Com seus alunos, ao infinito e além

Aula-espetáculo de cientista inglesa instiga a pensar sobre a origem da Terra e a vida nos outros planetas

POR:
Débora Didonê, Daniel Spalato
A professora Monica Grady, da Open University, 
explica como os cientistas deduzem sobre o 
interior do nosso planeta: "ninguém tirou uma fatia"

"A Terra não vai mais existir daqui a 5 bilhões de anos. Para onde vamos?" A pergunta ressoou de um palco iluminado por feixes azuis e ilustrado por um telão com imagens de astros, planetas, cometas e meteoros. Ao centro, ao som de músicas no estilo Guerra nas Estrelas, a professora de ciências planetárias e espaciais Monica Grady, da Open University, Reino Unido, convida cerca de 900 alunos brasileiros de 10 a 14 anos a entender "por que nosso planeta é tão especial". Rodeada por mini exemplares de corpos celestes colocados sobre uma mesa, Monica segura nas mãos uma reprodução da Terra sem uma fatia e explica que ela é formada por uma bola de poeira quente por dentro e que sofreu inúmeras colisões no passado. Estudiosa de meteoros, do planeta Marte e da possibilidade de vida em outros planetas, a cientista leva os alunos a uma viagem imaginária pelo espaço a procura de um novo planeta onde os homens possam viver quando a Terra acabar. Um pouco desse conhecimento, você também pode reproduzir na sua sala de aula, com atividades sugeridas por Monica.

Conhecida como Christmas Lectures, a aula-espetáculo (apresentada na Inglaterra sempre perto do Natal) é uma tradição em Londres. O programa foi criado em 1825 pelo físico inglês Michael Faraday (1791-1867), o inventor do dínamo - dispositivo que transforma a energia mecânica em elétrica, como fazem os geradores das hidrelétricas. Depois de se expandir para alunos do Japão e da Coréia, o evento veio pela primeira vez à América Latina, trazido pela British Council. Em dois dias, cerca de 3 mil estudantes de escolas públicas e particulares de São Paulo participaram de quatro palestras interativas. Em sua apresentação, Monica chama alguns alunos ao palco para ajudá-la nos experimentos que mostram como se formam cadeias de carbono ou como a Terra se comporta quando há um terremoto. Nos dias 26 e 27 de setembro, a oficina segue para o Rio de Janeiro, na Fundação Planetário.

Como a Terra treme

Depois de explicar que os cientistas baseiam-se em ondas sonoras para saber como a Terra é por dentro (afinal, ninguém pode fatiá-la como no globo que Monica usa), a professora estica uma mola até o chão, segura-a com uma das mãos e pede para que a platéia bata os pés no chão. A mola balança, mas pouco. Em seguida, a professora pede que todos pulem na platéia. A mola se comprime e se estica com intensidade. "Imaginem o impacto de terremotos e explosões sobre as diferentes camadas do planeta", pede aos alunos, comparando a reação da Terra à da mola. Em cada camada do planeta, as ondas se propagam com mais ou menos intensidade. E por causa desses tremores, nosso planeta também está em constante mutação. "O continente americano se afasta quatro centímetros por ano da África e da Europa", conta.

O átomo de carbono foi apresentado como o mais maleável do universo. "Ele pode se ligar a seis outros átomos e formar uma longa cadeia", explica a cientista. E está por toda parte: no dióxido de carbono, vital para o crescimento das plantas; nos ácidos graxos, essenciais para a vida; e na energia produzida pelo sol e outras estrelas. Para mostrar aos alunos como uma cadeia de carbono se forma, Monica usa um balão redondo, que representa o átomo, e um balão comprido, que liga um a outro. Dois voluntários escolhidos na platéia ligam as pontas de uma cadeia de balões, ou melhor, de átomos de carbono, para formar um anel. "Nenhum outro elemento pode se transformar em tantos compostos diferentes como esse", completa. É dessas cadeias, ligadas por grupos de átomos "simples e complicados", chamados de moléculas, que surge a vida. Numa brincadeira de mágica, Monica tira de uma cartola pequenas cadeias de bolas ligadas a palitos, que representam as moléculas simples, depois um marshmallow comprido e torcido, representando a hélice dupla do DNA, e depois - ao som do "óóóóó", da meninada - um coelho, ou seja, a vida resultante da complexidade das cadeias.

Receita de cometa

Em outra intervenção, mais duas crianças colaboram com a cientista para ensinar à platéia de que é feito um cometa. Vestida com uma luva protetora, uma delas coloca gelo seco dentro do prato, outra, areia. Como se estivessem diante de um caldeirão de bruxarias, as crianças misturam os elementos e divertem-se com a fumaça. Em seguida, Monica põe as luvas, pega a mistura e a aperta com as mãos. "Dióxido de carbono (o ar que expiramos), gelo e poeira comprimidos, disso se fazem os cometas", diz.

Para explicar como os pesquisadores investigam se há vida em outros planetas, Monica usa um maçarico (dessa vez, a uma distância segura dos alunos e auxiliada por um técnico) para furar uma placa de gelo, que representa a superfície do satélite Europa, uma das quatro luas de Júpiter. Acredita-se que pode haver vida debaixo dessa superfície ou que poderá haver no futuro. "Depois de Marte, Europa é a melhor aposta de vida fora da Terra", explica. O maçarico representa o aparelho que os cientistas estão criando para perfurar o gelo do satélite.

Cientista com nome de asteróide

Monica vira uma estrela, depois de quase duas horas de experimentações performáticas. Os alunos formam fila para pegar um autógrafo. E ficam sabendo que o nome da cientista foi dado ao asteróide 4731, descoberto recentemente. O amor da pesquisadora pelos corpos celestes começou na infância, quando subia as montanhas da cidade onde morava para apreciar o céu. "Sempre me interessei por pedras e gostei de Ciências e Geografia", conta. Para ela, aulas como essa fazem a criança perceber a imensidão do Sistema Solar e a fragilidade da Terra, que precisa ser preservada. "Elas são interessadas. Tomam notas durante a aula e ficam compenetradas quando as chamo ao palco", conta. Muitas das experiências podem ser reproduzidas na sala de aula e tornam-se um caminho para que os alunos, além de ficar mais conscientes do que é a vida, tenham mais gosto pela Ciência e a Astronomia.

Acompanhe mais duas dicas práticas de Monica para incrementar sua aula:

O Sol: Pegue uma lente e tape-a com uma folha de papel do mesmo tamanho, com um pequeno furo no meio. Vire a parte descoberta em direção ao sol de forma que a luz se reflita numa parede. Observe a movimentação da imagem reproduzida e comente com os alunos sobre a intensa atividade da superfície do Sol, sua composição e os ciclos solares (período de ocorrência das manchas solares). Organize um debate sobre a explosão solar (que deve ocorrer daqui a cinco bilhões de anos) e as conseqüências para o planeta Terra. Lembre-se: nunca deixe os alunos olharem diretamente para o sol.

A Lua: Há certos dias em que ela é perfeitamente visível a olho nu durante o dia. Aproveite para fazer a criançada observar regiões claras e escuras do astro, explique porque a Lua gira, porque fica cheia, nascente, crescente e minguante, qual sua relação com o eclipse, como influencia as marés.

Outra boa sugestão é agendar uma visita ao planetário da sua cidade. Em São Paulo, o planetário do Parque do Ibirapuera volta a funcionar neste fim de semana e funcionará aos sábados e domingos, sempre às 15 horas. A entrada é grátis até o fim de novembro. As sessões duram 30 minutos e o agendamento para as escolas começa em janeiro.

Quer saber mais?

Sociedade Brasileira de Astronomia, R. do Matão, 1226, São Paulo, SP, 05508-900, tel. (11) 3091-2800

Planetary and Space Sciences Research Institute, Open University - Atividades (em inglês) sobre o Sistema Solar, sugeridas pelo British Council 

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