Quando sua aluna vira sua colega de trabalho na escola

Professora e aluna se reencontram 19 anos depois no Time de Autores

POR:
Paula Peres
Janaína e Denise: 19 anos separaram professora e aluna que se reencontraram na Virada de Autores. Foto: Mariana Pekin

“Ah que orgulho! Minha aluninha que deu certo!” dizia, para quem quisesse ouvir, a professora Janaína Lopes Ferreira, de 44 anos. Janaína é uma das autoras dos planos de aula de inglês do Time de Autores NOVA ESCOLA, e o momento de euforia aconteceu em um dos intervalos da Virada de Autores, em abril.

A professora tinha um bom motivo para estar tão contente: acabava de saber que Denise Aparecida Chiconato, uma de suas ex-alunas, também estava na Virada, como autora de planos de aula de Ciências. Entre 104 professores de todo o Brasil, professora e aluna se reencontraram 19 anos depois.

A feliz coincidência foi descoberta por uma colega em comum das duas, que, ao saber que Denise era de Ibitinga, no interior de São Paulo, mencionou que havia uma professora do time de inglês da mesma cidade. “Se for quem eu estou pensando, ela foi minha professora!” surpreendeu-se Denise. “Fiquei procurando uma mulher de cabelos compridos e mais claros”, lembra. “Quando vi, ela estava na minha frente, de cabelos mais curtos e escuros. Janaína mudou muito!”

Janaína, por sua vez, reconheceu a ex-aluna de primeira. “Assim que olhei para seu rosto, pensei que a conhecia de algum lugar, e logo lembrei dela novinha assistindo às minhas aulas”, emociona-se. Janaina garante que Denise era bem obediente e quietinha quando tinha 12 anos e frequentava o 6º ano da E.E. Professora Josepha Maria de Oliveira Bersano. “Mas naquela época, todos os alunos eram”, pondera.

A professora reconhece que tinha uma postura mais afastada dos alunos e lembra de como era a sala de aula da década de 1990. “Eu era brava, os alunos não tinham muita liberdade. Acreditava-se que respeito e obediência eram sinônimos, então os alunos tinham que ficar calados. Hoje o aluno é mais próximo, temos essa ideia da Educação interdimensional. Naquela época não havia nada disso, era o conteúdo pelo conteúdo, minha aula era tradicionalíssima”.

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Duas décadas depois, muitas outras coisas mudaram. Para o bem e para o mal, segundo Janaína. “Dizem que a escola era melhor antes, eu não vejo assim. Hoje temos uma escola mais moderna, mas por outro lado vemos mais indisciplina. Mas por que tem indisciplina? Eu sinto que alguns estudantes não conseguem entender que disciplina não é obediência. Eu não quero aluno obediente na minha aula, quero aluno que me respeite, porque assim vou respeitá-lo em troca. Mas tem até professores que confundem isso, ainda hoje”, lamenta.

Já Denise, que começou a lecionar para essa nova geração de alunos desde 2010, diz que sua postura na sala de aula é outra, mas admite que já teve uma visão mais conservadora da relação entre aluno e professor. “Comecei como professora eventual, e alguns alunos acham que não devem respeitar o professor que só vai de vez em quando. Então eu era bem fechada, tinha medo de não ser respeitada por ser mais nova”, conta.

A mudança aconteceu quando ela percebeu que era querida, mesmo distante. “Eu tinha uma turma muito boa, para quem eu gostava de dar aulas. Mas era uma relação distante: eu entrava, dava a aula e saía. No meu aniversário, eles fizeram uma surpresa, compraram um bolinho. Eu pensei ‘Gente, eles gostam de mim!’. Aquilo foi um divisor de águas”.

Hoje, Denise é amiga da turma o suficiente para ganhar camisetas estilizadas com seu apelido. “Odeio chegar na sala e estar aquele silêncio. Já começo a fazer piada, brincar para ver se eles conversam comigo. Eu gosto do diálogo”, afirma.

Janaína, apesar de sua longa carreira, concorda com Denise, e conta que não teve medo de se despir dos tradicionalismos para reaprender a ensinar. “Você vai estudando, pesquisando, mudando sua postura. É muito gostoso isso de entender um jeito novo de dar aula. Hoje estou reaprendendo pela segunda vez, porque estou imersa no universo da Educação integral, o foco mudou”, diz a professora, que já combinou de visitar Denise, ex-aluna e atual colega, para trocar experiências e aprender com quem um dia ela ensinou.

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