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Em dia | Escola Sem Partido


Por: Paula Salas

Depois do esculacho, como fica a vida?

Três professores expostos pelo Escola Sem Partido contam o que sofreram e por que não desistiram de seguir lecionando

"Teve dias que não conseguia levantar. Tive depressão. Que luta é essa que nos adoece", conta Valéria Borges, professora de História na rede pública de Niterói (RJ), exposta por comentários sobre o deputador Jair Bolsonaro. Crédito: Daniel Marenco

 Valéria Borges, professora de História na rede pública de Niterói (RJ), exposta por comentários sobre o deputador Jair Bolsonaro. Crédito: Daniel Marenco

Três datas que mudaram a vida de três professores. Para Valéria Borges, foi 22 de maio de 2017. Numa sala de 3º ano do Ensino Médio do Liceu Nilo Peçanha, em Niterói (RJ), a professora concluía uma explicação sobre a ascensão da juventude hitlerista. Fez um aparte para responder a um aluno que comparava Adolf Hitler com o deputado Jair Bolsonaro, pré-candidato do PSL à presidência. “Ele era LGBT e se sentia oprimido pelas falas de Bolsonaro. Empatizei com ele, sou uma professora de discurso forte quando atacam direitos humanos”, afirma. Durante o breve comentário – pouco mais de dois minutos numa aula de 1 hora e 40 minutos –, Valéria criticou o deputado e seus apoiadores, chamando-os de homofóbicos e misóginos. A intervenção foi gravada. Acabou caindo na internet, onde viralizou.

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“Desqualificada”, “lixo”, “aliciadora”, “comunista satânica”, sentenciaram os comentaristas virtuais na página do vereador Carlos Jordy, do PSC, responsável pela exposição da docente e autor de um projeto de lei que buscava instituir o Escola Sem Partido em Niterói. “A professora incorreu em crime contra a honra e assédio moral”, opina Jordy. Valéria se defende dizendo que a fala foi descontextualizada. “Era a resposta a um aluno”, justifica. “Por causa disso, me ameaçaram de morte. Minha família e amigos sentiram medo por mim”, confessa Valéria, que guarda revolta e marcas psicológicas do episódio. “Entrei em um quadro depressivo, precisei de remédios. Essas pessoas não veem o ser humano, atacam de maneira bruta. Que luta é essa que adoece o professor?”

Traumas psicológicos, hostilidade nas redes sociais, processos judiciais e administrativos, dificuldade para seguir lecionando ou mesmo arranjar emprego, medo e preocupação em estar sendo constantemente observado. As dificuldades de docentes perseguidos pelo Escola Sem Partido (ESP) são duradouras. É o que relatam a NOVA ESCOLA três professores expostos pelo movimento nos últimos anos. Idealizado em 2004 pelo advogado Miguel Nagib (procurado pela reportagem ele não se manifestou), o ESP diz combater a doutrinação política e ideológica nas escolas, conceitos que o movimento aplica de forma imprecisa. “Doutrinação é chegar a um limite extremo como, por exemplo, usar o tempo da aula não para levantar discussões ou ensinar o conteúdo, mas para dar voz a um partido”, afirma a advogada e professora universitária Ester Rizzi, especialista na relação entre direito e educação da Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo.

Descontextualizado e viral

Entre as vertentes de atuação do ESP estão o incentivo a projetos de lei inspirados no movimento (com pouco sucesso até o momento, como você lê no Em Dia) – e, claro, a exposição de casos na internet. Os professores atingidos concordam que a fagulha disparadora de seu pesadelo é o chamado esculacho virtual. Um trecho da aula (geralmente, descontextualizado) vai parar na internet pelas mãos de um apoiador. Aí começam as acusações de “doutrinação” ou de “ideologia de gênero” – os dois rótulos preferenciais com que o movimento tenta enquadrar o que chama de “militantes travestidos de professores”

“Esse tipo de exposição se assemelha ao cyberbullying”, afirma Antonio Álvaro Soares Zuin, professor do Centro de Educação e Ciências Humanas da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar). Zuin, que é autor do livro Cyberbullying contra Professores, afirma que a especificidade do esculacho é que a violência não precisa de uma perseguição contínua – caso do bullying. “Basta uma imagem para iniciar a humilhação”, diz. “Pesquisas mostram que muitos professores que foram atingidos desenvolvem esfriamento da vontade de ensinar e sintomas de depressão. As redes sociais têm consequências no mundo real.”

Fernando Cesar Gouveia sabe disso na pele. Para ele, a data é 28 de junho de 2016. Professor de História no Instituto de Educação Estadual de Londrina (IEEL), Fernando convidou uma ativista transexual e uma drag queen para o encerramento de um projeto sobre diversidade com os alunos do Ensino Médio. O evento foi filmado e chegou até Filipe Barros, advogado e atual vereador pelo PRB. Barros divulgou o vídeo em suas redes acusando a drag queen de protagonizar “danças com teor sexual para os menores de idade”. “O professor diz combater a homofobia, mas vejo uma triste violação dos direitos da criança e do adolescente”, relata Barros.

Mesmo se ganhar, processo é perda

"Ainda não consegui voltar ao normal. Não é a mesma vida. Sou outra pessoa agora" afirma Fernando César Gouveia, professor de História na rede pública de Londrina (PR), exposto por convidar uma drag queen para uma atividade sobre diversidade. Crédito: Sérgio Ranalli
Fernando César Gouveia, professor de História na rede pública de Londrina (PR), exposto por convidar uma drag queen para uma atividade sobre diversidade. Crédito: Sérgio Ranalli

Os comentários agressivos e ameaçadores no vídeo levaram o educador a buscar acompanhamento psiquiátrico e psicológico. “Caí num quadro depressivo. Fiquei sem dormir quando veio o processo criminal, que finalmente acabou sendo arquivado”, afirma Fernando.

De fato, mesmo quando não dá em nada, o processo já é uma punição ao professor. “Independentemente do resultado, ser processado é muito ruim. Mexe-se com a reputação do docente frente à comunidade. Há danos morais e financeiros”, afirma Ester. No caso de Fernando, o efeito da ação judicial foi devastador. “O trabalho pedagógico foi lindo e representativo, mas acabou destruído, teve esse fim apocalíptico”, opina. Segundo Ester, a exposição nas redes sociais e a retaliação podem ser enquadradas como dano moral. “Pela via do Direito Civil pode-se entrar com uma ação por indenização financeira. Pelo Direito Penal, que também protege a honra, pode-se apresentar uma denúncia por difamação”, afirma.

Para Gabriela Viola, professora de Sociologia, a data inesquecível aconteceu em julho de 2016. NOVA ESCOLA contou o começo dessa história na edição de agosto daquele ano. Na EE Maria Gai Grendel, na periferia de Curitiba, os alunos do 1º ano do Ensino Médio fizeram uma paródia do funk Baile de Favela com conceitos de Karl Marx, pensador que eles estavam estudando.

Gravada e compartilhada na internet, a música gerou rebuliço imediato. “Li comentários machistas, sofri muitos ataques por ser mulher”, diz. No fim, Gabriela acabou afastada por uma semana e depois reintegrada – um técnico do Núcleo Regional de Educação validou a estratégia didática utilizada por ela. “A pressão foi muito forte, tentar lidar com tudo que estava acontecendo me afetou psicologicamente. Todo dia alguém escrevia que eu deveria morrer por ter dado aula de um determinado teórico”, afirma. Vale lembrar que a escolha dos assuntos tratados em sala de aula e a bibliografia utilizada fazem parte da liberdade de cátedra, garantida pela Constituição Federal.

A forma como o ESP desqualifica as escolhas pedagógicas dos professores também sofre críticas. “A teoria de pensadores importantes é descartada não por meio de questionamento, mas da calúnia e da difamação”, opina Fernando Penna, doutor em Educação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e criador do Movimento Educação Democrática, que se propõe, segundo o site, a “combater o crescente conservadorismo nas políticas educacionais” (bit.ly/NEeddem).

Quanto a Gabriela, seu retorno às aulas teve o apoio dos alunos, mas o clima de trabalho ficou muito difícil. “Passei o ano de 2017 desempregada por não conseguir atribuições de aula. Neste ano, estou de volta à rede estadual”, afirma. Os três professores que contam seus casos nesta matéria concordam que, em suas escolas, hoje há receio de abordar certos conteúdos. “Quando aconteceu comigo, ouvi de vários amigos que estavam com medo. Tinham medo de passar filme e ser mal interpretados”, relata Gabriela. Fernando concorda. “Ainda não consegui voltar à normalidade. Me sinto vigiado. Sou outra pessoa depois da exposição”. Segundo especialistas, essa é a pior consequência do ESP. “Os professores passam a vigiar a própria liberdade, cria-se uma autocensura”, diz Fernando Cássio, professor da Universidade Federal do ABC (UFABC) e um dos idealizadores do Manual de Defesa para Docentes (bit.ly/NEmanualesp), documento que fornece um passo a passo para ajudar professores perseguidos.

Mesmo feridos, seguir em sala

Apesar das cicatrizes, nenhum dos docentes se arrepende das condutas que os levaram a sofrer perseguição. Na opinião de Fernando, o projeto de diversidade foi bem-sucedido. “O aluno passou a conhecer melhor o outro e a si mesmo. Faria de novo, só que maior e melhor”, conta. Gabriela, da paródia de Baile de Favela, não descarta voltar a usar uma estratégia parecida. “A aula tem que ser atrativa e significativa. Enquanto fizer sentido, vou manter minha maneira de lecionar”, diz.

Já Valéria conta que se sentiu acolhida pela solidariedade dos colegas. Escreveram uma carta aberta em apoio e chegaram a ir protestar contra o vereador de Niterói, levando cartazes a favor da professora enquanto ele fazia um pronunciamento numa audiência pública. Segundo ela, até mesmo docentes de outros posicionamentos ideológicos ficaram do lado dela. “Não era uma questão política, mas de liberdade de expressão e de cátedra”, defende. É taxativa ao afirmar que continua tendo postura firme em sala. “Sou professora de alma. Continuo falando de tudo.” Mesmo feridos, eles vão em frente.