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Literatura russa tem mais em comum com Brasil do que se imagina

Aclamados e influentes, os escritores russos carregam a fama de difíceis. É mito? Entenda o que a literatura russa tem a ver com Brasil e veja sugestões de leituras para romper com essa ideia

POR:
Laís Semis
Literatura russa: fama de "difícil", mas com pontos em comum e grande influência sobre autores brasileiros Foto: Juniper Books

A leitura de Crime e Castigo, do russo Fiódor Dostoiévski, te parece infinita — o próprio castigo? Você não está sozinho. “No Brasil, a gente costuma associar russo a coisas complicadas”, afirma Danilo Hora, editor da Editora 34 e de títulos como Almas Mortas, de Nikolai Gógol, e Contos Reunidos, de Dostoiévski. Mas quem se aproxima desse universo literário, que ganha um pouco mais de destaque com a Copa do Mundo, garante: o mais difícil da literatura russa são os nomes dos autores e personagens. “Acho que assusta, mas é interessante porque diferentemente de línguas como o inglês ou alemão, no russo se pronuncia exatamente como está escrito”, explica Rubens Figueiredo, tradutor de russo da 34. 


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Existe, de fato, uma mística associada à língua russa — em parte, por ser um alfabeto diferente do nosso, o cirílico. Mas esse imaginário de uma leitura difícil é sustentado por alguns outros elementos, como questões políticas (da Guerra Fria à russofobia) e a imagem do país como um dos principais expoentes do comunismo. “Existem estereótipos sociais associados ao país como enigmático e misterioso, que são alimentados há muito tempo”, afirma Bruno Gomide, professor de literatura russa da Universidade de São Paulo (USP). Segundo ele, não se pode subestimar o papel desses preconceitos culturais que fazem da cultura russa um ente ameaçador no imaginário nacional. De acordo com o professor, por ter sido um expoente do comunismo, durante muitos anos pesou sobre a literatura russa (e seus apreciadores) o receio de “contaminação” política-ideológica. “Essas leituras eram consideradas objetos comunistas ou exclusivos da esquerda. Apesar disso, é importante lembrar que muitos escritores de direita também eram leitores dos autores russos”, diz.

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Perdura também a associação do gênero com o tamanho dos livros — tão grandes quanto a extensão do seu país de origem. “É uma caricatura muito representada em filmes, por exemplo. O personagem está doente, de cama, com muito tempo pela frente, e lê Guerra e Paz [de Liev Tolstói]. Existe essa associação com textos intransponíveis”, considera Bruno. Mas como em qualquer literatura, não dá para generalizar a russa.

Tão perto, tão longe do Brasil
Assim como o romântico Castro Alves, o realista Aluísio de Azevedo, o pré-modernista Monteiro Lobato e a modernista Clarice Lispector têm estilos e objetos de escrita diferentes, assim são os escritores russos. Os temas podem ser complexos, o vocabulário e estilo de texto “difíceis”, o contexto da época pouco estudado. Além disso, o simbólico do que o texto quer dizer, as relações que ele estabelece, além das próprias variações culturais e sociais requerem uma atenção maior do leitor.

“O romance russo não é difícil no sentido elitista. São romances para qualquer pessoa ler. Mas é importante ter em mente que os problemas discutidos e o contexto em que estão inseridos são realidades distintas da nossa”, explica Danilo Hora. No entanto, o que pode ser visto por alguns olhos como obstáculo cultural pode abrir um mundo de aproximações ou mesmo de descobertas. “Essa não é uma dificuldade específica da literatura russa. Qualquer obra literária pode oferecê-la”, pontua o editor. Inclusive, diz, os próprios títulos brasileiros — que também carregam características sociais e culturais de seus autores e suas épocas.

Já para o professor Bruno Gomide, a atração pelos autores russos vem exatamente da dualidade de se ter de um lado uma experiência literária e olhares para a cultura e mundo que são muitos distintos e, ao mesmo tempo, o sentimento de se estar diante de algo extremamente familiar. “Esse jogo é o que dá o charme: os personagens russos se parecem com os brasileiros, mas há a sensação de se embarcar em um universo muito distinto, com soluções que não tinham sido imaginadas pela gente”, afirma.

A sensação de estranhamento tende a se intensificar com os nomes próprios — para além da quantidade de consoantes sequenciais que os compõem. Na Rússia, assim como no Brasil, é comum o uso de apelidos e nomes encurtados. O protagonista de Crime e Castigo, Rodion Românovitch Raskólnikov, por exemplo, é referido pelo primeiro e pelo último nome, mas também como Ródia ou Rodka. “Isso acontece em todos os livros”, garante Rubens. “O russo é uma língua cheia de afetos, como no português. Temos vários diminutivos e superlativos. É como se alguém com o nome de Cristina fosse chamada de Cris, Cristininha ou Tina”.

As semelhanças com os nossos autores não param por aí: muitos deles foram publicados em jornais e revistas de sua época. José de Alencar, Machado de Assis e Lima Barreto, por exemplo, tiveram seus textos impressos de forma seriada em folhetins – só depois ganharam edição em livros. “A Rússia era um país em que a censura era muito presente e, assim, o romance era o lugar ideal para se falar de assuntos que não podiam ser discutidos abertamente”, diz Danilo. “Embora no Brasil não houvesse na mesma época uma censura oficial, existia uma [censura] socialmente velada. Então, não se abordavam alguns temas de frente, mas de modo lateral”.



Machado X Dostoiévski
Ao centrar discussões na natureza humana e sua capacidade de transcender a superfície das nacionalidade, a estruturação de personagens tão únicos e ao mesmo tempo tão universais, além de mergulhar nas emoções de homens, mulheres e crianças, a literatura russa e seus expoentes ganharam influência principalmente a partir do século XIX. Para Rubens Figueiredo, a literatura russa é uma das mais fascinantes por incorporar processos históricos de longa duração e os expressar em experiências individuais e subjetivas através dos personagens. “Ela é um instrumento de reflexão sobre a história do país e as relações sociais, mas isso não diminui seu aspecto literário e experiência estética”, aponta o tradutor.

Com a maior distribuição de traduções a partir de 1830, os russos influenciam ideias e temas de outros escritores, segundo Danilo. Machado de Assis, Lima Barreto, Euclides da Cunha e Graciliano Ramos são alguns deles. O editor cita o exemplo do tipo de sátira encontrada nas narrativas machadianas que se assemelha às de Dostoiévski. “É uma sátira social, subjetiva, mas que se percebe nos personagens que passam por questões éticas e morais e refletem a sociedade. É algo muito presente nos russos”, diz.

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As influências passam por questões temáticas, visões sobre literatura e mundo, inspiração e referência de personagens, estrutura textual. Cada um à sua maneira. Rubens estabelece, por exemplo, como a temática da infância é tratada de forma paralela entre Nikolai Gógol e Graciliano Ramos. “Ele foi muito marcado pela literatura russa. A composição das memórias da infância e o próprio tratamento narrativo são parecidos no trabalho desses autores”, destaca. Bruno também indica que Lima Barreto e Nelson Rodrigues foram dois brasileiros que declararam explicitamente suas filiações à ficção russa. “Barreto, além das marcas na literatura, deixou textos memorialísticos sobre o tema. Rodrigues faz referências diretas a personagens e situações de Dostoiévski, até uma ligação mais estrutural na composição trágica do subúrbio carioca”, afirma.



Para começar a ler os russos
As recomendações valem não só para os educadores, mas também para os estudantes. “A literatura russa é muito rica em novelas e contos. Um adolescente que lê Harry Potter pode ler um romance russo sem qualquer problema – é só quebrar o mito da dificuldade”, afirma Rubens. A seguir compilamos uma seleção de títulos indicados para quem deseja iniciar esse mergulho no universo da literatura russa, que abrirá caminho e gosto para textos mais complexos.

Nova Antologia do Conto Russo. Ao todo, 40 contos integram a antologia organizada por Bruno Gomide. Cada conto é de autoria de um escritor diferente, portanto a obra dá amplitude ao leitor com um panorama de 200 anos da prosa russa. “São autores de diferentes épocas, estilos e com jeitos diferentes de abordar os temas. Como são textos mais curtos, acho que é um livro interessante para começar”, recomenda Danilo. A obra reúne desde nomes como Dostoiévski e  Tolstói até outros menos conhecidos, como Chalámov ou Saltikov-Schedrin.

O capote e outras histórias, de Nikolai Gógol. “É um tipo de humor ao qual não estamos habituados, com tendência para o fantástico, mas é muito comovente. Pode ser uma leitura atraente para os jovens”, diz Rubens. O livro também reúne diversos textos do mesmo autor, alguns bastante conhecidos como "O nariz" e "Diário de um louco".

Primeiro Amor, de Ivan Turgueniev. Primeiro autor russo a ser traduzido para a Europa. O romance trata do jovem Vladímir Petróvitch, 16 anos e filho único de uma família tradicional, que se apaixona pela vizinha Zinaida Alexándrovna, 21 anos e filha de princesa. O livro embarca em um romance conhecido por todos: o amor platônico. Mas Vladímir está disposto a tudo para ser correspondido.

Khadji-Murát, de Lev Tolstói. A obra pode ser considerada um desses expoentes que incorporam processos históricos ao expressar experiências individuais de personagens. No caso, o livro aborda o conflito entre russos e tchetchenos, narrando a perspectiva de ambos combatentes. O protagonista passa para o lado inimigo, em busca de vingança. Khadji-Murát também inclui o ensaio Tolstói: antiarte e rebeldia, escrito pelo tradutor Boris Schnaiderman, e recomendado por Bruno. “Os textos críticos e teóricos do Boris e qualquer uma das suas traduções são muito interessantes e indicadas para começar”.

Apesar das indicações por textos mais breves e não tão populares, os entrevistados não descartam os clássicos. “Eles colocam o fundamento para o que vem depois. É mais fácil entender alguns títulos a partir dos clássicos”, pondera Danilo. “Como leitura inicial podem ser muito volumosos. Mas tudo isso não tem muita regra. Depende mesmo é da bagagem e curiosidade do leitor”, define Rubens.

PARA SABER MAIS SOBRE LITERATURA RUSSA
Da estepe à caatinga: o romance russo no Brasil”, de Bruno Gomide
Um episódio das relações culturais Rússia/Ocidente”, de Boris Schnaiderman
A imagem da literatura russa construída a partir de reescritas para o francês, inglês e português

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