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Reportagem | Reportagem | Refugiados

Em busca de um lar

Os desafios dos refugiados venezuelanos na procura por casa e escola em Roraima

Crianças venezuelanas em um dos abrigos de emergência em Boa Vista. Crédito: Márcio Lavôr

A CHEGADA

Eles estão nas principais avenidas, semáforos e praças de Boa Vista. Homens, mulheres, idosos e crianças, muitas crianças. Chegam de ônibus, de carro, de carona e a pé diariamente à capital de Roraima. São venezuelanos, refugiados de uma crise política e econômica que já trouxe 40 mil pessoas para Boa Vista, o correspondente a 10% da população da cidade. Segundo a Polícia Federal, apenas nos dois primeiros meses de 2018, 24.664 imigrantes venezuelanos entraram no Brasil pela fronteira de Roraima. Por dia, são cerca de 800 pedidos de refúgio.

É na praça que leva o nome do líder venezuelano que libertou países da América Latina do domínio espanhol, Simón Bolívar, que as famílias que chegam se acumulam a cada dia. Segundo dados da prefeitura, há cerca de 1.500 pessoas vivendo no local, algumas há vários meses, dormindo em barracas, redes, debaixo de lonas e em caixas de papelão.

Vivendo há meses na praça Simón Bolívar na Zona Sul de Boa Vista, venezuelanos cozinham, lavam roupa e dividem barracas. O local é a referência para as famílias que continuam chegando diariamente na capital de Roraima. Crédito: Márcio Lavôr.

Lá está vivendo Jesus Lopéz, 44 anos, junto com a esposa Zulymar Hernandez, 40 anos, e as duas filhas de 3 e 6. O casal vivia na cidade de El Tigre a 1.060 km de Boa Vista. Há cinco meses na praça, o venezuelano conta que trabalhava como operador de máquinas pesadas em uma petrolífera. “Saí da Venezuela porque meu salário não dava mais para manter minha família. Íamos morrer de fome.” Ele conta que já solicitou refúgio e agora espera conseguir trabalho. “Sei que não estamos vivendo em um lugar digno, principalmente para as minhas filhas.”

A mãe se preocupa porque as filhas estão ociosas na praça. “Me sinto um pouco frustrada porque minhas filhas estavam bem adiantadas no estudo.” Apesar das dificuldades na chegada ao Brasil, ela não pensa em voltar. “Lá falta tudo. Tem crianças que eu vi morrer de fome. Desnutridas. Crianças no lixo procurando comida ou roubando para comer. Aqui, me sinto melhor. Não temos casa, mas temos ajuda.”

No dia em que a reportagem de NOVA ESCOLA esteve na praça, uma família tinha acabado de chegar. Cansado, o pai, José Gregório, 33 anos, contou que fez metade da viagem caminhando com a mulher e os filhos e outra metade de carona. Ele diz que na Venezuela o salário mínimo que ganhava dava para comprar um pouco mais que 1 quilo de arroz. “Todos os meus filhos estavam estudando antes, mas tivemos que sair. Aqui quero que eles estudem e tenham uma vida melhor.”

A crise na Venezuela vem se agravando nos últimos cinco anos. A estimativa do Fundo Monetário Internacional (FMI) é que o Produto Interno Bruto (PIB) do país tenha caído quase 50% neste período. A inflação está próxima dos 3.000% ao ano. O desemprego, razão principal para a migração, está chegando a quase 30% e a expectativa é de se aproximar da casa dos 40% até 2022. Um dos reflexos é o intenso desabastecimento de comida, remédios e mesmo artigos simples como papel higiênico, sabonete e pasta de dente.

Desemprego, fome, hiperinflação e a falta de artigos básicos de higiene são algumas razões que empurraram milhares de venezuelanos para fora do país presidido por Nicolás Maduro. Na fronteira, são 800 pedidos de refúgio por dia. Crédito: Márcio Lavôr.

Três abrigos foram criados em Boa Vista e um em Pacaraima, na fronteira, para receber os imigrantes, mas estão lotados. A crise tem gerado conflitos entre venezuelanos e brasileiros. Entre fevereiro e março, três grandes ataques foram registrados, além de brigas, roubos e manifestações contra a permanência dos venezuelanos. Em um deles, um grupo de brasileiros expulsou cerca de 200 venezuelanos de um dos abrigos e queimou seus pertences. Em outro, uma casa foi incendiada e no terceiro uma bomba foi colocada em outra residência com imigrantes.

A REDE

No dia 22 de fevereiro, a prefeitura de Boa Vista decretou, por 180 dias, estado de emergência social. Uma das prioridades da medida é ampliar o atendimento educacional. “Estamos transformando bibliotecas, sala de leitura, sala de professores, tudo em sala de aula, mas estamos chegando ao nosso limite”, alerta a secretária de Gestão Social, Simone Queiroz. A estimativa é de que a rede municipal precise de pelo menos 50 novas salas de aula para atender as crianças e os adolescentes venezuelanos.

Na Praça Simón Bolívas, venezuelanos fazem fila para receber comida. Crédito: Márcio Lavôr.

Até o início de março desse ano, 1.641 alunos venezuelanos foram matriculados nas escolas de Boa Vista. Muitos são inscritos no 1º ano do Ensino Fundamental devido a uma exigência da rede. É solicitado que os pais tenham a documentação escolar original da criança traduzida para o português para que ela possa ser inserida no ano em que estava na Venezuela. Sem os documentos, as crianças vão para o 1º ano para adaptação da fala e da escrita e fazem prova de nivelamento ao final de um bimestre.

“A exigência da documentação constrange tanto as crianças de 6 anos, que estão no 1º ano, como as de 10 e 12 anos que têm que ficar num nível bem abaixo do seu”, afirma o coordenador do curso de Relações Internacionais da Universidade Federal de Roraima (UFRR), João Carlos Jarochinski. Segundo a rede municipal, o processo não prejudica as crianças porque elas são imediatamente atendidas na escola e o período para reclassificação é reduzido.

Para o diretor Cláudio Marques, da EMEF Carolina Maria de Jesus, em São Paulo, referência nacional no atendimento de imigrantes, mesmo sem a documentação adequada, os alunos estrangeiros devem ser encaixados no fluxo adequado a sua idade. “É o que recomenda a Lei de Diretrizes e Base da Educação e aqui em São Paulo o Conselho Municipal de Educação. Na nossa escola, fazemos até provas de nivelamento em inglês quando os alunos dominam esse idioma”, afirma.

Na rede estadual, a exigência de documentação não existe e os alunos são avaliados no ato da matrícula. Mas a demanda e muito menor. Em 2017, o estado recebeu 305 alunos estrangeiros, em 2018 já são 680. No contraturno, os venezuelanos recebem reforço de Língua Portuguesa e Matemática. O material didático utilizado é o mesmo para os alunos brasileiros, os livros do Programa Nacional do Livro Didático (PNLD).

“Temos a barreira da língua, mas os professores se esforçam e os que têm mais domínio do espanhol, como eu, ajudam os outros”, afirma a coordenadora pedagógica Hilda Maria Freire Montysuna. Segundo ela, os docentes também têm feito doações para os estudantes de materiais escolares e mesmo de artigos de uso pessoal. “Reforçamos também a merenda na rede com feijão, carne e macarrão. Sabemos que muitas vezes é a única refeição que eles fazem.”

Merenda nas escolas é a principal refeição do dia para as crianças venezuelanas. Crédito: Márcio Lavôr.

Outra ajuda tem vindo de instituições da sociedade civil. O Movimento Rede Acolher começou como um projeto de extensão da Universidade Federal de Roraima. Há um ano, os voluntários – professores e alunos – oferecem aulas gratuitas para imigrantes. “Nós abrimos a universidade para eles. Damos aulas de português, cultura brasileira, assessoria jurídica e de colocação profissional”, explica Júlia Camargo, uma das idealizadoras do projeto. A expectativa é atender mais de mil imigrantes em 2018. Para as mães com filhos pequenos, há aulas especiais em que elas aprendem português junto com as crianças.

AS ESCOLAS

A Escola Municipal Frei Arthur é uma das referências em Boa Vista no acolhimento aos venezuelanos. Dos 700 alunos da instituição, 110 são estrangeiros. Professora da escola e na rede há sete anos, Meybly Maciel é uma referência para os outros docentes. Ela fala e escreve em espanhol e auxilia os colegas. “Escuto muitas queixas porque meus colegas não têm domínio do espanhol. Muitos ficam angustiados de não conseguirem atender as crianças.”

Entre os alunos venezuelanos da escola estão os irmãos Pablo Sanchéz, 10 anos, e Juan Sanchéz, 8 anos. Quando chegaram, eles foram colocados no 1º ano porque a família não tinha a documentação traduzida. Hoje eles foram reclassificados para o 5º e 3º anos. “Chegamos a seis meses e meus filhos já estão na escola e meu marido conseguiu um trabalho. Estamos nos sentindo muito bem. Aqui é muito agradável”, diz Nilda Mata, mãe de Pablo e Juan.

Nilda Matos deixa os filhos Pablo e Juan na escola municipal Frei Arthur. Em Boa Vista, mais de 1.600 crianças venezuelanas já estão matriculadas na rede municipal de ensino. A precisa de mais 50 salas de aula. Crédito: Márcio Lavôr.

A Escola Estadual Barão de Parima atende 155 alunos, sendo 40 deles venezuelanos. Os filhos da imigrante Jéssica Villa Boas, 29 anos, estudam nela. A família vive na Praça Simón Bolívar há sete meses. “Como não temos condições de alugar uma casa, viemos morar na praça. Eu tenho um fogão e botijão pequenos para cozinhar. Pagamos 2 reais para tomar banho no banheiro do posto. Para meus filhos irem pra escola de manhã, pego um balde de água, eles escovam os dentes e vão. Os maiores, de 12 e 13 anos, vão sozinhos e a tarde eu levo o menor, de 8”, conta.

Para a professora de Língua Portuguesa da escola, Clerismar Pereira, a convivência com os alunos venezuelanos é um aprendizado. “Estou gostando dessa experiência. A gente até se emociona. Na parte de produção de texto, eles acabam externando as dificuldades que enfrentam no dia a dia. Pedem que as pessoas respeitem mais os venezuelanos, dizem que precisam de alimentos, de moradia.”

O gestor da escola, Esmeraldino Santos, diz que a parceria com as famílias tem sido essencial para o acolhimento. “Essa realidade dos alunos imigrantes aumenta muito nossa responsabilidade. Acredito que tem tudo para dar certo, pois todos têm direito a Educação e as famílias valorizam muito a oportunidade.”

Fora das escolas tradicionais, há ainda o atendimento aos indígenas da etnia Warao. Eles foram os primeiros a ocuparem praças, avenidas e semáforos de Boa Vista há cerca de um ano quando o fluxo migratório começou a aumentar. A etnia é um dos povos mais antigos do Delta do Orinoco, no nordeste da Venezuela. Em geral, eles chegam ao Brasil por Pacaraima, na fronteira, e caminham cerca de 212 km até Boa Vista.

Atualmente, os indígenas são cerca de 700 e vivem em um abrigo exclusivo. O local é coordenado pelo governo do estado, com o apoio da ONG Fraternidade Federação Humanitária Internacional.Segundo a coordenadora do abrigo, Sandra Palomino, o objetivo é preparar as crianças para o ensino regular.

Projeto Casa de Los Niños ensina português para crianças indígenas venezuelanas. Crédito: Márcio Lavôr

“O desafio é grande. Temos que respeitar a culturas e as tradições. Eles agem como se estivessem na comunidade, as crianças andam nuas, comem com as mãos. E eles são mais vulneráveis a doenças.” Os indígenas são os que mais sofrem com o surto de sarampo que atinge a cidade. A primeira criança a morrer, no início de março, era da etnia Warao. Já são 103 casos suspeitos da doença e 28 confirmados, sendo 25 deles de crianças venezuelanas.

O FUTURO

Voluntários ensinam capoeira para crianças indígenas abrigadas. Crédito: Márcio Lavôr
O governo federal liberou por medida provisória, no dia 12 de março, R$ 190 milhões para ações humanitárias no estado. Outra verba de R$ 600 mil foi concedida em caráter emergencial para Paracaima na fronteira. Em Boa Vista, uma das ações prioritárias é a retirada dos imigrantes que moram na Praça Simón Bolívar. 

Para isso, mais um abrigo foi finalizado em uma parceria entre prefeitura, estado, a Agência das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) e o governo federal. O local já está recebendo algumas famílias com crianças pequenas, mulheres grávidas e pessoas com deficiência. Ele terá capacidade para 800 pessoas com estrutura de alimentação, dormitórios e atendimento de saúde. A rede municipal também pretende inaugurar seis novas escolas até junho.

Para os alunos indígenas, foi criado o projeto a Casa de Los Niños. “Nos mobilizamos e conseguimos algumas doações. Hoje temos um espaço, ainda que precário, de duas salas dentro do ginásio do abrigo”, explica Graziela Camargo, coordenadora pedagógica. Hoje as crianças indígenas são alfabetizadas simultaneamente em português e na língua indígena. Os professores voluntários são estudantes da UFRR e indígenas abrigados. “Produzimos junto com os professores indígenas os materiais de alfabetização. Trabalhamos também com a sensibilização em higiene e saúde, com atividades lúdicas, artísticas e esportivas”, explica Graziela.

O próximo passo é começar a integrar os alunos às salas regulares. Para isso, o governo do estado lançou o programa Educação de Transição e Cultura Indígena. O objetivo é inserir as crianças na cultura e no sistema educacional brasileiro, mas sem que eles percam sua identidade original.

O professor indígena venezuelano Marcelino Molalera, que vive no abrigo, é um dos voluntários que participa do projeto. “Vou ensinar Artes, o que eu aprendi na Venezuela, e vou repassar para as crianças com cantos e danças. Estou muito orgulhoso e agradecido ao Brasil.”

Na rede municipal, a Escola Mário David Andreazza é pioneira em um projeto para incluir 16 alunos indígenas entre 12 e 14 anos em turmas regulares. “Montamos uma proposta que vai da alfabetização e letramento ao trabalho específico com as disciplinas. Depois de uma avaliação, eles serão incluídos nas turmas regulares até maio”, explica Francisco Silva, professor da escola.

As aulas acontecem nas salas de informática, leitura e outros espaços durante 20 horas semanais.“Não está sendo fácil, pois são crianças que nunca tinham frequentando uma sala de aula”, destaca Francisco. Para a professora Enice Belido, que dá aulas de informática para os alunos no projeto, o trabalho é gratificante. “Já basta a exclusão que estão sofrendo, nós temos que acolhê-los. É recompensador ver os olhinhos deles brilhando na tela do computador, ver o interesse deles pelas aulas. Como pessoa está sendo muito bom para mim saber que estou contribuindo de alguma forma para o futuro dessas crianças.”