Violência na Câmara de SP: o que sabemos sobre o protesto dos professores

O protesto dos professores contado por quem estava lá

POR:
Laís Semis
Foto: Reproducao/Twitter

*A pedido dos professores, os nomes Todos os personagens professores dessa reportagem tiveram seus nomes alterados para evitar represálias

“Estávamos na frente da Câmara Municipal, como um movimento pacífico. Mas começaram a chegar por WhatsApp fotos de professores que estavam lá dentro machucados. Todo mundo ficou preocupado, tentando entender o que estava acontecendo. Falamos isso para o pessoal do Batalhão de Choque que estava do lado de fora e pedimos para entrar ou pelo menos saber notícias das pessoas. Alguns manifestantes abriram o portão lateral, mas não quebraram nada e nós entramos no jardim da Câmara. Só que aí percebemos que era uma emboscada, os batalhões nos cercaram. Sentamos no chão para mostrar que era um movimento pacífico, mas mesmo gritando ‘Não à violência’, eles atiraram bombas de gás e dispararam balas de borracha por todos os lados, até do telhado. Todo mundo começou a correr”.  

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O depoimento desta professora, que vamos chamar de Maria, é a versão mais comum entre os professores que estavam na tarde de quarta-feira (14) na Câmara Municipal de São Paulo. Muitos educadores da rede municipal estão em greve - 71% das escolas estão paradas. Eles são contra a aprovação do projeto de lei 621/16, que propõe mudanças na Previdência municipal e afeta diretamente o salário líquido que eles recebem. 

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Por causa da sensibilidade do tema, os professores se mobilizaram para ir ao parlamento municipal durante as últimas discussões do projeto. A iniciativa, que começou na administração de Fernando Haddad (PT), deve ser votada na próxima semana. O objetivo dos professores era influenciar o parecer da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, que tem grande peso no andamento de qualquer lei. A comissão votou a favor da reforma da previdência municipal. 

Com a lotação dentro e fora da Câmara, as tensões aumentaram e os protestos terminaram em violência. Relatos de professores e servidores municipais dão conta de que a Guarda Civil Metropolitana (GCM) e a Polícia Militar agiram com violência desmedida e excederam seu papel de garantir as atividades legislativas. “O que dói é o abuso de poder”, diz a professora Maria. “Policiais que também estão passando por uma reforma na Previdência, que vão sofrer com isso, estão no embate conosco, que damos aula para os filhos deles. É muito triste ver essa situação”.

A Câmara Municipal de São Paulo publicou uma nota oficial sobre o caso.  Ela diz: "a Presidência da Casa atuou desde o princípio para garantir o amplo debate democrático do PL 621/16. Tanto que assegurou o acesso de manifestantes ao plenário onde ocorria a reunião da CCJ e ao auditório externo até a lotação máxima dos dois espaços, para garantir a segurança de todos, inclusive dos próprios manifestantes. Eventuais excessos das forças de segurança que atuam dentro do Legislativo serão apurados”.

Fora da Câmara

A confusão aconteceu em duas etapas. Primeiro, professores dentro do plenário da Câmara e policiais entraram em confronto. Então, alguns educadores postaram fotos em seus perfis em redes sociais e em grupos de WhatsApp. As imagens causaram indignação pelo grau de violência. Uma das fotos que tiveram mais repercussão é a da professora Luciana Xavier. Seu rosto, sangrando, virou símbolo. “Eles quebraram meu nariz”, disse ela a jornalistas, após o protesto. Ela passaria por cirurgia nesta quinta-feira (15). 

Uma das fotos que circularam pelo whatsapp dos professores foi
a de Luciana Xavier machucada.

Ao receber essas imagens, os professores que estavam do lado de fora da Câmara reagiram. É a segunda etapa. A situação - até então relatada como pacífica pelos professores ouvidos por NOVA ESCOLA - mudou. “Tinha um nervosismo do lado de fora com o que estava acontecendo lá dentro”, relata o professor Gilberto. Foi o estopim. 

Os fatos narrados até o momento em que os professores se colocaram diante das portas do edifício são muito semelhantes. A partir daí, os relatos ganham versões diferentes. De um lado, professores teriam forçado a entrada. De outro, teriam usado apenas o diálogo e palavras de ordem porque, segundo eles, a porta principal da Câmara estava aberta. “Existem visões diferentes dentro da própria categoria de como levar o movimento”, comenta Gilberto. “Há pessoas que acham que um pouco de brutalidade é necessária, no sentido de forçar uma porta para entrar. Mas a maioria defende o movimento pacífico. Ninguém está de acordo com desrespeito, violência. A televisão nos coloca como vândalos e baderneiros. Só que nós não enxergamos como invasão e sim como ocupação do espaço público”.

Gilberto afirma que houve tentativas isoladas de invadir o prédio. Porém, conforme avançaram pelos portões externos da Câmara, os professores foram recebidos com bombas de gás lacrimogêneo. Do alto do prédio, policiais teriam lançado bombas também em direção ao carro do Sindicato dos Professores. “Nós fugimos para as padarias e bares, que nos acolheram super bem. Teve funcionário que nos deu vinagre para colocar no nariz e cortar o efeito do gás”, conta Gilberto. De acordo com um dos entrevistados também houve bala de borracha. “Algumas pessoas foram atingidas no rosto. Da nossa escola, um professor foi hospitalizado com o braço quebrado, a gente ainda não teve notícias dele. Comigo não aconteceu nada, apenas corri”.

O protesto se dispersou por algum tempo, mas logo a maior parte dos manifestantes voltou a se concentrar nas proximidades da Câmara. A primeira comissão aprovou o projeto por 5 a 3, mas o debate ainda continuou nesta quinta (15) com uma audiência pública. As discussões devem acontecer até a próxima terça (20), quando o projeto será votado.

Dentro do plenário 

A diretora Denise estava entre o grupo de servidores municipais que teve acesso ao Salão Nobre da Câmara Municipal para acompanhar a votação. Ela diz que chegou por volta das 10h30 e entrou com um grupo de aproximadamente 150 pessoas. Havia uma “pressão verbal” para que os vereadores não votassem a favor do projeto de lei.

Durante a leitura do projeto, havia manifestações para interromper o processo. Um grupo de professores teria avançado para falar com o relator do projeto, o vereador Caio Miranda (PSB). A assessoria de imprensa da Câmara informou que o vereador foi atingido por uma garrafa plástica lançada pelos servidores. Com isso, outros vereadores se afastaram da mesa. Segundo os relatos, a violência começou neste momento. “Eles começaram a bater aleatoriamente, inclusive em quem estava mais distante, e acertaram a professora Luciana”, narra Denise.

O dia seguinte

As manifestações continuaram nesta quinta-feira (15). Pela estimativa do sindicato dos professores, o movimento reuniu 60 mil pessoas. Ainda não há estimativas da Polícia Militar, que também faz a contagem nestes casos. O professor Paulo, que participou nos dois dias, acredita que a repercussão dos acontecimentos do dia anterior mobilizou mais servidores para a causa e também impactou na mudança da postura de contenção da polícia. “Passei o dia inteiro aqui e não houve nenhum tipo de violência. Mas precisamos lembrar que hoje não há votação, apenas uma audiência pública em que o tema está sendo discutido. Nosso receio é a reação que acontecerá no dia da votação”.

Apesar da manifestação pacífica e ausência policial do lado de fora da Câmara nesta quinta, a Tropa de Choque estava à postos dentro do local. Crédito: Laís Semis

Para a audiência desta quinta, a Câmara organizou uma distribuição de senhas pela manhã para controlar os acessos à audiência. No entanto, de acordo com relato de um funcionário da prefeitura, que também preferiu não se identificar, essa distribuição não teria sido tão democrática - já que funcionários teriam sido chamados para uma reunião e, chegando na Câmara, foram encaminhados para retirar senhas e ocupar lugares na audiência.

A greve

A paralisação atinge boa parte das escolas municipais de São Paulo desde o dia 8 de março. A Secretaria Municipal de Educação, em nota, “lamenta os transtornos causados pela paralisação de servidores”. Dados oficiais apontam que, na quinta-feira (15), 3% das escolas municipais funcionaram normalmente, 26% parcialmente e 71% estavam totalmente paralisadas. A secretaria afirmou ainda que todas as aulas perdidas serão repostas. “A pasta reforça que os pais devem verificar com a direção de cada unidade sobre seu funcionamento nos próximos dias e que a indicação é que as escolas recebam os alunos”.

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