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Reportagem | Gestão | Ensino Médio

Como funciona na prática a reforma do Ensino Médio?

Conheça algumas escolas que já trabalham por áreas de conhecimento e no desenvolvimento de competências e habilidades, como prevê a BNCC do Ensino Médio

Em Feira de Santana (BA), Francilma tenta virar a chave e trabalhar os conteúdos de maneira integrada.

Crédito: Diogo Brasileiro

"Desculpe o transtorno, estamos em reforma”. A plaquinha que muitas vezes surge em frente a lojas e outros tipos de estabelecimentos já anuncia aos visitantes: para reformar algo, é preciso passar por um período de desconforto, de quebra-quebra e de muito investimento. Assim tem sido em muitas escolas desde que a Reforma do Ensino Médio foi aprovada pelo governo federal, em fevereiro de 2017, trazendo mudanças estruturais que têm feito muitos gestores, professores, alunos e pais perderem o sono.

Em abril, como parte da Reforma, o MEC entregou ao Conselho Nacional de Educação (CNE) a última versão do texto da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) do Ensino Médio. Até o fim de agosto, ocorrerão audiências públicas para discutir o documento e a expectativa é de que ele seja homologado ainda em 2018.

Enquanto isso não acontece, diversas redes e escolas mobilizam-se para entender todas as futuras mudanças e seus impactos no dia a dia. Uma delas é pensar o currículo escolar não mais por disciplinas, mas por quatro grandes áreas de conhecimento: Linguagens, Matemática, Ciências Humanas e Ciências da Natureza.

E como isso funcionaria na prática? Desde o começo do ano, o Sesi tem realizado uma experiência pedagógica com 222 alunos da Bahia, do Ceará, de Alagoas, de Goiás e do Espírito Santo. Na nova metodologia, a matriz curricular já foi desenvolvida por áreas de conhecimento e os alunos têm um dia específico para trabalhar Linguagens, outro para Matemática e assim por diante.

“Planejamos nossa aula em conjunto. Uma vez por semana me reúno com professores da minha área e nos debruçamos sobre o objeto de estudo da próxima aula”, explica Nilza Brito, docente de História do Sesi de Feira de Santana (BA). “Cada um faz a leitura daquele objeto com a experiência que tem dentro da sua disciplina.”

No dia da aula, os professores possuem seu momento individual com os alunos, mas estimulam as conexões de conteúdo o tempo todo. “A aula é contínua: quando eu saio, entra o meu colega para ensinar como a Sociologia entende aquele objeto”, exemplifica Nilza.

Quem dá aula na mesma unidade do Sesi é Francilma de Araújo, mas de Língua Portuguesa e Redação. Ela trabalha diretamente com os docentes de Educação Física, Artes e Língua Inglesa. “Por causa disso, estou aprendendo inglês”, brinca. “Com o conteúdo conectado, os estudantes percebem que é uma aula só. O resultado tem sido muito positivo e, em três meses de projeto, eles parecem ter mudado a chavinha.” No entanto, virar a chave e pensar não mais em disciplinas, mas em um conhecimento integrado não é simples: demanda formação continuada e investimento na carreira do professor.

“O incentivo que a BNCC do Ensino Médio dá ao trabalho interdisciplinar é superpositivo, pois o mundo não opera com cada um em seu quadrado. Só que para isso acontecer é preciso uma mudança grande, pois a Educação brasileira é toda compartimentada”, diz Olavo Nogueira Filho, diretor de Políticas Educacionais do Todos Pela Educação. Para conseguir implantar essa experiência pedagógica, o Sesi precisou também de tempo. “Começamos a desenhar o projeto no fim de 2016, mas ele só foi implementado em fevereiro deste ano. De lá para cá, os professores e os gestores passaram por muitas formações com metodologias ativas, em que eles aprenderam como é que seria o trabalho prático”, relembra Clécia Lobo, gerente da Educação do Sesi na Bahia.

Além de se reunirem por áreas, os professores encontram-se quinzenalmente na escola e conversam regularmente com os docentes do Senai, parceiro nessa experiência pedagógica. No novo modelo do Ensino Médio, os alunos terão 1.800 horas para trabalharem o conteúdo curricular básico da BNCC e outras 1.200 destinadas aos itinerários formativos a cada ano.

Em Feira de Santana, o Sesi e o Senai escolheram como itinerário a qualificação profissional dos alunos em eletrotécnica. “O ensino técnico no nosso modelo era realizado em quatro anos e cada instituição tinha o seu currículo próprio. Agora ele terá duração de três anos, com uma só matrícula e um diploma integrado”, esclarece Clécia. A ideia é que a experiência, em poucos anos, seja replicada para quase toda a rede Sesi de Ensino Médio, com outros cursos técnicos ofertados.

Prática e protagonismo

O professor de Química Adriano Cúrcio (ao centro) atua em parceria com os colegas de Biologia e Física para integrar os conteúdos do Ensino Médio na escola Ivo Silveira, em Palhoça (SC)

Crédito: Eduardo Lyra

A rede estadual de Santa Catarina também possui um projeto alinhado a alguns pontos da BNCC e da reforma do Ensino Médio. Em parceria com o Instituto Ayrton Senna, 30 escolas em tempo integral no estado seguem um currículo pensado em áreas de conhecimento e que combina o desenvolvimento de habilidades cognitivas com socioemocionais.

“De maneira proposital, os conteúdos são pensados para que o aluno não aprenda só o básico, mas que se torne um cidadão autônomo, capaz de resolver problemas e trabalhar em regime de colaboração, por exemplo”, elucida Helton Souto Lima, gerente do Instituto Ayrton Senna. Para que isso ocorra, quase 30% dos currículos dessas escolas contemplam projetos e aulas práticas.

“Além do livro didático, trabalhamos com um material que aborda assuntos do cotidiano dos alunos”, explica Adriano Cúrcio, professor de Química da Escola de Educação Básica Ivo Silveira, no município de Palhoça (SC). “Não ensino mais uma Química pura, mas contextualizada e quase sempre em parceria com os docentes de Biologia e Física. Estamos constantemente juntos no laboratório ou saindo a campo.”

Na próxima atividade, eles levarão os alunos a um alambique para mostrar desde o plantio da cana até o processo de destilação da cachaça. Também complementam o currículo da escola cinco aulas semanais chamadas de Estudos Orientados. Nessas atividades, três professores são escalados para cuidar das turmas que estudam juntas, tiram suas dúvidas e realizam atividades do conteúdo da semana. No Projeto de Vida, outro instrumento usado na matriz curricular dessas escolas, o aluno olha para si mesmo e começa a planejar o futuro, sua carreira ou aquilo em que deseja se especializar profissionalmente.

E todo ano há um Projeto de Pesquisa, para identificar problemas na escola, na comunidade e no Brasil. “São quatro meses de teoria e depois quatro meses de prática para ajudar a solucionar esses problemas”, garante o professor Adriano. O resultado de todas essas combinações em um currículo formatado para considerar a integralidade do aluno e para o desenvolvimento de habilidades é percebido no dia a dia na escola pelo professor de Química. “Hoje eu realmente posso dizer que os estudantes passaram a ser protagonistas da sua aprendizagem”, comemora Adriano.

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