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Por: Rodrigo Ratier

Ser professor é lidar com a ansiedade

Que tal repensar a ambição de controlar tudo? Imprevistos positivos podem ocorrer em aula.

Ilustração: Adriana Komura

"No meu primeiro dia lecionando, uma segunda-feira, vomitei antes da aula porque estava aterrorizada”, anuncia a americana Roxane Gay em seu livro de memórias Fome. “Entrei em minha primeira sala de aula com o coração disparado, transpirando por todo lado, minha cabeça zunindo com todos os meus temores e as minhas inseguranças”, descreve. “Percebi que teria de fazer tudo outra vez na quarta-feira e na sexta-feira, semana após semana por um semestre inteiro.”

Talvez o caso de Roxane seja um pouco extremo. Mas me parece inegável que ser professor é lidar com a ansiedade. Ficamos ansiosos com aquilo que não podemos controlar – e haja coisas incontroláveis em uma sala da aula! Algumas inquietações dizem respeito ao próprio ato de ensinar. Vou me sair bem? Serei compreendido? A atividade em grupo vai funcionar? Conseguirei engajar a turma? Terei tempo de passar todo o conteúdo? Outras se relacionam às nossas encanações particulares. Roxane Gay, por exemplo, relata o medo da zombaria por ser gorda – ela chegou a pesar 260 quilos. Há quem tenha receio de não estar bem-vestido, de não ser simpático, de ser discriminado pelo grupo de professores, de se sentir vigiado... E por aí vai. Perceba que o padrão mental é sempre imaginar o pior cenário. Isso porque a cabeça do ansioso tende a fabricar catástrofes. É como se o cérebro, sob o ataque da ansiedade, se transformasse num editor sensacionalista que só olha o lado ruim da vida, sem compromisso com a realidade.

Quando entramos nesse estado, o que fazer? Preparar-se bem é o básico. A matéria-prima do trabalho de um bom professor é o conhecimento didático. No fim das contas, é isso que garante o respeito dos colegas e dos alunos. Sabendo bem o que estamos fazendo, administramos parte do que está fora de nosso controle. Ter mais segurança – aquilo que na gíria chamamos de “botar fé no próprio taco” – significa menos ansiedade.

Mas ser sabido e confiante não garante o sucesso. Por isso a necessidade de um segundo elemento, a autocompaixão. Mais que humano, errar é normal, e a maioria dos deslizes em sala acaba não sendo grave (para os graves existem algumas palavrinhas mágicas, sendo a principal delas “desculpe-me”). Ter autocompaixão não significa ser desleixado, mas evitar a zona de cobrança excessiva que nos paralisa pelo medo de errar.

Por fim, que tal repensar a ambição de controlar tudo e desejar que a aula transcorra conforme você imaginou? Agilidade para driblar os imprevistos e replanejar são competências cada vez mais fundamentais ao professor. Abrir-se ao imponderável pode ser libertador! Em vez de pensar em tudo que pode dar errado, vamos mentalizar as coisas imprevisivelmente maravilhosas que podem acontecer? Está nas nossas mãos trabalhar o estado mental com que iremos abrir a porta da sala de aula.

RODRIGO RATIER é repórter especial de NOVA ESCOLA e doutor em Educação pela Universidade de São Paulo (USP)