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O buraco na camada de ozônio se fechou?

Não, mas a boa notícia é que ele diminuiu. Apesar disso, uma novidade ruim sobre o assunto: outro apareceu

POR:
Renan Simão

OZÔNIO, PARA QUE TE QUERO? O processo pelo qual o gás ozônio (O3) é produzido impede que as radiações ultravioleta (UV) atinjam a superfície terrestre. Sem ele, estaríamos expostos à radiação com alto potencial cancerígeno e que pode influenciar negativamente a agricultura.

COMO O BURACO SE RECOMPÔS Nos anos 1980, cientistas descobriram que a camada de ozônio sobre a Antártida estava cada vez mais fina. Os principais responsáveis: os gases clorofluorcarboneto (CFC), usados em motores de geladeiras e ar-condicionado, e na fabricação de espumas, entre outros. Com a diminuição na emissão dessas substâncias, a camada de ozônio na região está se recompondo.

 Ilustração: Andrea Ebert. 

Hoje quase não se fala mais dele. Mas até os anos 2000, o buraco na camada de ozônio era o mais famoso problema ambiental da Terra. Com o passar dos anos, ele perdeu protagonismo, sobretudo para as mudanças climáticas (entre elas, o aquecimento global). Será que a transferência de direção dos holofotes quer dizer que o buraco perdeu importância? Não.

Sobre esse tema, há duas novidades. A primeira é animadora: o crescimento do buraco dá mostras consistentes de estagnação. Mais do que isso: a camada está se recompondo – a Nasa estima que ele deve fechar por completo em 2080. No entanto, a outra notícia é ruim: um outro buraco está se formando sobre a região da linha do Equador. Vale lembrar que o ozônio é responsável por impedir que boa parte dos raios solares ultravioleta (UV) atinja a superfície terrestre e, por causa disso, protege a vida no planeta. As consequências da perda parcial da camada de ozônio podem ser o aumento de ocorrências de câncer de pele e catarata, além de danos na fauna, flora e agricultura.

Em 1985, uma descoberta alarmou cientistas e líderes mundiais: pesquisadores do Reino Unido notaram que havia um afinamento da camada de gás ozônio (cuja fórmula molecular é O3) presente na atmosfera na região da Antártida. Os responsáveis pela degradação do ozônio eram os gases CFC (clorofluorcarboneto), lançados pelos seres humanos (leia o quadro abaixo).

1) O SOL QUEBRA O CFC: A radiação solar faz com que um átomo de cloro se separe do restante da molécula de CFC. Uma única partícula de CFC pode destruir 100 mil moléculas de ozônio. 

2) O CLORO QUEBRA O O3: O cloro reage diversas vezes com o ozônio, convertendo-o em gás oxigênio (O2).

Ilustração: Andrea Ebert

Para tentar reverter a situação, foi assinado em 1987 o Protocolo de Montreal, acordo internacional para reduzir a emissão dessas substâncias. Deu certo e a presença desses gases na atmosfera já é bem menor. “A taxa de cloro do CFC está diminuindo no buraco da camada de ozônio, e, devido a isso, ocorre menos destruição de O3”, disse a cientista Susan Strahan, em comunicado da agência espacial norte-americana, Nasa, de janeiro deste ano. No entanto, também em 2018, outra descoberta alarmou pesquisadores: há sinais de que um novo buraco está se formando, agora sobre a região da linha do Equador. O achado foi publicado no periódico Atmospheric Chemistry and Physics (Química e física atmosférica, em tradução livre).

As causas são desconhecidas, mas os estudiosos têm duas suspeitas. A primeira delas tem a ver com o aumento de emissão de outras substâncias que contribuem para a destruição do ozônio presente na atmosfera, como o óxido nitroso (N2O3, usado em fertilizantes agrícolas) e o diclorometano (CH2Cl, encontrado em solventes de tinta).

Já a segunda suspeita tem a ver com o fenômeno do aquecimento global (leia o quadro abaixo). Explicando todo o processo em detalhes: o gás Oé produzido pela interação entre a radiação solar e o gás oxigênio (O2). Essa produção, por sua vez, acontece em partes da atmosfera mais próximas à Terra e depois o O3 é levado até às camadas mais altas. Isso ocorre principalmente na região da linha do Equador, onde há maior incidência da luz solar. Quando chega a partes mais altas da atmosfera, o ozônio é transportado para os polos por correntes de ar. Essa dinâmica de transporte pode estar sofrendo alterações por causa do aquecimento do planeta. O gás ozônio está sendo levado para a Antártida e para o Polo Norte com maior velocidade do que a produção que tem ocorrido entre os trópicos. Assim, tem acontecido um afinamento da camada justamente nesse local.

Uma das hipóteses dos cientistas é que, graças ao aquecimento global, a camada de ozônio está comprometida em outra região. 

ONDE FICA A NOVIDADE Na região entre os trópicos, sobre a linha do Equador. Justamente onde a produção de O3 ocorre, devido à maior incidência de luz solar.

COMO SE FORMA O OZÔNIO: A radiação solar quebra o gás oxigênio (O2). Em seguida, formam-se novas ligações com outras moléculas de O2, formando ozônio (O3).

Ilustração: Andrea Ebert 

Dos gases à vida cotidiana

2) TRANSPORTE: Normalmente, o gás ozônio é levado das zonas mais baixas da atmosfera para as mais altas. Depois, segue da linha do Equador em direção os polos

3) MUDANÇAS NOS MOVIMENTOS Cientistas investigam se o aquecimento global alterou a velocidade de transporte de O3, aumentando a concentração desse gás nos polos e diminuindo sobre a região da linha do Equador.

Ilustração: Andrea Ebert 


Gases como o dióxido de carbono (CO2) e o vapor d'água são responsáveis por manter a temperatura adequada para a vida na Terra. Mas devido à atividade humana, o aumento da concentração de CO2 e outros gases de efeito estufa (metano, CH4, e óxido nitroso, N2O) têm alterado o clima global e as dinâmicas atmosféricas, entre elas o transporte de ozônio. “Esse pode ser um exemplo para provocar os alunos a rever o fenômeno do efeito estufa e a relação dele com o comprometimento do O3”, diz Mario Festa, meteorologista do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (USP).

Apresente o tema à turma e peça que eles façam pesquisas em sites como o do Ministério do Meio Ambiente (bit.ly/ozonio-3) e do Protocolo de Montreal (bit.ly/proto-montreal). Tópicos como efeito estufa, aquecimento global, CFC e Protocolo de Montreal são bons pontos de partida para o trabalho, que deve ter como objetivo explicar de que maneira a ação humana influencia na destruição da camada de ozônio. “Por ser um tema difícil de trabalhar com experimentos, materiais
teóricos são muito úteis”, diz Luisiana Carneiro, doutora em Biodiversidade Vegetal e Meio Ambiente e editora de materiais didáticos de Ciências. Depois, discuta o uso dos gases de efeito estufa no cotidiano e desafie a turma a propor alternativas para o uso deles. “A fim de reduzir a emissão de metano, por exemplo, é preciso pensar como adequar os hábitos alimentares. Os bovinos emitem muito esse gás e, quanto maior o consumo de carne deles, maior é o rebanho e, consequentemente, a produção de metamo”, diz Cristian Annunciato, professor do Colégio Lourenço Castanho, em São Paulo.

Assim, a turma pensa sobre como as próprias ações afetam o ambiente e como ajudar na recuperação da camada de ozônio.


Na BNCC

Justificar a importância da camada de ozônio para a vida na Terra, identificando os fatores que aumentam ou diminuem sua presença na atmosfera, e discutir propostas individuais e coletivas para sua preservação. Habilidade EF07CI14.