Fritz Müller - a prova do evolucionismo no Brasil

Imigrante alemão testou pela primeira vez, em Santa Catarina, a teoria de Darwin. Para o naturalista inglês, seu colega era o ''príncipe dos observadores da natureza''

POR:
Anderson Moço

Charles Darwin sabia que não seria fácil a comunidade científica aceitar sua tese de que uma espécie daria origem a outra distinta. Logo na primeira edição de "A Origem das Espécies", publicada em 1858, ele solicitou o envolvimento de naturalistas para que estudassem, imparcialmente, os dois lados da questão. Uma questão tão polêmica seria um prato cheio para cientistas ávidos por ter seu nome reconhecido em um importante projeto de pesquisa. Estudos começaram a ser feitos no mundo todo, em uma verdadeira "corrida do ouro". Mas o resultado que Darwin esperava só foi surgir em 1864, com o trabalho batizado de FürDarwin (Para Darwin, em alemão), do naturalista alemão, radicado no Brasil, Fritz Müller.

O professor da colônia
Johann Friedrich Theodor Müller (1822-1897) era um jovem médico e naturalista alemão que, em 1852, chegava ao Brasil com a esposa e uma filha. A família Müller, como outros milhares de imigrantes, fugia da tensão política que sacudia a Alemanha no século 19 por conta das revoltas contrárias à influência do clero e às arbitrariedades do governo - um ambiente pra lá de hostil para um rapaz genial que não conseguia deixar de dizer o que pensava. Eles tinham sido atraídos ao país pela propaganda feita por Hermann Blumenau, que desejava povoar uma colônia ao lado do rio Itajaí (hoje conhecida pelo sobrenome de seu fundador) e atrair o maior número possível de cientistas - que trabalhariam como professores.

Em Blumenau, Müller ganhou um grande terreno e passou a cuidar das terras como colono, aguardando o convite para lecionar - o que viria a acontecer em 1856, quando assumiu a vaga de professor de matemática no Liceu Provincial de Desterro, atual Florianópolis. Para os habitantes da ilha, seu nome era quase impronunciável e ele ganhou um carinhoso apelido: Fritz Müller.

Pouco tempo depois, em 1861, o Liceu seria fechado e daria lugar ao Colégio da Santíssima Trindade, instituição religiosa que nada tinha a ver com o que Müller acreditava. O naturalista agora teria tempo de percorrer as matas atrás dos espécimes que colecionava, em um ofício que lhe foi caro desde a juventude. Mas os planos do alemão iam além. Nesse mesmo ano, ele recebeu a tradução alemã de A Origem - sendo considerado o primeiro habitante do Brasil a ter contato com a obra - e percebeu que o convite de Darwin para novas pesquisas era uma oportunidade de colocar seu intelecto em prática.

Por meses, Müller realizou pesquisas de campo e experiências com espécies típicas do litoral catarinense. Em um desses trabalhos, encontrou a prova de que parte de uma espécie poderia se diferenciar do restante e ganhar características próprias, transformando-se em uma nova espécie que poderia competir com a outra e se destacar, tornando-se mais apta a sobreviver. O naturalista alemão criou um modelo de pesquisa que visava acompanhar o desenvolvimento embrionário de um microcrustáceo do gênero Tanais. Depois de apanhados no mar, os animaizinhos eram levados à casa do cientista para serem analisados por longos períodos. Ele observou que na época em que alcançavam a maturidade sexual, os machos se pareciam com as fêmeas e depois sofriam modificações. Após um tempo, restavam apenas duas formas de machos - e uma delas predominava sobre a outra. Na briga por alimento e comida, a grande maioria dos sobreviventes apresentava pinças gigantes (usadas para capturar o alimento). Com isso, concluiu que, mesmo sendo da mesma espécie, os animais competiam entre si. Mas apenas um grupo ganhava a briga, levando ao desaparecimento do outro, menos apto a sobreviver. Com essa descoberta, Fritz Müller foi o primeiro cientista a apresentar modelos matemáticos para explicar a seleção natural e fornecer provas contundentes da veracidade da teoria.

Em 1864, ele publicou na Alemanha Für Darwin. Em 91 páginas, explicou os motivos que o levaram a testar a Teoria da Evolução pela Seleção Natural e demonstrou os resultados que comprovavam as ideias do naturalista inglês. No ano seguinte, Charles Darwin recebeu um exemplar da obra e reconheceu o trabalho, elogiando Fritz Müller pelo serviço prestado à teoria. Darwin pediu autorização para traduzir o livro para o inglês e, em 1869, o lançou na Inglaterra com o nome Fotos e Argumentos a Favor de Darwin. Nos anos seguintes, Darwin e Müller trocaram quase 40 cartas, nas quais o inglês fazia perguntas e convidava o alemão a participar dos estudos. Nas edições posteriores de A Origem das Espécies, Müller foi citado mais de dezessete vezes e recebeu o carinhoso apelido de "príncipe dos observadores da natureza".

Quer saber mais?

Na internet
Em www.mulleriana.org.br você encontra mais detalhes da vida do naturalista alemão.
Em www.blumenauonline.com.br/conhecablumenau/ é possível encontrar maiores informações sobre o Museu de Ecologia Fritz Müller, que reúne um grande acervo sobre o pesquisador e realiza projetos de divulgação sobre o seu trabalho.  

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