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Matéria de capa | Gestão | Equipe


Por: Maggi Krause

Parceria que faz a diferença

Como construir uma relação de respeito e colaboração constante entre diretores de escolas e secretários de Educação?

Em Santiago (RS), a diretora Márcia (à dir. na foto) e a secretária Mara batalharam juntas para abrir a rua e garantir a segurança no transporte. Crédito: Germano Rorato

Burocrática, distante, silenciosa ou tensa. Se uma dessas características define o contato entre gestor escolar e secretaria de Educação da rede, é hora de discutir a relação e pensar em um novo modelo. Quem está à frente da instituição de ensino não pode se sentir abandonado ou pressionado ao trabalhar. Do mesmo modo, secretário e sua equipe não podem ser tachados de invasores quando chegam para uma visita ou de intrometidos ao solicitar informações. “As escolas precisam de autonomia, mas isso é diferente de independência. Caso contrário, não se constitui uma rede coesa, com todos olhando na mesma direção e tendo os mesmos objetivos”, diz Cleuza Repulho, ex-secretária de Educação de municípios paulistas e ex-presidente da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime).

Evidentemente, as dimensões de cada rede influenciam bastante no tipo de relação que a secretaria consegue manter com as instituições de ensino. Quanto menor, obviamente, mais fácil criar e implementar um esquema de comunicação eficiente com os diretores de maneira permanente e, muitas vezes, direto com o secretário de Educação. Redes maiores precisam traçar esquemas mais sofisticados. Afinal, as atribuições e a agenda dele não dão conta de atender a todos os gestores escolares pessoalmente, mesmo porque eles são muitos e estão espalhados pelo município. Mas isso não pode ser desculpa para o isolamento. É fundamental manter um canal aberto para a comunicação e acionar funcionários, como supervisores de ensino, para se responsabilizar por isso. A tecnologia, inclusive, não só pode como deve ser usada. Grupos de WhatsApp, por exemplo, reunindo escolas e gabinete, são uma ferramenta veloz, apesar de informal, para manter uma linha de conversa aberta (leia o quadro no final desta página com dicas para valorizar o diálogo).

Nesta reportagem, NOVA ESCOLA conta um pouco da relação entre secretaria e gestores escolares em duas redes: Santiago (RS), de pequeno porte, e Maringá (PR), de médio porte.

Pedidos de ajuda

Em Maringá (PR), a diretora Cyntia (à dir.) contou com o respaldo da secretária Valkiria ao enfrentar a resistência da equipe no início da gestão. Crédito: Sérgio Rannali

“Não raro, o clima pesado entre gestores e secretarias de Educação surge se cobranças são feitas pelo gabinete, mas não são dadas garantias de estrutura para que os problemas sejam resolvidos pelas escolas”, diz Daniela Patti do Amaral, professora e coordenadora do Grupo de Estudos e Pesquisas dos Sistemas Educacionais (Gesed) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

No casamento perfeito entre secretaria e escola, é preciso disposição do gabinete para ouvir os diretores e comunicar a eles as políticas públicas. Ao mesmo tempo, é responsabilidade da unidade solicitar apoio para que possa melhorar no que que envolve ensino e aprendizagem. Ou seja, a burocracia tem de ser usada a favor de ambos os lados e o contato entre eles deve ser constante e colaborativo. Cleuza ainda ressalta que os atores precisam ter consciência de que a secretaria existe para servir às escolas (e não o contrário) e que o órgão não pode usar avaliações e levantamentos de dados para ameaçar ou punir. “Os diretores que pedem ajuda não demonstram incompetência, e sim maturidade. A secretaria deve ter sensibilidade para não tratar a todos igualmente. Cada escola tem necessidades específicas”, explica ela.

Abrindo caminhos


Márcia Menezes é diretora há seis anos da EMEF Boa Vista, em Santiago. Durante a gestão da secretaria anterior, tinha de tomar a frente nas decisões que deveriam ser compartilhadas com o gabinete e muitas vezes, por causa da ausência do órgão, precisou recorrer à ajuda de empresas e familiares dos estudantes. “A equipe da secretaria era pouco parceira, não apostava na escola”, conta a gestora. Definitivamente, o modelo ausente de gestão não era originado pelo tamanho da rede: em todo o município, há somente 22 instituições de ensino, com menos de 4 mil alunos. Em 2012, por exemplo, a diretora enfrentou praticamente sozinha a ameaça de a unidade ser fechada devido às poucas matrículas (havia apenas 150 estudantes). Ela havia assumido a instituição naquele ano e não concordara com a ordem do prefeito. Convocou os professores para tentar reverter o cenário e iniciou projetos para manter a EMEF Boa Vista na ativa: reuniu a comunidade para conversar sobre as impressões e os anseios das pessoas sobre a escola, repensou todo o currículo, planejou aulas que engajassem mais os alunos e centradas em temas da atualidade. Deu certo, e hoje a escola tem 380 alunos e muita procura por vagas. A realidade de Márcia foi assim, solitária, até Mara Rebelo assumir o cargo de secretária de Educação. “Minha relação com a equipe dela é totalmente diferente da que tinha com a da gestão anterior. Mara dá liberdade para que nós, diretores, contemos nossas angústias e propõe resolver os problemas em conjunto”, explica Márcia.

Um bom exemplo de trabalho em parceria entre a dupla envolveu o entorno da escola e o transporte de alunos da Boa Vista. A unidade ficava em um beco sem saída e, há três anos, a gestora escolar estava em busca de uma solução para evitar acidentes durante a manobra dos veículos. “Juntas, eu e Márcia negociamos a doação de um terreno para abrir a rua, acionamos a secretaria de obras do município e mobilizamos o prefeito”, diz Mara. “Para mim, a melhor definição da secretaria anterior era a de um órgão que representava a autoridade. Hoje, secretária e equipe trabalham de forma colaborativa comigo e fazem as vezes de ponte entre a escola e a prefeitura sempre que necessário”, diz Márcia. Mara zela para que a equipe dela visite as unidades. “Quando era diretora escolar, tinha receio de falar com a equipe da secretaria de Educação. Quero fazer diferente”, diz.

Apoio na transição

Na secretaria de Educação de Maringá, no Paraná, quando Valkiria Trindade assumiu o cargo de secretária do município, coordenou um processo seletivo e todos os diretores de escolas foram substituídos. Na EM Professor José Marchesini, a troca não deu certo. A nova gestora não geria bem o fluxo de documentos da unidade e deixava a desejar na gestão pedagógica. Passado um tempo, a secretária optou por intervir e empossar Cyntia Gomes, que tinha sido diretora de outra escola
durante a gestão municipal anterior. Ao chegar, Cyntia enfrentou a resistência de um grupo de professores, o que certamente dificultaria desempenhar suas funçõe e implementar mudanças. Mas a diretora não estava abandonada à própria sorte. “Quando me apresentou à equipe, Valkiria me apoiou e pediu a todos para trabalharmos em conjunto”, explica.

Para valorizar quem já trabalhava na instituição e fortalecer a gestão de Cyntia, a secretaria Valkiria também tomou a decisão de promover duas professoras da escola ao cargo de supervisoras da Marchesini, em vez de chamar profissionais de outra unidade.

Em dezembro de 2017, com a implantação da eleição democrática na rede, a escolha de Cyntia para o cargo de direção foi reconhecida por toda comunidade da EMEF José Marchesini: ela recebeu 156 votos das famílias dos alunos, ante 44 da candidata da oposição.

A parceria firmada em Maringá entre o gabinete e a escola reflete a observação feita por Daniela, da UFRJ, de que é preciso estabelecer a legitimidade da equipe gestora e fazer uma escuta permanente que permita encurtar as distâncias entre os resultados da escola e as metas da rede. Cleuza Repulho também reforça que o maior desafio, tanto numa diretoria escolar quanto na secretaria de Educação, é conquistar a confiança das pessoas que fazem parte da equipe. “Fica mais fácil quando os processos de gestão são democráticos e transparentes e, principalmente, se o trabalho realizado garante direitos e não privilegia ninguém”, ela explica.

OS DOIS LADOS DA MESMA RELAÇÃO

Dicas para diretores e secretários se apoiarem em prol da qualidade, sem ruídos.

A POSTURA DO DIRETOR
SOLICITAÇÕES COM CONSCIÊNCIA: Fazer pedidos condizentes com as possibilidades da secretaria. Convém estabelecer prioridades, tentando resolver um problema de cada vez.
SEM RECEIO DO PAPEL INSTITUCIONAL: Apresentar dados para a secretaria e pedir ajuda sempre que necessário explicando os motivos.
JUNTO COM A COMUNIDADE: Mostrar à secretaria que as decisões são colegiadas e os pedidos originários de anseios de diversos grupos escolares (funcionários, pais e alunos).

A ATITUDE DA SECRETARIA

ESCUTA ATIVA E COMUNICAÇÃO DIRETA: Manter um canal aberto de contatos oficiais (como e-mail e telefone) e mais informais (por exemplo, grupos de WhatsApp) com os diretores de escolas.

CLAREZA DE OBJETIVOS: Estabelecer um cronograma de reuniões e informar sobre metas e objetivos pedagógicos da rede e decisões administrativas importantes.

TRANSPARÊNCIA: Abrir as contas públicas para que os gestores saibam onde são alocados os recursos. Assim, todos compreendem o tamanho dos problemas e a dimensão da verba disponível. Ao acompanhar a situação, é possível pensar nos próximos passos, dar sugestões e fazer cobranças com mais clareza e segurança.