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Reportagens | Projeto Pedagógico


Por: Rodrigo Ratier

Especialistas em tudo

Há 34 anos uma escola pública paulistana tem professores polivalentes para turmas do 6º ao 9º ano. Mesmo com bons índices, é um caso isolado. Entenda por quê

PARA ENTENDER TODAS AS ÁREAS: Colaboração entre docentes é a chave para a polivalência

Crédito: Sidnei Lopes

1 GRUPO DE ESTUDOS: É o coração da polivalência nos anos finais do Ensino Fundamental. Uma vez por semana, os docentes da EMEF Presidente João Pinheiro tiram dúvidas entre si e planejam as aulas.

O ano era 2016, e Natália Maria Salla, 31 anos, estava em busca de uma escola para lecionar. Professora da rede municipal de São Paulo, ela investigava a lista de vagas disponíveis quando se surpreendeu com um solitário nome grafado em vermelho: EMEF Presidente João Pinheiro. Acompanhando o nome, um asterisco informava: “Essa unidade possui projeto pedagógico diferenciado”.

Curiosa, Natália ligou para saber a diferença. “Vocês são como a Amorim Lima?”, perguntou, referindo-se à instituição que tem classes sem paredes. Marleide Figueiredo, assistente de direção, explicou que não. O que faz da João Pinheiro uma escola singular é ter professores polivalentes no Fundamental 2. “Eu me apaixonei na hora pela ideia”, conta Natália. “Fiz História e comecei a cursar Física. Cansei de responder por que escolhi cursos tão diferentes. Queria lecionar onde os campos do saber humano pudessem dialogar.”

Polivalente é o professor que ensina todas as disciplinas, articulando os conhecimentos básicos das diferentes áreas do currículo. Na escolarização, o limite da chamada monodocência varia de país para país. Em boa parte da Europa, vai até os 13 anos. Nos Estados Unidos, está entre 11 e 12 anos. Já em Cuba, os especialistas só entram em sala quando o aluno completa 15 anos. Por aqui, como se sabe, a idade de corte é 11 anos. Ou seja, no 6º ano, o estudante já tem um docente por disciplina.

Essa mudança costuma ser complicada. “Em todas as redes que fazem avaliação externa no Brasil, é constatada uma queda brutal do desempenho quando entra em cena o professor especialista”, afirma Cláudia Costin, diretora do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais da Fundação Getulio Vagas do Rio de Janeiro (FGV-RJ). O fluxo escolar também sofre. Conforme o Censo Escolar de 2016, do 5º para o 6º ano a taxa de abandono salta de 1,2% para 3,2%; e a de reprovação, de 6,8% para 14% – a segunda maior de toda a Educação Básica, perdendo apenas para o 1º ano do Ensino Médio (17,3%).

Em 1984, o fluxo escolar era o problema da João Pinheiro – ou JP, para os moradores da Vila Matilde, bairro de classe média onde fica a escola, na Zona Leste paulistana. Em busca de um antídoto contra a evasão e a repetência, os docentes bateram na porta da Escola Vera Cruz, instituição particular conhecida pelo projeto pedagógico de inspiração construtivista. “Para os gestores da época, o problema não era culpa dos alunos ou professores, mas uma questão estrutural. Nós concordamos”, afirma a pedagoga Stella Galli Mercadante, conselheira e uma das fundadoras do Vera Cruz. Ela liderou um grupo de cinco profissionais voluntários que aterrissou no JP para um diagnóstico aprofundado. Da assessoria informal, surgiu a sugestão um tanto quanto ousada: alongar a polivalência – como o próprio Vera faz, desde a década de 1970 até hoje, com o 6º e o 7º anos.

A teoria por trás da ideia se apoia em três pontos principais. Primeiro: fortalecer o vínculo entre docentes e estudantes. “Crianças de 11 anos ainda precisam de uma relação forte com o professor. A interação é muito relevante para essa faixa etária”, defende Cláudia Costin. Segundo: favorecer a continuidade na passagem dos anos iniciais para os finais do Ensino Fundamental, evitando mudanças radicais na forma como o aluno estuda. “Passar de um para oito professores de repente dá um nó na cabeça. No 6º ano, ainda falta competência para lidar com diferentes demandas dos especialistas”, afirma Stella. Terceiro: pautar a Educação mais pelo que se aprende e menos pelo que se ensina. “O especialista tem um olhar voltado para o conteúdo. O polivalente, por outro lado, tem mais condições de auxiliar o aluno no processo de aprendizagem e nos procedimentos de estudo”, diz a fundadora do Vera Cruz. “Ele faz perguntas como: ‘O que você entendeu da leitura?’, ‘Como resolveu o problema?’, ‘Comparou com outras soluções?’ e ‘Onde encontrou a resposta?’. ”

Crédito: Sidnei Lopes

2 ESTUDO INDIVIDUAL: É o momento seguinte ao grupo de estudos. Com as aulas planejadas, cada professor vai fazer os exercícios da semana – igualzinho aos alunos, para identificar as possíveis dificuldades. As dúvidas sobre resoluções ou conteúdos podem ser resolvidas com as colegas especialistas em cada disciplina. 

Um trio de especialistas-generalistas

Crédito: Sidnei Lopes

3 SALA DE AULA: A grade horária tem aulas de todas as disciplinas, mas o polivalente não precisa respeitar rigorosamente o horário. Se o assunto rendeu, dá para avançar no tempo da aula seguinte, que depois será compensado. É comum que uma colega peça ajuda da especialista na área para explicações mais complicadas. Os alunos já estão acostumados.

A equipe da João Pinheiro comprou a ideia. E propôs uma alternativa ainda mais radical: por que não estender a polivalência até o 9º ano? Para isso, foi preciso reestruturar todo o quadro de aulas e de formação da João Pinheiro. O “modelo JP”, que se alterou pouco de 1984 para cá (veja os principais passos nas fotos desta reportagem), tem no centro um número mágico: três. “Com um trio, consigo fazer a integração das disciplinas”, explica Fátima de Oliveira Miranda, coordenadora pedagógica da escola. Todos dão aulas de Língua Portuguesa, Matemática, Geografia, História e Ciências, mas cada um é responsável por uma área. Arte, Inglês e Educação Física seguem na mão de especialistas. 

Vamos pegar o exemplo do 9º ano e seu trio de professores. Natália, graduada em História, que já apresentamos no começo da reportagem, está há dois anos na João Pinheiro e responde pela área de História e Geografia. Rose Antonia Cougo da Silva, 58 anos e 15 de JP, é formada em Letras e a responsável por Língua Portuguesa. E Carolina Sconfienza Faria, 25 anos e estreante na escola, licenciada em Ciências Biológicas, cuida de Matemática e Ciências. Cada uma dá aula para uma turma e, como líder de área, prepara as avaliações e os gabaritos de suas disciplinas, discute a produção com as colegas e, eventualmente, puxa uma lousa para as demais quando o assunto é nebuloso. Numa terça-feira de tempo ameno em abril, elas se reuniram na sala da coordenação para o grupo de estudos. NOVA ESCOLA acompanhou esse momento de planejamento coletivo, que dura uma manhã inteira. Enquanto isso, os estudantes ficam sob a responsabilidade dos professores especialistas.

A colaboração e o foco nas questões pedagógicas são evidentes, diferentemente de outros encontros do tipo, que podem descambar para a fofoca ou terapia coletiva. Disciplina por disciplina, as educadoras vão listando os conteúdos lecionados na semana anterior, apontando o que gerou mais trabalho. Discutindo detalhes do desempenho individual, demonstram conhecer todos os estudantes, mesmo os das turmas das colegas – são, ao todo, 100 adolescentes nas três classes do 9º ano. “O vínculo é poderoso”, diz Natália. “A gente conhece o nome, a letra, o cheiro de cada aluno.”

As professoras são livres para criar os próprios materiais – outro diferencial da JP é uma cota ilimitada de cópias na pequena gráfica da escola. Ainda assim, os livros didáticos acabam sendo a grande referência, principalmente para os educadores que não são especialistas na disciplina que está sendo discutida. “A atividade mais importante do grupo de estudos é fazer todos os exercícios que vão ser dados na semana. Igualzinho a qualquer estudante”, explica a coordenadora Fátima. De lápis na mão resolvendo equações do 2º grau, a professora Rose aprova a medida. “É um exercício de humildade. E, geralmente, o meu erro vai ser também o do aluno.”

Crédito: Sidnei Lopes

4 TEMPO PESSOAL: Inspirada na proposta pedagógica da Escola Vera Cruz, a João Pinheiro aposta no TP, abreviação de tempo pessoal, momento da aula em que o aluno estuda sozinho e tenta resolver, de forma autônoma, os exercícios propostos. Nessa etapa, o professor polivalente circula pelas carteiras e resolve eventuais dúvidas de forma individualizada

O foco excessivo no livro didático parece confirmar uma das principais críticas à polivalência: a de que o ensino sem especialistas pode se tornar superficial. Os estudiosos da área concordam que o risco existe, mas defendem que exigir um grau elevado de aprofundamento teórico dos professores dos anos finais está além do que a rede pública consegue fazer hoje. “No Vera, temos uma grande equipe de assessores e formadores, mas ainda assim é extremamente complexo realizar essa formação. A João Pinheiro faz o melhor possível com a estratégia de grupo de estudos”, diz Stella. Já Cláudia Costin destaca que parte do trabalho precisa ser feito na formação inicial. “Um professor polivalente deve dominar o conteúdo e ter didática específica. Infelizmente este último ponto foi abandonado pelas graduações”, opina.

Com a semana planejada e os exercícios prontos, é hora de ir para a sala. No período letivo que a reportagem acompanhou, a professora Rose deu aulas de Língua Portuguesa e Ciências para a turma do 9º B. É sexta-feira, e a moçada, animada e um pouco barulhenta, realiza uma atividade coletiva de leitura por prazer. Correm os 50 minutos da primeira aula, mas o assunto – propostas de trabalho para a compreensão do livro – ainda não terminou. Fim de papo? Não. Como os alunos têm dúvidas, Rose não se apressa: avança no horário que, supostamente, seria de outra disciplina. Vantagem da polivalência. “Acontece sempre. É ótimo não ter de interromper uma atividade no meio”, diz ela. Apenas 14 minutos depois do início da segunda aula é que ela começa de fato. Momento de corrigir, no quadro, a lição de casa sobre cálculo de partículas atômicas. “Quanto à metodologia de ensino, somos tradicionais e conteudistas”, diz a coordenadora Fátima.

Uma experiência sob risco constante

Crédito: Sidnei Lopes

5 REUNIÃO COLETIVA: Também é realizada toda semana. Dura duas horas e é liderada pela coordenadora pedagógica Fátima (na foto, à esq.). Nesses momentos, além de tomarem decisões relativas à rotina escolar, os professores de um ano ficam sabendo como anda o trabalho dos polivalentes dos outros anos, identificando desafios comuns.

Nos 34 anos de “modelo JP”, não houve período sem que o projeto fosse questionado. “A cada dois anos, precisamos de uma autorização especial do Conselho Municipal de Educação para manter a proposta diferenciada. Se a nota na avaliação externa cair, corremos risco”, diz Fátima. Nesse quesito, a escola não faz feio. O Ideb dos anos finais é 5,3, acima da média da cidade (4,3) e do Brasil (4,2). Na avaliação da rede paulistana, a João Pinheiro supera a média municipal e da região em todas as disciplinas. Quanto ao fluxo escolar, a vantagem é mais nítida: 5,5% de repetência e 1,3% de abandono nos anos finais, ante 7% e 2% em São Paulo e 11,4% e 3,1% no Brasil. 

São bons números, mas os resultados mais positivos da monodocência vêm do Rio de Janeiro. A rede carioca, que chegou a ter 650 salas de 6º ano com professores polivalentes, é uma das poucas experiências em larga escala no Brasil. “Nas avaliações bimestrais, as classes com educadores polivalentes tiveram desempenho 40% superior às salas com especialistas em Matemática”, comenta Cláudia Costin, responsável pelo programa 6º Ano Experimental, criado durante sua gestão na rede municipal (2009-2014). Uma pesquisa revelou, ainda, melhoria no clima escolar e no engajamento de professores e coordenadores, aspectos relatados também pela equipe do JP. Com a mudança de gestão, em 2017, a polivalência perdeu espaço e o projeto carioca parou de avançar. Ao longo de todo o tempo, sofreu resistência de sindicatos e associações de professores, que veem a polivalência como um rebaixamento da qualidade do ensino. Os críticos alegam que ter contato com especialistas é um direito dos alunos. A reportagem de NOVA ESCOLA ouviu o mesmo argumento de docentes tanto do Vera Cruz quanto da João Pinheiro.

No caso da JP, um complicador é a burocracia: o sistema da secretaria municipal não está adaptado para a proposta da escola. “Atribuir aulas e organizar a formação é um quebra-cabeça cansativo. O projeto só sobrevive porque a equipe docente sempre batalhou por ele. Polivalência é amor ou ódio, não tem meio-termo”, diz Fátima. O ano é 2018, e a JP segue uma experiência única. Na lista das 3.709 escolas da rede municipal de São Paulo, é destaque com letras vermelhas e um asterisco.