Como estudar em escola pública me ajudou a chegar a Harvard

Leonardo Brito dedicou-se a olimpíadas do conhecimento e nunca duvidou de seu potencial para ser admitido como bolsista integral em uma das instituições mais prestigiadas do mundo

POR:
Beatriz Vichessi
Leonardo Silva Brito, aluno de escola pública de Rondônia, foi aceito na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos   Foto: 

A história da vida acadêmica de Leonardo Silva Brito, 18 anos, aluno da Universidade de Harvard, começa no início do século 20, em 1913, durante a expedição científica feita pelo ex-presidente dos Estados Unidos Theodore Roosevelt com o marechal brasileiro Cândido Rondon em terras que hoje pertencem ao estado de Rondônia. Pode parecer estranho, mas foi graças a um intercâmbio em comemoração ao centenário dessa aventura que o garoto viajou para os Estados Unidos por dez dias para visitar instituições de Ensino Superior e salas de aula de Ensino Médio e pôde conhecer como funcionava o processo para se submeter a uma vaga em instituições no exterior. “Fui um dos selecionados porque venci um concurso de redação. Quando voltei ao Brasil, estava determinado a estudar fora”, diz ele.

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Apesar dessa oportunidade, muita coisa ainda precisava ser feita para que Léo, com 14 anos na época, chegasse às salas de aulas de Harvard como aluno do curso de  Matemática Aplicada e Economia em agosto de 2017. Além de se dedicar muito à vida escolar, ele participou de programas de mentoria – que o auxiliaram no processo necessário para concorrer à vaga na universidade – e estudou muito (muito mesmo) por conta própria – inclusive inglês, evidentemente. Um dos maiores trunfos, segundo ele, foi ter sido aluno da

EEEFM Drumond de Andrade, em Presidente Médici (RO), por todo o ciclo básico. Sim, Léo conta que estudar nessa escola – pública, que fique bem claro – fez toda a diferença. Além de Harvard, ele foi aceito na Universidade de Columbia, Tufts e Stanford (todas nos Estados Unidos). Também admite que o apoio da mãe, Andréia Silva Brito, professora de Matemática e vencedora do prêmio Educador Nota 10 em 2008, fez diferença.

Confira a seguir os principais momentos da entrevista exclusiva a NOVA ESCOLA.

NOVA ESCOLA Você acreditava ter potencial para chegar a uma instituição prestigiada como Harvard, tendo estudado em uma escola pública brasileira a vida inteira?

Leonardo Silva Brito Sim. Nunca duvidei da minha força de vontade e da confiança que amigos e familiares tinham em meus sonhos, por mais surreais que parecessem. Quando disse para meus pais que deixaria de estudar para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) porque queria me dedicar ao chamado application (processo de se candidatar a uma vaga para estudar em uma universidade estrangeira) de Harvard, eu estava muito confiante sobre as chances que tinha. Ainda assim, foi bem árduo. Revisei vários conteúdos sozinho e muito do que era cobrado nas provas de admissão eu não havia aprendido. Por isso, embora otimista, estava ciente das minhas desvantagens. O que me ajudou foi fazer delas um impulso para me esforçar mais.

Leonardo ao lado da mãe, a professora de Matemática e premiada como Educadora Nota 10, Andréia Silva Brito   Foto: Acervo pessoal

Você acha que o processo teria sido mais fácil se tivesse estudado em escolas particulares?
Não acho, embora isso possa parecer estranho. Estudar em uma escola pública de uma cidade pequena como Presidente Médici me fez criar laços fortes com os professores e o fato de minha família ter um longo histórico de atuação na educação pública colaborou para eu crescer num ambiente verdadeiramente escolar. Meus educadores e colegas de classe eram mais que pessoas com quem eu convivia: frequentavam minha casa. Sempre recebi deles apoio para participar de competições, como as olimpíadas do conhecimento, e sugerir projetos para serem implantados na escola, inclusive voluntários. Esse meu jeito acabou criando um efeito positivo de bola de neve: quanto mais eu participava de concursos, mais o interesse e a participação da escola crescia e melhorava.

Você estudou inglês desde criança?
Não. Comecei quando estava no 6° ano porque uma funcionária da escola, fluente no idioma, decidiu dar aulas para a turma da escola. Depois eu frequentei uma escola particular e tive a sorte de ter um professor nativo dos Estados Unidos, o que ajudou muito a avançar no idioma. Minha iniciativa de introduzir o inglês no cotidiano também foi fundamental: lia livros no idioma, conversava com pessoas pela internet, mudei a configuração do celular para o inglês, assistia a filmes sem legenda…

Quando você chegou à Universidade de Harvard, não bateu um medo de não se encaixar nos padrões de excelência dessa instituição que é referência internacional em Educação?
Confesso que sim, receava não ser bom o suficiente. Mas logo no início descobri que pluralidade é o que faz a comunidade intelectual dessa escola ser uma das mais brilhantes do mundo: não sou o único estudante de baixa renda nem com passado em escola pública. Compreendi também que, como todos meus colegas, tenho algo para contribuir nas aulas, algo só meu. Estudo em uma instituição que entende que o ponto de partida e de chegada de cada estudante – o chamado delta – o torna capaz de ser tão brilhante como qualquer outro.

Como era sua rotina de estudos para o application de Harvard?
Passava cerca de oito horas por dia, além do tempo de sala de aula, fazendo simulados, assistindo a vídeo-aulas e escrevendo as redações necessárias para o processo. Durante os quatro últimos meses de 2017, quase não dormia para estudar mais. Ainda assim, não defendo que esse caminho funcione para todos. Conheci gente admitida em Harvard com histórico muito diferente do meu, pessoas que se dedicaram à música, teatro, dança, missões voluntárias religiosas, gente que se destaca no que faz. A chave é ser você mesmo.

Leonardo Silva Brito com cachecol da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos   Foto: Acervo pessoal

O que você estuda atualmente em Harvard?
Nessa universidade tenho mais flexibilidade do que teria numa instituição brasileira: durante um ano e meio depois de admitido, o aluno tem liberdade de escolher as disciplinas que quer estudar, além das básicas e obrigatórias, é claro. Aproveitei isso para fazer aulas de micro e macro economia e política da América Latina, entre outras.

Você sempre se interessou por Matemática, uma das áreas a que se dedica atualmente?
Sempre fui muito curioso e nunca achei que o que aprendia na escola era suficiente. Por isso passei a me inscrever em olimpíadas científicas e outras competições para alunos e fui muito incentivado por meus pais e professores. Ganhei a primeira medalha na Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP) e isso abriu muitas portas em minha vida e me fez ficar apaixonado pela disciplina. Por causa da vitória, fui convidado a participar do Programa de Iniciação Científica da própria OBMEP, promovido pelo Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA). Nele, ganhava ótimos livros e pude fazer cursos de matemática avançada. Ainda estava no 9° ano do Ensino Fundamental e tinha aulas com professores universitários!

Ter sido aluno de sua mãe (professora finalista do Prêmio Educador Nota 10) o ajudou em alguma coisa?
O fato dela ter sido minha professora de Matemática talvez tenha impactado menos do que o que ela fez por mim em casa: me motivava, auxiliava com questões de olimpíadas que eu tinha dúvidas e na organização do tempo de estudo fora do período escolar. Ao mesmo tempo, ela jamais me cobrou ser bom em Matemática porque lecionava a disciplina nem exigiu notas altas. E nunca abriu mão de eu me dedicar muito à escola e aprender com meus erros.

O que tem sido mais difícil para sua adaptação?
Certamente o frio. É assustador. Já passei por períodos em que a temperatura ficou abaixo de dez graus Celsius e enfrentei tempestades de neve. Para um garoto que viveu a vida toda perto da linha do Equador é difícil de se acostumar com essas coisas!    



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