A ciência se move

Como grandes cientistas, estudantes de 5ª série pesquisaram o Universo. E descobriram que o conhecimento é provisório

POR:
Denise Pellegrini
Felicidade na noite da premiação: trabalho reconhecido ainda no início da carreira
Felicidade na noite da premiação: 
trabalho reconhecido ainda 
no início da carreira

O cientista está sempre buscando informações que possam melhorar a vida das pessoas ou, quem sabe, mudar os rumos da história. Esse gosto pela investigação, tão característico de quem cursa Ciências Biológicas, pode muito bem ser cultivado por quem decide atuar em sala de aula. Leticia Roveri Barbosa, eleita professora Nota 10 na edição 2001 do Prêmio Victor Civita, conhece essa lição. Apesar de exibir uma curta carreira no Magistério apenas dois anos , ela já sabe que é essencial ensinar aos estudantes o prazer da descoberta. "Queria que as crianças se sentissem atuantes e percebessem a importância de querer aprender sempre", resume.

Leticia foi premiada pelo trabalho A Utilização do Dinamismo da Ciência na Construção do Conceito Científico, realizado na Escola Estadual José Nicolau Pirágine, em Jaú, a 300 quilômetros da capital paulista. As situações de aprendizagem criadas por ela levaram a turma de 5ª série a levantar hipóteses e fazer pesquisas para confirmá-las ou não. "Cada um tirava as próprias conclusões", orgulha-se. A mais importante delas é de que a ciência é mutável.

Para que os alunos chegassem a esse conceito, Leticia escolheu o tema a dedo: Astronomia. Uma questão simples despertou o interesse da moçada. "Como vocês imaginam que seja o Universo?" A resposta deveria vir em forma de maquetes, construídas só com sucata. Nessa fase, ninguém podia consultar livros ou compartilhar dúvidas e perguntas. "A professora valorizou conhecimentos prévios, adquiridos na vivência do dia-a-dia", explica Lara Mendes de Almeida, professora de Ciências do Colégio I. L. Peretz, de São Paulo, e uma das responsáveis pela seleção dos finalistas do Prêmio Victor Civita.

Em Jaú, todos os trabalhos foram apresentados aos colegas. "Nessa hora, a turma percebeu a necessidade de estudar mais o tema", completa Lara. Prova disso, emenda Leticia, é que muitos ainda acreditavam que o Sol ocupa o centro do cosmo. O confronto entre concepções espontâneas e científicas estava só começando.

LETICIA ROVERI BARBOSA 

Idade: 23 anos
Formação: licenciatura e bacharelado em Ciências Biológicas, na Universidade de São Paulo, em Ribeirão Preto
Tempo de Magistério: dois anos
Onde leciona: Escola Estadual Professor José Nicolau Pirágine, em Jaú (SP)

"Os alunos partiram do senso comum para chegar ao conceito científico. Isso fez com que se sentissem donos do saber"

 A verdade de hoje

Enquanto produziam maquetes à base de sucata, os estudantes expunham a Leticia as noções que tinham do Universo antes mesmo de estudá-lo: a atividade prática permitiu à professora questionar as hipóteses levantadas pelos grupos, que depois foram à biblioteca da escola fazer pesquisas
Enquanto produziam maquetes à base de sucata, os estudantes 
expunham a Leticia as noções que tinham do Universo antes 
mesmo de estudá-lo: a atividade prática permitiu à professora 
questionar as hipóteses levantadas pelos grupos, que depois 
foram à biblioteca da escola fazer pesquisas

Para as crianças perceberem que a verdade de ontem pode não ser mais aceita hoje, ela mostrou as concepções que babilônicos, hindus e egípcios tinham sobre o Universo e propôs um debate. "Perguntei se esses povos antigos achavam que suas teorias estavam corretas. A resposta foi afirmativa." O questionamento foi aprofundado. Se eles acreditavam estar certos e nós sabemos que não, será que o que pensamos ser verdade agora pode também não o ser? Os alunos concordaram e tiraram conclusões: "Temos pensamentos diferentes dos compartilhados no passado e certamente no futuro muitas de nossas idéias serão ultrapassadas", disseram uns. "O conhecimento é passageiro", completaram outros. Leticia não esconde o orgulho com o resultado do trabalho. "Logo percebi que estava no caminho certo."

A turma, então, foi dividida em cinco grupos. Cada um recebeu um texto com as idéias de Aristóteles, Ptolomeu, Copérnico, Galileu e Kepler. A atividade não foi bem-sucedida, no entanto. A linguagem era muito complicada e a professora precisou fazer várias adaptações no material antes de repassá-lo à classe. Compreendidas as informações, os diferentes modelos do Universo foram desenhados em folhas de papel pardo. Para que a evolução ficasse bem clara, os grupos expuseram os cartazes em ordem cronológica. "Durante as apresentações, eu ia questionando as mudanças no pensamento científico."

O projeto incluiu ainda uma pesquisa sobre inovações tecnológicas em Astronomia. A garotada foi à biblioteca da escola buscar novidades em revistas e livros paradidáticos. Um questionário de avaliação das atividades serviu de fecho. Entre as questões estavam as seguintes: Podemos dizer que a concepção de Universo atual é a definitiva? Se você fosse construir uma maquete agora ela seria diferente daquela feita no início das aulas? Por quê?

O aluno Júlio Gustavo Pereira, por exemplo, respondeu que os povos antigos pensavam que existiam outros planetas, mas não tinham como provar. Além disso, disse que reconstruiria sua maquete, apesar de não saber se a hipótese de hoje continuaria válida para sempre. Mayara da Silva afirmou que não refaria o trabalho, já que ele foi produzido com base no que ela pensava naquele momento, como a professora havia pedido. "Achei muito interessante esse ponto de vista. Não tinha previsto uma resposta como essa", admite Leticia.

Para aprender a ser pesquisador 

Projeto: A Utilização do Dinamismo da Ciência na Construção do Conceito Científico
Disciplina: Ciências Naturais
Duração: dois meses e meio
Objetivo: criar situações de aprendizagem para que os estudantes concluíssem que a ciência é mutável e não acaba em si mesma
Avaliação: os alunos puderam pensar e agir como cientistas, levantando hipóteses e pesquisando para confirmá-las ou não, antes de chegar a uma conclusão; compararam conceitos espontâneos sobre o Universo com conceitos científicos; realizaram pesquisas em livros e revistas, conhecendo as especificidades de cada tipo de texto; expuseram oralmente as diversas teorias sobre o tema surgidas em diferentes épocas e, no final, aprenderam que, numa perspectiva histórica, o conhecimento científico é provisório e mutável

O bom estudo

A professora nota 10 não esteve sozinha nessa busca pelo conhecimento. As atividades, que duraram dois meses e meio, foram criadas em parceria com Luciene Pereira e Selma Manechini no curso de mestrado em Educação para a Ciência da Universidade Estadual Paulista, em Bauru, sob a orientação de Ana Maria de Andrade Caldeira. As três mestrandas, co-autoras do projeto premiado, dividiram os 15 mil reais. Dinheiro que Leticia está usando para ajudar a bancar as despesas do dia-a-dia, já que ela estuda e, por isso, só leciona vinte horas por semana. Essa rotina, aliás, vai se estender por um bom tempo. Terminado o mestrado, a jovem mestra promete começar um doutorado, também na área de Educação. "Vou trabalhar com orientação pedagógica", planeja.

Estudante dedicada, Leticia conciliou o bacharelado e a licenciatura durante a graduação. Fazia pesquisas com bolsa de iniciação científica e estágio em sala de aula. Sua primeira experiência foi com um turma de suplência, gente dos 20 aos 50 anos. "Gostei de me sentir útil para a sociedade e isso foi predominante na escolha pelo Magistério." A estréia marcou sua carreira o Ensino de Ciências na Educação de Jovens e Adultos é o tema de sua dissertação de mestrado. "Percebi que essas pessoas, por terem uma vivência maior que as crianças, observam os fenômenos científicos com outro olhar", conta. "Quero mostrar, com minha pesquisa, que a experiência diária é propulsora de novos conhecimentos, mesmo quando está baseada em informações erradas, como a de que tomar banho após as refeições faz mal à saúde." A professora pretende comprovar que os adultos podem perceber por que conceitos aceitos antigamente hoje são descartados.

Essa foi a tônica do projeto que lhe rendeu o Prêmio Victor Civita. Para Lara, Leticia foi bem-sucedida por apresentar situações significativas para as crianças durante as aulas. "Ela forneceu informações que favoreceram a reelaboração do conhecimento, em vez de resumir sua proposta a uma simples apresentação de definições científicas", afirmou. A professora nota 10 concorda. E destaca que também procurou incentivar os estudantes a expor suas idéias, ao mostrar que outras pessoas, no decorrer da história, tiveram a mesma coragem de defender seus pontos de vista, mesmo que eles pudessem depois ser derrubados. "É nessa prática que eu acredito."

Quer saber mais?

Escola Estadual Professor José Nicolau Pirágine, R. Mal. Bitencourt, 1455, CEP 17202-160, Jaú, SP, tel. (14) 622-8584

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