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“Por que aprender o que é um equinócio?”

Perguntas como essa podem nos levar a um questionamento saudável sobre o que ensinamos.

POR:
Felipe Bandoni

Ilustração: Adriana Komura

Você certamente já ouviu uma pergunta como essa, acima, principalmente se trabalha com turmas de adolescentes. Embora questões assim e “Por que saber aquilo se nunca vou usar na vida?” muitas vezes sejam ditas em tom de desafio, quero propor que as levemos a sério por alguns momentos.

Essas indagações mostram que precisamos refletir sobre a forma como ensinamos. Pensemos no equinócio, estudado em Ciências. Se o professor simplesmente enuncia a definição e pede à classe que a copie no caderno, não se estabelece diálogo com os alunos e a palavra corre sério risco de cair no vazio. Mas, se propõe que eles pesquisem sobre o termo, entra em cena um saber que será valorizado para sempre, tal como acontece quando descobrimos o significado de uma palavra. Como pesquisar sobre aquilo que não se sabe? Resolver esse problema é um aprendizado! E, se o educador requisitar, além disso, que os estudantes façam uma apresentação sobre as descobertas, também serão mobilizadas habilidades de expressão oral ou escrita. Assim, o equinócio é apenas o campo em que acontece o jogo, o substrato onde se desenvolve o aprender a fazer.

No entanto, não são apenas habilidades que nos interessam na escola. Estudando com atenção a palavra em si, descobriremos que o prefixo equi vem do latim e significa igual, e que está presente também em termos como equivalente, equilátero, equidade e equilíbrio. A outra parte, nócio, é derivada de noite. Equinócio, portanto, significa, literalmente, “igual à noite”. Não é à toa: o termo dá nome às datas, em março e setembro, em que a noite tem exatamente a mesma duração que o dia (12 horas). Conhecer o significado não é só mera curiosidade, pois abre portas para a construção de relações entre diferentes conceitos. E essa é justamente mais uma função da escola: despertar a capacidade de relacionar conhecimentos de vários campos para ampliar a compreensão das coisas.

Note que a palavra equinócio evoca um imenso castelo de conhecimento, construído com base em observações e experimentos feitos por muitas pessoas ao longo de séculos. Esse castelo, entre muitas coisas, nos leva a compreender que habitamos um planeta arredondado e que gira em torno do Sol, além de dar ferramentas para lançar satélites e permitir uma explicação lógica sobre as estações do ano. Por isso, estudar o termo ajuda a dar sentido ao mundo, preparar as pessoas para tomar decisões e solucionar problemas. Veja quanta utilidade em explorá-lo!

A provocação dos estudantes pode ser saudável. Se nossa única resposta para “por que estudar isso?” for “porque você vai precisar no futuro” ou “porque vai cair na prova”, talvez seja o caso de rever seriamente se o conteúdo deve ser mantido no currículo. Mas, se as justificativas forem claras, podemos argumentar com tranquilidade e ter certeza de que vale a pena ensinar e aprender.

FELIPE BANDONI é doutor em Biologia pela USP e professor na Educação de Jovens e Adultos (EJA) do Colégio Santa Cruz, em São Paulo