“Aprender e ensinar é o que nos torna seres humanos melhores”

O ator Carmo Dalla Vecchia conta como conhecer professores o ajudou a compor um personagem inspirador na série “Malhação”

POR:
Soraia Yoshida
O ator Carmo Dalla Vecchia interpreta Rafael Porto, diretor de uma ONG de inclusão social na nova temporada de "Malhação: Vidas Brasileiras"   Foto: João Cotta/Rede Globo

Antes de estrear como Rafael Porto, diretor da ONG Percurso na nova temporada de Malhação: Vidas Brasileiras, da TV Globo, o ator Carmo Dalla Vecchia participou de uma oficina com professores. Não coach para atores, mas educadores na vida real. Nas conversas ficou mais claro os desafios que os educadores brasileiros enfrentam, mas também a paixão pelo processo de ensino-aprendizado. “Conheci pessoas que são apaixonadas por aquilo que fazem e que mesmo não trabalhando com condições ideais, não ficam reclamando. E que conseguem ser inspiradoras e tocar o coração de outras pessoas”, afirma.

LEIA MAIS   Mia Couto: "O professor tem que ser um contador de histórias"

Nesta temporada, “Malhação” traz a cada quinzena o drama pessoal de um aluno, que extrapola a escola. Ao discutir temas como abuso sexual e drogas, a série reveste de dramaturgia as questões dos jovens. O protagonismo passa pela sala de aula, onde a professora Gabriela (Camila Morgado) dá voz aos estudantes, mas também toca em inclusão social, com o trabalho feito por uma ONG que aproxima alunos carentes da educação e maiores oportunidades. “O que acontece dentro da sala de aula repercute em vários assuntos e envolve os personagens”, diz Carmo.

LEIA MAIS   "Aos teus Olhos" e o poder da internet de acabar com a reputação de um professor

Se para a autora Patrícia Moretzshon a mudança no formato permite explorar melhor esses temas, também dá ao ator a chance de questionar como a educação é capaz de transformar visões. “Hoje se fala muito sobre lugar de fala”, diz referindo-se ao fórum aberto pela internet. “Eu acho que as pessoas estão tendo a chance de colocar as suas dificuldades, as suas dúvidas, as suas inseguranças para fora”.

A seguir, Carmo Dalla Vecchia fala sobre o papel da educação e como a escola mudou de um ambiente mais formal para um espaço em que jovens podem se expressar mais. 

Participar de uma produção de alcance nacional como “Malhação” traz uma responsabilidade porque os espectadores. Bateu um certo medo por esse peso de mandar uma mensagem aos jovens?
Não bateu o medo, mas bateu a responsabilidade em saber que muitas pessoas vão acompanhar o meu trabalho. E com meu personagem, que é diretor de uma ONG que faz inserção de alunos carentes na escola, vem uma missão muito importante de levar conhecimento ao espectador. É quase uma missão do educador, de fazer com que essas pessoas questionem os pontos de vista delas e possam chegar num lugar mais avançado. Minha preocupação é justamente fazer com que exista uma identificação com esse personagem que tem uma preocupação em levar estudo de uma forma tão carinhosa, de uma forma tão bonita, para fazer com que as pessoas que estão ao redor dele queiram absorver esse aprendizado. 

Carmo Dalla Vecchia (Rafael) e os jovens da ONG Percurso     Foto: Raquel Cunha/Rede Globo

A estreia de Malhação: Vidas Brasileiras chega no mesmo momento em que uma série da Netflix, Merlí, também discute os dilemas de alunos e um professor na Catalunha. Na sua opinião, a Educação virou um tema de grande interesse?
Para mim, a educação é um tema que tem que ser muito explorado porque é a base da formação de qualquer indivíduo. Através da internet e do momento pelo qual passamos hoje fazem com que muitas pessoas que não tinham voz antes tenham hoje – e isso tem um lado positivo e um lado negativo. Mas também faz com que muitas conversas – discussões sobre minorias, classe, etc – encontrem o seu lugar de fala. Eu acho que as pessoas têm a chance de colocar as suas dificuldades, dúvidas e inseguranças para fora. E a educação – que aprimora o ser humano e forma a base de todos nós – tem que propiciar justamente essa discussão para que mais pessoas tenham acesso ao ensino, para que a própria educação se torne mais aprimorada. E para que, no nosso país, mais pessoas tenham acesso a uma boa educação. Agora, eu não sei se a educação passou a ser parte das grandes discussões, mas é certamente uma questão de uma importância muito grande. E séries que tratem ou questionem a educação fazem com que mais pessoas elaborem os temas que antes da chegada da internet eram varridos para baixo do tapete, para que a gente consiga chegar num lugar mais evoluído, melhor. 

Como foi encontrar professores durante o trabalho de preparação para “Malhação”? Foi inspirador para você?
Conversamos com vários professores durante a oficina. Conheci pessoas que são apaixonadas por aquilo que fazem e que mesmo não trabalhando com condições ideais, não ficam reclamando. E que conseguem ser inspiradoras e tocar o coração de outras pessoas. Os professores falaram sobre algumas dificuldades pelas quais passaram (um deles disse que deu aulas sob uma mangueira), mas por essa paixão que têm, são pessoas inspiradoras que conseguem fazer a diferença nesses lugares. Para mim, isso é muito bonito na educação, a preocupação com a formação do ser humano. 

Você estudou em escola pública ou particular? Como foi a sua educação, comparada com a que é mostrada na série?
Eu estudei a minha vida inteira numa escola particular, o Colégio Metodista. Na minha época, a educação era um processo mais formal, não sei se as opiniões dos alunos eram tão levadas em conta. 

Algum professor em especial marcou a sua carreira?
Alguns professores na minha história foram muito especiais exatamente por serem pessoas que gostavam do que faziam. Tive um professor chamado João Rodolfo que dava aulas de História e Geografia. Por ser tão apaixonado e gostar tanto de ensinar as pessoas, fez com que muitos alunos passassem a gostar e aprender mais facilmente aquelas matérias. 

Bastidores de cena com  Carmo   Dalla   Vecchia  (Rafael) na ONG Percurso  Foto: Maurício Fidalgo/Rede Globo

Aprender ou ensinar, o que tem mais a ver com você?
Eu gosto muito de aprender. Há um ano, eu aprendi a tocar piano. Procuro sempre fazer cursos, eu estudo línguas, sempre fui muito interessado em aprender outros idiomas. Então nunca parei de estudar. E ensinar... eu já tive algumas chances de dialogar e falar sobre determinados assuntos com pessoas que naquele momento não tinham tanta experiência. Acho que o ser humano deveria aprender constantemente. Aprender e ensinar é o que faz com que nós nos tornemos seres humanos melhores.

Carmo Dalla Vecchia fechou esta entrevista com três indicações: um livro, um filme e uma série de TV. 

Os Buddenbrook – Decadência de uma Família
Primeiro romance de Thomas Mann, este livro foi publicado em 1901, quando o escritor alemão tinha apenas 25 anos. É uma crônica de quatro gerações de uma família de comerciantes no norte da Alemanha. Entre nascimentos, casamentos, separações e funerais, Thomas Mann carrega o leitor por uma narrativa que até hoje soa moderna. Em 1929, Mann receberia o Prêmio Nobel de Literatura, em grande parte devido a este romance e A Montanha Mágica. 

Guerra nas Estrelas
Saga de ficção-científica criada pelo cineasta norte-americano George Lucas, Guerra nas Estrelas (Star Wars, no original) surpreendeu ao se tornar um fenômeno já em 1977. Ao buscar elementos da Jornada do Herói, narrada por Joseph Campbell em seu estudo O Herói de Mil Faces, Lucas criou sua própria mitologia de guerreiros que fazem uso da Força – uma energia que envolve todo o universo – para destruir as forças do Império e trazer a República de volta. Atualmente, a saga já conta com oito filmes, além de animações para TV. 

Twin Peaks
Série criada pelo roteirista Mark Frost e pelo diretor David Lynch, Twin Peaks estreou em 1990 na televisão aberta nos Estados Unidos. Embora tenha tido apenas duas temporadas, ela se tornou um marco para o modelo de séries de TV contemporâneas. Sua linguagem que emprestou a cinematografia do cinema, aliada a uma trama com personagens estranhos e linguagem repleta de simbologias, uma atmosfera que misturava horror e drama, fez dela uma favorita entre criadores.  

 

Tags

Guias