Como usar a Sibéria para ensinar temperatura aos alunos

A Rússia, país que sedia a Copa do Mundo 2018, pode ser um tema para discutir uma série de questões em sala de aula

POR:
Naiara Albuquerque
Aldeia de Oymyakon, na Sibéria: habitantes se acostumaram a conviver com as baixas temperaturas e as crianças vão para a escola, mesmo nos dias muito frios   Foto: Wikimedia Commons/Wikipedia 

A paisagem gelada, o berço de Lênin, do comunismo e da Revolução Russa. São essas algumas das ideias que surgem espontaneamente ao pensarmos na Rússia. O país é conhecido também por sua multiculturalidade e riqueza linguística, cultural e religiosa. E por alguns fatos curiosos: o país sede da Copa do Mundo de 2018 detém um dos recordes climáticos mais extremos. Oymyakon, na Sibéria, mantém o recorde de lugar habitado mais frio em todo mundo.

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De acordo com a Organização Meteorológica Mundial (OMM), em 6 de fevereiro de 1933, os termômetros marcaram -67.7ºC recorde de temperatura mais baixa que permanece até hoje. Sim, estamos falando de um lugar no qual os moradores têm de lidar com temperaturas realmente muito baixas no inverno. A aldeia de Oymyakon, localizada no leste da Sibéria, na República de Sakha, na Rússia, abriga cerca de 500 habitantes e é conhecida ainda hoje por registrar temperaturas na faixa de -45ºC a cada inverno. Ou seja, todos os anos.

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Daí podemos dizer que existe frio. E existe o frio siberiano.

Em janeiro deste ano, a temperatura caiu em uma terça-feira para -66,6ºC. De acordo com a Nasa, agência espacial norte-americana, seria mais frio do que na superfície de Marte. Dois dias depois, com a marca já de volta a -50ºC, jovens russas foram fotografadas em Yakutsk, a duas hora e meia de Oymyakon, com os cílios congelados. Os habitantes locais têm até uma brincadeira que fazem com as equipes de reportagem que visitam a aldeia para ter um gostinho do que significa viver num lugar tão frio: eles fervem uma panela de água, vão para o lado de fora e jogam a água no ar. Imediatamente, ela se transforma em uma "nuvem" gelada. Só vendo para acreditar.

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Curiosamente, o nome da aldeia significa "água descongelada", uma referência à fonte de águas termais que fica ali perto. Tanto que, originalmente, o local era usado pelos criadores de renas que traziam os rebanhos para mergulhar nas águas quentes.

Há uma discussão de que o recorde de frio registrado em Oymyakon deveria ser ainda mais congelante. Pesquisadores do site Weather Underground, um serviço comercial de previsão de tempo, afirmam que nessa vila siberiana, o frio chegou a bater em -108ºC, mas não há evidências suficientes, portanto, ficamos com o número atual.

Ainda assim, Oymyakon, na Sibéria, perde feio para um outro local no mundo em termos de frio.

O lugar mais frio e não habitável do globo terrestre fica na Antártida, mais especificamente no leste do platô antártico. O recorde data de 9 de dezembro de 2013, quando os termômetros registraram a temperatura de -93,2ºC, de acordo a Nasa. Realidade distante dos brasileiros, que podem presenciar temperaturas acima dos 40ºC durante o verão.

De volta à Sibéria
O frio intenso da região siberiana pode ser explicado por alguns fatores: a localização, próxima ao Polo Norte, e o efeito da continentalidade no país. De acordo com Denizart Fortuna, geógrafo e professor associado da Faculdade de Educação da Universidade Federal Fluminense (UFF), o primeiro fator explica a incidência de fortes massas de ar polares, enquanto o segundo explica a variação térmica. “O resultado é o frio muito intenso, especialmente entre os meses de dezembro e março”, conta.

Enquanto o Brasil tem um inverno considerado curto, entre o final de junho e setembro, o inverno russo é rígido e acompanha o cotidiano da população durante boa parte do ano, entre o final dos meses de novembro e março. O “inverno general”, como ficou popularmente conhecido esse longo período, pode variar de acordo com a região da Rússia. Com mais de 17 milhões de quilômetros quadrados de extensão territorial, a Federação Russa é o maior país do mundo em termos de dimensão territorial o que contribui para essa variação climática. Para se ter uma ideia, o Brasil detém pouco mais de 8,5 milhões de quilômetros quadrados e é o quinto maior país do mundo.

Para a socióloga e pesquisadora russa Svetlana Ruseishvili, além da diferença climática, a dinâmica cotidiana dos russos é muito distinta da brasileira. Ela, que morou em Moscou e hoje vive no Brasil, explica que os russos se adaptaram ao clima hostil. “Para construir casas, por exemplo, é necessário furar a terra e a construção civil se adaptou a essas condições climáticas. As crianças vão estudar nessas condições, e muito raramente as escolas fecham no inverno”, explica.

As condições morfológicas do solo são únicas em muitas partes da Rússia, como é o caso da aldeia de Oymyakon. "O solo em Oymyakon é coberto de gelo permanentemente, o que acentua a severidade dos graus negativos marcados nos termômetros dessa região”, afirma Liliam Rosa, graduada em Geografia pela Universidade de São Paulo (USP) e especialista em análise ambiental. O fenômeno tem o nome de permafrost e pode ser encontrado no subsolo de regiões muito frias, sejam polares e subpolares, como na Sibéria e no Ártico. O permafrost ou pergelissolo é uma das principais reservas de água doce no planeta.

Com a superfície congelada, os moradores de Oymyakon enfrentam dificuldades impensáveis para a maioria das pessoas. Durante o inverno, os habitantes se contentam em comer carne crua ou congelada. Para ir ao banheiro, é preciso sair de casa, pois eles são casinhas construídas à parte das moradias. E, se por acaso alguém morrer durante o inverno, é preciso acender uma fogueira no chão para tentar descongelar a terra e, somente então, cavar uma cova para enterrar o ente querido.

Termômetro marca temperatura negativa durante o inverno em Oymyakon, na Sibéria  Foto: Reprodução/Facebook



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