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12 de Abril de 2018 Imprimir
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“Aos teus olhos” e o poder da internet de acabar com a reputação de um professor

O filme, que estreia nesta quinta-feira (12), mostra o drama de um professor acusado de assediar um aluno

Por: Paula Peres
Daniel de Oliveira interpreta Rubens, um professor de natação acusado de assediar uma criança. Crédito: Daniel Chiacos / Divulgação

Imagine que você está chegando à escola para mais um dia de trabalho quando é convocado pela direção. A diretora te explica que um boato corre nos grupos de whatsapp e no Facebook da escola: você está sendo acusado de ter assediado uma criança de 7 anos. Graças à força da internet, em 24 horas, sua vida e sua carreira desmoronam.

No filme “Aos teus olhos”, isso acontece com Rubens (Daniel de Oliveira). Professor de natação de um clube, querido na escola, carinhoso, considerado o melhor profissional da instituição, ele é acusado de ter dado um beijo na boca de Alex (Luiz Felipe Mello), um de seus alunos. Rubens é um professor como tantos outros, com qualidades e defeitos.

A acusação é feita pelos pais. Davi (Marco Ricca) ouve de sua ex-mulher, Marisa (Stella Rabelo), que a criança relatou o episódio. Em nenhum momento do filme vemos a própria criança se pronunciando. Temos a palavra dos pais contra a palavra de Rubens, que garante que não fez nada de errado.

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Uma série de elementos colaboram para que o espectador tenha dificuldade em julgar a culpa ou a inocência de Rubens. Ao mesmo tempo em que o professor é amigo de muitos alunos e alunas, a ponto de dar conselhos amorosos e postar fotos com os adolescentes nas redes sociais, quando está sozinho na intimidade do vestiário com seu colega de profissão, Rubens não economiza comentários maldosos sobre alunas menores de idade e suas mães.

Na intimidade do vestiário, Rubens se sente confortável para expor seus pensamentos incorretos, em forma de brincadeira com o colega. Bonito, ele chama a atenção de alunas de 12, 13 anos. Porém, no momento em que há uma acusação sem provas concretas, os mesmos comentários, e essa atenção oferecida a ele se voltam contra o seu autor.

De acordo com a diretora Carolina Jabor, essa dúvida é intencional. “A Justiça parte do princípio de que todo mundo é inocente até que se prove o contrário, mas hoje não estamos vivendo essa prerrogativa”, explica Carolina. A intenção do filme é mostrar como, em tempos de redes sociais, os fatos concretos não importam a partir do momento em que uma informação é espalhada. Cada um passa a acreditar e defender a sua verdade.

A internet, no filme, torna-se um personagem à parte, envolvida em todos os momentos-chave da trama. Todo professor que já passou pela pressão de ser questionado pelos pais dos alunos em grupos de whatsapp sabe como é essa sensação de impotência diante do julgamento alheio, com potencial de se espalhar para toda a internet em questão de segundos.

Os gestores talvez se identifiquem com Ana (Malu Galli), a diretora do clube, que se vê no meio do fogo cruzado, administrando a tensa relação entre os pais da criança, o professor e a polícia. Guardadas as devidas proporções, os diretores de escolas também precisam lidar com ânimos exaltados de ambas as partes na relação entre professores e pais. Como saber que está sendo justo diante de um conflito? “Minha personagem precisa formular um julgamento em 24 horas, e ela não consegue lidar com isso”, comenta Malu Galli.

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Vale notar que muitas das dúvidas e questionamentos sobre o caráter de Rubens acontecem porque ele é homem em um espaço dominado pela presença feminina: a Educação e o cuidado com crianças. A própria diretora do filme, Carolina Jabor, admite que se a personagem fosse uma mulher, talvez a reação fosse outra: “E se fosse uma mulher, essa história estaria sendo contada? Acho que não. Teria sido visto como um gesto maternal”, comentou em entrevista coletiva. Até a sexualidade do professor é questionada, na tentativa de encontrar uma “justificativa” para seu comportamento.

Para além de debater a culpa ou a inocência de Rubens ou o poder da internet de destruir a reputação de uma pessoa, o filme é capaz de levantar boas discussões sobre a relação entre professor e aluno, escancarando comportamentos e questões que fingimos que não existem na escola. Aquele comentário despretensioso que você faz com seu colega, quando estão só vocês dois na sala dos professores, está criando que tipo de imagem? Será que aquelas fotos com seus alunos nas redes sociais são adequadas? Por que não seriam? Como lidar com adolescentes que querem criar uma relação de amizade mais próxima com os professores? Qual é o limite de intimidade adequado nessa relação entre professor e aluno?

O filme “Aos teus olhos” é inspirado na peça “O princípio de Arquimedes”, do espanhol Josep Maria Miró, e já ganhou prêmios em festivais nacionais, como o Festival Rio (inclusive melhor filme de ficção pelo voto popular), Mix Brasil e 41ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, e internacional, no 39ª Festival de Havana. Estreia nesta quinta-feira, 12 de abril, em todo o território nacional. Confira o trailer do filme abaixo: