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Prêmio Victor Civita: projetos simples também têm chance de vencer

Projeto de uma vencedora do Prêmio Victor Civita - Educador Nota 10 conduz a turma pelas etapas da pesquisa científica. Ao estudar a transmissão, a prevenção e o tratamento da dengue, os alunos viraram especialistas em micro-organismos

por:
Rodrigo Ratier
30 de Junho 2011 - 10:10
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Prêmio Victor Civita - Educador Nota 10
<strong>PESQUISA CIENTIFICA</strong>  Os alunos viraram especialistas em micro-organismos
PESQUISA CIENTIFICA  Os alunos viraram especialistas em micro-organismos

Grandes projetos nem sempre nascem de perspectivas inovadoras, abordagens inusitadas ou sacadas geniais. Na verdade, na maioria das vezes, fazer o simples costuma dar resultados melhores em termos de aprendizagem.

No caso do ensino de Ciências, o simples (que não se confunde com fácil, já que exige um bocado de conhecimento didático) é propor atividades em que a disciplina ajude a saber mais sobre o conteúdo. Em outras palavras, trata-se de pôr a garotada para trabalhar como fazem os cientistas, pesquisando em livros, entrevistando especialistas, testando hipóteses em experimentos e registrando as conclusões.

Seguindo esse caminho, Rosana Helena Brocco Zaffalon, professora da EMEB Thiago Aranda Martin, em Sinop, a 508 quilômetros de Cuiabá, levou seus alunos de 5º ano a mergulhar fundo nas pesquisas sobre as causas, as formas de transmissão, a prevenção e o tratamento da dengue.

Em 2009, a doença atormentou a cidade de 110 mil habitantes: mais de 5 mil pessoas contraíram a enfermidade (incluindo diversos estudantes, funcionários da escola e docentes - até a própria Rosana, "premiada" duas vezes). "A questão sensibilizou muito a turma. Aproveitei que o tema já constava do currículo e preparei um projeto para que os estudantes pudessem compreender o que estava ocorrendo", explica.

Bem-sucedido, o projeto rendeu à professora o Prêmio Victor Civita - Educador Nota 10. "A força do trabalho foi favorecer a construção da cultura científica, auxiliando os alunos a entender como a pesquisa serve para comprovar hipóteses sobre o tema investigado", diz Luciana Hubner, gerente de formação da Sangari Brasil e selecionadora do prêmio.

O projeto é extenso e tem vários desdobramentos. Nesta reportagem, optamos por contemplar, na sequência didática, um recorte específico: uma introdução aos micro-organismos e a alguns de seus principais tipos (bactérias, vírus e fungos), conteúdo a que os alunos podem ser apresentados já no 5º ano (leia a sequênica didática). "A expectativa não é que eles conheçam minúcias sobre os seres microscópicos, mas sua importância, por exemplo, para a decomposição, e que os relacionem a atividades cotidianos, como a alimentação e os hábitos de higiene", destaca Luciana.

Erros mais comuns

Terceirizar a explicação. Não ser especialista num tema não deve servir de desculpa para delegar a tarefa de ensinar a palestrantes convidados, por exemplo. Cabe ao professor esclarecer as dúvidas e incorporar as novas informações às aulas.

Opor seres "do bem" e "do mal".
Equívoco recorrente quando o conteúdo são os micro-organismos. Mostrar a importância deles para o funcionamento e a manutenção de vários ecossistemas é a melhor forma de romper o dualismo.

Tratar questões de saúde como campanhas de conscientização. Memorizar informações e palavras de ordem não costuma ajudar na prevenção. Investigar a fundo as causas e consequências do problema ajuda muito mais a modificar comportamentos.

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Etapas essenciais a produção do conhecimento científico

Rosana, que dedicou aulas ao longo de cinco meses para detalhar os principais aspectos relacionados à doença, pôde conceber um conjunto completo de atividades para introduzir o modo de produção do conhecimento científico.

Leitores assíduos da NOVA ESCOLA vão perceber que o assunto não é novo. Na edição de setembro de 2008, a reportagem É Tudo na Prática abordou as melhores maneiras de valorizar a atitude investigativa entre os alunos das séries finais do Ensino Fundamental.

Para classes do 1º ao 5º ano, os procedimentos são semelhantes. Não custa repassar os principais, utilizando os exemplos práticos da turma de Rosana:

Pesquisa inicial
É o momento em que a garotada vai tomar contato com a questão a ser investigada e com as informações preliminares, que permitem contextualizar o tema. No caso de Rosana, a primeira providência foi provocar a classe com uma pergunta: por que morrem tantas pessoas com dengue em Sinop? Depois de ouvir e registrar no quadro o que os alunos sabiam sobre o tema, a educadora selecionou fontes diversificadas - reportagens das TVs locais, de revistas de divulgação científica, como Superinteressante e Ciência Hoje e verbetes de enciclopédia que já pudessem dar algumas pistas para confirmar (ou refutar) as ideias levantadas.

Com a ajuda de um dicionário de Ciências construído pela própria turma (a ideia era que a terminologia científica não fosse uma barreira para a compreensão), todos entenderam que a doença era transmitida por um mosquito, o Aedes aegypti, mas que seu causador era, na verdade, um vírus, inoculado pela picada da fêmea.

Ao estudar o ciclo de vida do inseto, ficou claro que a água parada e limpa funcionava como um berçário para as larvas - daí a importância de eliminar esses focos. Em seguida, a classe se debruçou sobre tabelas de casos de dengue nos bairros do município. "Eles começaram a perceber que havia relação entre áreas devastadas ou com muita água parada e o alto número de casos", afirma Rosana.

Contato com especialistas
Nessa etapa, é possível aprofundar o entendimento iniciado pela pesquisa às fontes de informação. Ajuda muito discutir previamente com a turma como construir um bom roteiro de perguntas, que contemple as dúvidas surgidas na investigação e também nas aulas expositivas. Também vale lembrar que a atividade é um apoio ao entendimento do conteúdo e não substitui o trabalho do professor.

Para a turma de Rosana, o contato com uma pesquisadora da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT), cujo campus fica ao lado da escola, foi fundamental para resolver impasses surgidos no levantamento inicial. Por exemplo: uma reportagem dizia que o mosquito da dengue já nasce contaminado. Já outra afirmava que o Aedes precisa picar uma pessoa para se infectar. "A bióloga esclareceu que, se a fêmea estava infectada, havia, sim, a possibilidade de os ovos também estarem", diz.

Observação
Fase dedicada aos experimentos. É também o momento para trabalhar procedimentos científicos, como comparar e registrar as observações realizadas. Rosana aproveitou a oportunidade para introduzir noções básicas de desenho científico, em que representar com fidelidade o objeto observado é a premissa central.

No trabalho com microscópio, ficaram claras as diferenças anatômicas nas antenas do Aedes macho e da fêmea e nas rajadas brancas que o distinguem de outro tipo de mosquito, o Culex. Na observação do crescimento de uma colônia de bactérias que crescia em placas de vidro, a professora abordou  a ideia de escala e a diferença de tamanho entre vírus e bactérias. "Eles entenderam que, enquanto determinadas colônias de bactérias podem ser vistas a olho nu ou com lupa, os vírus precisam ser observados em microscópios eletrônicos, que podem ampliar a imagem real em até 100 vezes", afirma.

Registro
Diz respeito às formas de documentação do processo de investigação e de suas conclusões. Não necessariamente precisa assumir a forma de um produto final: muitas vezes, um relatório a ser socializado com a classe, construído em pequenos grupos, por exemplo, pode dar conta do recado. "Na disciplina, a divulgação dos conhecimentos científicos é uma prática importante. Nunca é demais lembrar, entretanto, que as apresentações não podem ser o cerne do trabalho", adverte Luciana.

Como a turma de Rosana decidiu produzir um folheto informativo sobre formas de contágio e prevenção, foi preciso primeiro conhecer bons exemplos do gênero. "Pedi à Secretaria de Saúde panf letos para a turma analisar a forma e o conteúdo", conta Rosana. Só depois foi a hora de realizar a seleção dos dados, confeccionar o material e distribuí-lo aos alunos. Conduzida assim, a etapa não destoa do restante do trabalho. Afinal, saber compartilhar conhecimentos é uma característica tão importante a um cientista quanto a pesquisa, a observação e o registro.

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=== PARTE 3 ====

Passo a passo: uma pesqusia do início ao fim

O percurso proposto pela professora deu chance aos alunos de pôr à prova suas ideias sobre as causas da dengue e entender as melhores maneiras de preveni-la

1. Pesquisa inicial

1. Pesquisa inicial
O levantamento incluiu um mapeamento dos casos de dengue por bairro. A turma antecipou causas da doença.

2. Observação

2. Observação
A garotada esquadrinhou o entorno da escola, verificando as áreas propensas à proliferação de criadouros.

3. Registro

3. Registro
Os alunos conferiram as diferenças anatômicas entre os mosquitos machos e fêmeas e as registraram em desenhos.

 

A professora nota 10 Rozana Helena Brocco Zaffalon

Rosana Helena Brocco Zaffalon. Foto: Marina Piedade

Professora da EMEB Thiago Aranda Martin, em Sinop, MT. Natural de Catanduva, a 390 quilômetros de São Paulo, leciona há nove anos em Sinop. É graduada em Pedagogia pela Universidade de Cuiabá (Unic) e especialista em Psicopedagogia pelo Instituto Cuiabano de Educação (ICE).

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Contatos
EMEB Thiago Aranda Martin,tel. (66) 3511-1915
Luciana Hubner
Rosana Helena Brocco Zaffalon

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