Recriar dá mais sentido à arte

Nas aulas de Artes, ao usar como referência obras de artistas famosos, o ideal é estimular seus alunos a recriá-las. Além de imprimir uma marca pessoal ao trabalho, eles vão entender melhor o sentido da arte

POR:
Bia Reis
Mulher no Espelho, de Picasso (acima): a tela inspiradora e a releitura feita por alunos de 4ª série da Escola Verde Que Te Quero Verde, em São Vicente (SP). Foto: Valéria Pimentel
Mulher no Espelho, de Picasso (acima): a tela inspiradora e a
releitura feita por alunos de 4ª série da Escola Verde Que Te
Quero Verde, em São Vicente (SP). Foto: Valéria Pimentel

Buscar inspiração em pinturas e esculturas famosas para criar uma obra é comum entre os artistas plásticos. A prática também tornou-se corriqueira nas aulas de Artes como forma de aprofundar o estudo de determinado autor. A princípio, pode parecer que fazer um trabalho parecido com a peça original seja uma releitura. Engano: para realizá-la de verdade, o aluno deve personalizar sua produção e ter a intenção de transmitir uma nova mensagem com ela.

Os artistas usam essa técnica desde a antiguidade: depois da conquista das cidades-estado gregas pelo Império Romano, pintores e escultores de ambos os povos incorporaram elementos às suas obras. "Nas artes plásticas ou na música, reler é vivenciar um certo trabalho e produzir outro com base nele, com um novo propósito", afirma Laima Leyton, coordenadora do núcleo educativo do Museu de Arte Moderna de São Paulo.

A educadora Marisa Szpigel, que trabalha com formação de professores em São Paulo, acredita que o principal benefício dessa atividade é desmitificar o processo de criação: "Inspiração não vem do nada. Num mundo tão saturado de motivações, os estudantes aprendem que é possível produzir algo diferente usando outras obras como referência".

Aluno imprime marca pessoal em sua produção

A releitura é indicada a turmas a partir da 4ª série, quando a garotada já adquiriu maturidade nas suas produções. Quem teve aulas de Artes regularmente já fez muitos desenhos de observação, produziu bastante, aprendeu a usar diversas técnicas e a utilizar a memória visual. "Com a prática, a criança vai desenvolvendo uma marca pessoal, que será impressa nas releituras que fizer", explica Marisa.

Marca pessoal, nesse caso, nada mais é do que as preferências que o estudante coloca em seus trabalhos. Pode ser o predomínio de certas cores - ou a ausência delas -, um traço ou um elemento visual. No começo, você ajuda cada um a analisar o próprio trabalho para identificar essas características.

O ideal é que esse exercício seja uma das várias etapas de um projeto de artes, que inclua a contextualização da vida do artista e de sua obra. Essas informações ajudam a turma a compreender o que acontecia no mundo na época. Mas atenção à forma de trabalhar a biografia, que não pode se restringir a dados, como data e local de nascimento e morte, nem ter uma dimensão maior do que a produção do artista. "Ela deve ser abordada de maneira que os alunos possam acompanhar a evolução da história da arte e entender fatos e idéias que influenciaram o artista e suas criações", alerta Laima.

Releitura pode ser feita em diversas linguagens

Um equívoco comum em atividades de releitura é achar que a produção do aluno precisa ser feita na mesma linguagem da obra que a inspirou. Uma tela pode se transformar em uma escultura, por exemplo. A passagem de uma para outra técnica pode ser positiva por dar maior liberdade de criação.

Valéria Pimentel, coordenadora do ensino de Artes de 1ª à 4ª série da Escola Verde Que Te Quero Verde, em São Vicente (SP), faz questão de enfatizar para os alunos a importância de escolher linguagens diversas. No ano passado, eles realizaram um trabalho sobre as obras de Pablo Picasso (1881-1973). As turmas começaram discutindo o processo criativo do artista espanhol e as modalidades com que ele trabalhou (pintura, desenho, escultura, cerâmica e fotografia). Na hora da releitura, algumas pinturas viraram colagens, e outras, esculturas, feitas dos mais diversos materiais.

Inspirada em Monalisa, turma trabalha o sorriso

O professor Robson Xavier da Costa, chefe do Departamento de Artes Visuais da Universidade Federal da Paraíba, mostrou a alunos de 6ª série quanta arte foi feita com base na tela Monalisa, de Leonardo da Vinci (1452-1519). No ano passado, quando deu aulas no Colégio Marista Pio X, de João Pessoa, ele levou para a classe L.H.O.O.Q., de Marcel Duchamp (1887-1968), em que a obra-prima do mestre renascentista recebe bigode e cavanhaque, e outras de artistas anônimos em que a musa aparece em trajes rurais ou futuristas.

Foto: Valéria Pimentel
Releitura de Auto-retrato, de
Picasso. Foto: Valéria Pimentel

A turma ficou intrigada com o sorriso e foi pesquisar como ele aparece em obras atuais. Foi o gancho para conhecer um artista regional, Sérgio Lucena, que explora o riso sarcástico em sua produção. Os alunos fizeram as próprias "Giocondas" e tentaram explicar o sorriso dela: a modelo não teria dentes!

Atividades desse tipo, no entanto, não precisam ter como base uma tela tão famosa quanto a de Da Vinci. Qualquer pintura ou escultura pode ser relida. Você define o artista que melhor se encaixe no projeto pedagógico da escola para aquele ano. "Mas a escolha da obra deve ser da criança, pois criação envolve liberdade", afirma Rosa Iavelberg, professora da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo. Uma das releituras dos alunos de Robson sobre a Monalisa envolveu uma outra arte: o teatro. A turma se fantasiou como a musa de Da Vinci e tentou imitar seu sorriso.

A avaliação de um trabalho de releitura não deve ser feita pela comparação do produto final com o original. Valéria Pimentel, por exemplo, adota auto-avaliações bimestrais e, no início de cada período, coloca para a turma quais parâmetros serão analisados. Dessa forma, ela pode avaliar se os alunos sabem definir uma releitura de acordo com os conceitos ensinados; se conseguem identificar, apreciar e interpretar releituras; e se são capazes de justificar a obra escolhida e a mensagem que desejam passar com a atividade.

Quer saber mais?

Escola Verde que te Quero Verde, R. Pero Corrêa, 533, 11320-140, São Vicente, SP, tel. (13) 3468-9370

Robson Costa, robsonxcosta@yahoo.com.br

Bibliografia
A Imagem no Ensino da Arte
, Ana Mae Tavares Bastos Barbosa, 134 págs., Ed. Perspectiva, tel. (11) 3885-8388, 31 reais

Para Gostar de Aprender Arte, Rosa Iavelberg, 126 págs, Ed. Artmed, tel. 0800-703-3444, 34 reais 

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