que relembram o passado e fazem críticas ou brincadeiras.
CARACTERÍSTICAS
O maracatu nação (baque virado) faz a procissão do rei do Congo. Já o rural (baque solto), tem os caboclos de lança.
MANIFESTAÇÕES
É característico das festas de junho, mas pode acontecer durante outros festejos, como o Carnaval.
MANIFESTAÇÕES
Está ligado às festas de São João, mas, em menor escala, pode ser encontrado durante o Carnaval.
MANIFESTAÇÕES
Era praticado pelos escravos no dia
de Nossa Senhora do Rosário. Após
a abolição, tornou-se carnavalesco.
MUSICALIDADE
Mistura várias batidas. Toca-se: ganzá, pandeirão, chocalho, matraca, zabumba, banjo, clarinete e trombone.
MUSICALIDADE
Utiliza o ganzá e o zabumba, mas o ritmo também pode ser conduzido pelo bater de palmas.
MUSICALIDADE
Com algumas diferenças, os dois tipos de maracatu utilizam ganzá, tarol e gonguê, entre outras percussões.

Ilustração: Carla Barth

4) Maculelê 5) Cavalo-marinho 6) Catira
ORIGEM
Surgiu em Santo Amaro da Purificação (BA) no período colonial, com base nas culturas indígena e africana.
ORIGEM
Tradicional de Pernambuco e da
Paraíba, é uma variação do bumba meu boi criada na época colonial.
ORIGEM
Mistura da cultura africana com
influências europeia e indígena que remonta ao período colonial.
CARACTERÍSTICAS
Representa a luta pela liberdade dos escravos. É marcado pela dança, cores, bastões e facões que simulam batalhas.
CARACTERÍSTICAS
Tem mais de 70 personagens entre animais, humanos e fantásticos. Pode ter até oito horas de duração.
CARACTERÍSTICAS
É dançada em pares e marcada por pulos em que os participantes batem os pés e as mãos.
MANIFESTAÇÕES
Acontecia nas festas do dia da
padroeira de Santo Amaro. Hoje, não têm uma data típica.
MANIFESTAÇÕES
Acontece tradicionalmente no ciclo natalino. Começa na véspera do Natal e segue até o dia 6 de janeiro.
MANIFESTAÇÕES
É característica das festas de peões, Folias de Reis e Festas do Divino de São Paulo, Minas Gerais e Goiás.
MUSICALIDADE
O instrumento mais comum é o atabaque. O bater dos bastões
também compõe o ritmo da dança.
MUSICALIDADE
É marcado por um sapateado que lembra o galope dos cavalos. Usa rabeca, pandeiro, ganzá e reco-reco.
MUSICALIDADE
Muito baseada na vocalidade, o instrumento característico da catira é a viola caipira.


NA BNCC

Conhecer e valorizar o patrimônio cultural, material e imaterial, de culturas diversas, em especial a brasileira, incluindo-se suas matrizes indígenas, africanas e europeias, de diferentes épocas, favorecendo a construção de vocabulário e repertório relativos às diferentes linguagens artísticas. Habilidade EF15AR25

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