Bichos injustiçados

Animais necrófagos e seres decompositores realizam uma incrível limpeza do meio ambiente. Mostre à turma a importância deles na cadeia alimentar

POR:
Tatiana Pinheiro
Clique para ver o infográfico completo
Por Éber Evangelista e Luiz Iria

Urubu, camarão e garça. À primeira vista, os três são seres vivos bem diferentes entre si. Mas isso fica só na aparência. Na natureza, eles desempenham papéis semelhantes: aproveitam restos animais e vegetais em sua alimentação, transformando-os e devolvendo-os em forma de nutrientes para a cadeia alimentar. Por meio da atuação desses seres, o que não teria mais serventia ganha nova forma e utilidade, entrando de novo no ciclo da vida (veja os infográficos que ilustram esta página).

Junto de tatus e hienas, urubus e camarões são classificados como necrófagos ou detritívoros. São chamados assim porque se alimentam de animais mortos, em estágio pouco avançado de decomposição. Na falta de carcaças frescas, alguns deles variam o cardápio com frutas e vegetais. Mas o fato de se servirem sempre de restos fez com que esses bichos ganhassem tão má fama que os livros didáticos praticamente não falam deles. "Tudo o que se relaciona à morte, em Ciências ou em outras disciplinas, acaba ficando meio de lado", aponta Sueli Furlan, bióloga, professora de Geografia da Universidade de São Paulo (USP) e selecionadora do Prêmio Victor Civita - Educador Nota 10.

É possível acabar com esse preconceito. Em sala de aula, mostre aos alunos de 3º e 4º anos - e, mais adiante, ao 7º e ao 8º ano (leia o quadro abaixo) - que os hábitos um tanto estranhos dos necrófagos constituem, na verdade, uma prestação de serviço de grande valor ecológico para o meio ambiente (leia o plano de aula). Ao consumir carcaças, os necrófagos impedem a proliferação exagerada de bactérias e insetos. Evitam, assim, contaminações e desequilíbrios mais sérios, principalmente quando um surto ou uma epidemia mata muitos exemplares de uma mesma espécie.

Conteúdo retomado no 7º e no 8º ano

Mais adiante, o conteúdo sobre animais necrófagos e decompositores pode ser retomado com turmas de 7º e 8º ano, etapas em que os currículos de Ciências voltam a trabalhar as cadeias alimentares e a classificação de seres vivos. Dessa vez, é possível aprofundar e complexificar ainda mais as investigações sobre o tema. "Dá para ir além e discutir, por exemplo, a relação entre necrófagos e decompositores - ao expor partes dos animais mortos, os necrófagos aumentam a superfície na qual os decompositores poderão agir", exemplifica Marcos Engelstein, biólogo, professor de Biologia do colégio Móbile e assessor de Ciências do Colégio Anglo-Brasileiro, ambos em São Paulo. A retomada com esse enfoque é ideal porque, nessa fase, os maiores já percebem as classificações como importantes formas de organizar o conhecimento, porém entendem que elas não são definitivas nem consensuais.Convém citar, por exemplo, que alguns fungos e bactérias têm destaque na produção de alimentos. Uns são usados para fazer as massas crescerem. Outros agem no processo de fabricação de queijos e iogurtes. Mas um tipo de fungo que sempre desperta o interesse da garotada é o cogumelo, ou champignon. Por ser um dos poucos fungos visíveis a olho nu, pode ser um excelente objeto de investigação para o trabalho de campo. Lembre à turma que, além de decompositor de madeira, o cogumelo é apreciado por seu sabor e sua textura.

No esforço para derrubar falsos estereótipos, vale destacar para os pequenos o quanto somos influenciados pelas aparências. Ao lado do camarão, o urubu é um dos representantes mais conhecidos dessa turma de "limpadores da natureza". No entanto, é só falar nele que muita gente torce o nariz. Mas... surpresa: essa ave tem hábitos alimentares semelhantes ao da garça. O problema é que o urubu é sempre feioso, meio gorducho e desengonçado, enquanto a garça é esguia e cheia de elegância no seu caminhar.

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Por Éber Evangelista e Luiz Iria

Quanto aos organismos decompositores, grupo formado principalmente por fungos e bactérias, um primeiro passo é reafirmar a sua existência: como a maioria desses seres não é visível a olho nu, passam despercebidos em nosso dia-a-dia, exceto em situações em que nos deparamos com um pão mofado ou uma fruta passada. Mostre que esses seres vivos precisam de alimento para crescer e se reproduzir. Em nossa casa, quando encontram condições ideais de umidade e temperatura, estragam os alimentos que não guardamos de maneira correta. Na natureza, trabalham silenciosamente para transformar grandes porções de matéria orgânica ou inorgânica em substâncias simples, como água e gás carbônico - além de outros compostos que resultam em odores pouco agradáveis. Tanto podem ser encontrados em um punhado de folhas caídas como em cadáveres de animais que se desfazem em poucos dias. No caso desses últimos, são os responsáveis por acelerar o processo de decomposição da matéria orgânica, ou seja, a putrefação. Nesse processo, muitas vezes contam com a ajuda inicial de animais necrófagos, encarregados de dar cabo de grandes porções de carne.

Quer saber mais?

CONTATOS
Marcos Engelstein
Sueli Furlan

BIBLIOGRAFIA
Educação Ambiental: as Ameaças ao Planeta Azul
, José Carlos Lopes Sariego, 208 págs., Ed. Scipione, tel. 0800-161-700, 73 reais
Guia de Campo - Aves da Grande São Paulo, Edson Endrigo e Pedro F. Develey, 295 págs., Ed. Aves & Fotos, 50 reais

INTERNET
Informações sobre o ciclo de vida do urubu (em inglês)

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