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Por: Rodrigo Ratier

Caso internacional: A receita é colaborar

Destaque no Pisa, o Vietnã faz da observação de aulas nas escolas um dos pilares do avanço do ensino

Pesquisa e vivência em sala são as chaves da estratégia vietnamita. Crédito: Hoang Dihn Nam/Getty Images

Um país em desenvolvimento, mas ainda com 11 milhões de pobres, pacificado, mas com feridas abertas por duas décadas de guerra sangrenta (1955-1975) e, ainda assim, com uma boa Educação. Na edição mais recente do Pisa, o Vietnã deixou para trás potências como Estados Unidos, Reino Unido e Austrália. E os alunos entre os 10% mais pobres têm ido tão bem quanto os 10% mais ricos do Brasil. Qual o segredo?

Não é dinheiro. O gasto por aluno é um terço do nosso – e, segundo a OCDE, é insuficiente tanto lá quanto cá. A maior distinção é a valorização do professor. “Com incentivos financeiros e plano de carreira, o Vietnã consegue atrair os melhores professores para as escolas mais difíceis”, diz Andreas Schleicher, da OCDE. Nguyen Thi Mai Huong, professora da Universidade Nacional de Educação de Hanói, no Vietnã, aponta outro aspecto do reconhecimento docente: “A formação de professores é prioridade”. Boa parte desse processo ocorre dentro das escolas, com a colaboração entre pares.

Pouco dinheiro e muita colaboração: Vietnã se reconstroi após a guerra. Crédito: Tim Page/Getty Images

Os aspirantes a professor estão nas salas de aula durante três dos quatro anos do curso de formação. O trabalho começa com observações e, nos dois anos finais, se baseia na regência de classe.“Os estudantes recebem notas pelo desempenho e aprendem com os mais experientes, graças à supervisão constante dos titulares”, diz Huong.

Na formação continuada, uma das estratégias mais utilizadas é a pesquisa colaborativa de aula. “No Japão, essa prática tem mais de um século. É eficaz para descentralizar a formação profissional”, afirma Akihiko Takahashi, especialista na metodologia e professor da Faculdade de Educação da Universidade DePaul, nos Estados Unidos.

A ideia básica é juntar um grupo de professores para estudar um assunto espinhoso e preparar uma aula piloto. Em seguida, um dos colegas apresenta a aula aos alunos enquanto os demais observam. Com tantos olhos na ação, a discussão sobre o que funcionou e o que precisa ser aprimorado é rica. “Prestamos atenção no que o estudante fez durante a aula. Se ele não aprende, algo precisa mudar”, diz Takahashi.

O ponto polêmico é que, para dar tempo de os colegas assistirem às aulas uns dos outros, o Vietnã optou por ter classes com um grande número de alunos – em média, 31 estudantes por sala na Educação Básica, diante de 23 no Brasil. Para não importar também esse problema, seria preciso criar algum tipo de adaptação. “Em determinados tipos de aulas, duas turmas podem ficar juntas. Pode ser uma alternativa para a observação”, sugere Ocimar Alavarse, professor da USP.