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O abandono que envergonha o Brasil

É muito mais caro pagar o custo da evasão no Ensino Médio do que acabar com ela. Entenda por quê - e como você pode enfrentar o problema

POR:
Rodrigo Ratier e Lucas Magalhães

Imagine que você tem um cheque em branco nas mãos. Você deve entregá-lo a um estudante que acabou de concluir o 9º ano do Ensino Fundamental. O valor do pagamento vai depender da resposta dessa pessoa a uma pergunta: "Você vai concluir o Ensino Médio?"

Se ele ou ela disser "sim", o pagamento será de 18 mil reais. É quanto custa, em média, manter um estudante na rede pública do 1º ao 3º ano. Mas se a resposta for "não", prepare-se para um cheque recheado de zeros: 100 mil reais. É quanto a sociedade brasileira gasta ou deixa de ganhar com cada jovem que não se forma no Médio.

Nessa conta entram aspectos que variam conforme a escolaridade. Quem estuda menos tende a ter filhos mais cedo, tem maior risco de doença crônica, sofre efeitos da violência e deixa de atrair investimentos nacionais e estrangeiros por não ser mão de obra qualificada. Tudo isso impacta a arrecadação de impostos e gera despesas na saúde pública, previdência e assistência social. É o custo social da evasão, que se soma aos prejuízos individuais. Quem para no Fundamental ganha, em média ao longo da vida, 35 mil reais a menos do que quem concluiu o secundário. Daria para comprar um carro popular zero quilômetro.

O Brasil ainda distribui simbolicamente cheques de 100 mil reais como se jogasse dinheiro pela janela. Considerando que a cada ano 1 milhão de jovens deixam de concluir o Ensino Médio, o país perde 100 bilhões de reais a cada 12 meses. É o equivalente ao orçamento do Ministério da Educação (MEC). Se a opção fosse incluir todo mundo - ou seja, zerar a evasão -, o investimento seria de 18 bilhões por ano. A conta exclui o custo de convencer os evadidos a voltar. Ainda assim, o desperdício envergonha.

A estimativa é de um estudo (bit.ly/evmedio) liderado por Ricardo Paes de Barros, economista-chefe do Instituto Ayrton Senna. Figura central na estruturação do Bolsa Família, PB, como é conhecido, é referência em políticas de combate à pobreza. "Todos os estudos feitos no mundo mostram que é um absurdo um jovem não estar frequentando a escola. É muito mais caro lidar com as dores de cabeça geradas pela evasão do que simplesmente acabar com ela", afirma.

Jovens abandonam os estudos por muitos motivos. "Costumamos dizer que é uma questão multidimensional e territorializada. Ou seja, em cada região, às vezes mesmo dentro de um único município, variam os motivos da evasão", explica Ítalo Dutra, chefe de Educação do Unicef no Brasil. Alguns fatores estão fora do alcance do educador. São questões pessoais como a de Aurora (nome fictício), que entrou em depressão e não quis mais estudar (leia o depoimento mais abaixo). Ou problemas sociais, como gravidez na adolescência ou a necessidade de trabalhar. Renato, exausto, não conseguia acompanhar o conteúdo depois da jornada dura como frentista (leia mais abaixo). Em outros casos, é a escola que exclui. Aconteceu com Sinval, que largou tudo a poucos meses da formatura (leia mais abaixo). "Não via sentido em ficar sentado vendo o professor escrever no quadro e ninguém copiar. Fui desanimando. Até que saí", resume.

A MULTIDÃO DE FORA

Um em cada três estudantes pode abandonar as aulas

10,3 milhões

total de jovens entre 15 e 17 anos no Brasil

3,4 milhões

podem não concluir o Ensino Médio

1,5 milhão

Não se matricula

1,2 milhão

Reprovado

700 mil

Abandonam

FONTE ESTUDO POLÍTICAS PÚBLICAS PARA REDUÇÃO DO ABANDONO E EVASÃO ESCOLAR DE JOVENS

A escola exclui quando o ensino não faz sentido para o aluno

"Os professores não viam a hora de ir embora"
SINVAL, 20 anos, ex-aluno da rede estadual em Tramandaí (RS)

Eu e a escola somos responsáveis pelo meu abandono. Eu, por falta de interesse. A escola, por não incentivar. Fui um bom aluno até a 8ª série. Desanimei quando mudei para uma escola em que os professores não viam a hora de ir embora. Passavam matéria no quadro, ninguém copiava e pronto. Como não tinha cobrança, acabei entrando na onda. Não fazia mais nada. Saí na metade do 3º ano. Minha mãe achou ruim, mas ninguém da escola veio me procurar. Fiquei um ano e meio desempregado, só em casa ou em festas. Não me sentia bem, usava o dinheiro do meu pai só para comer e dormir. Hoje estou numa indústria de temperos. Ganho 1.800 reais e meu turno vai das 23h25 às 7h15. Chego do emprego, durmo, acordo 14h30 e espero a hora de trabalhar.

 

O PREÇO DA EVASÃO

Valores anuais

100 bilhões*

custo com a evasão

18 bilhões*

custo para acabar com a evasão

Gastos ao longo da vida com cada um que não se forma (em R$)

18 mil

Custos com violência

28 mil

Custo com saúde

48 mil

Perda de investimento no trabalho

*VALORES ANUAIS. NÃO INCLUI CUSTO PARA TRAZER ALUNOS DE VOLTA À ESCOLA.
FONTE ESTUDO POLÍTICAS PÚBLICAS PARA REDUÇÃO DO ABANDONO E EVASÃO ESCOLAR DE JOVENS

 

Uma escola excludente como a de Sinval tem dois traços bem conhecidos. O primeiro é o ensino pouco atraente. A maioria dos especialistas concorda que, no Médio, a metodologia é antiquada e o currículo é distante da realidade dos adolescentes. "O ensino atual não tem significado para a vida prática no século 21", afirma Paes de Barros. O segundo aspecto é a elevada reprovação. Diz a Unesco que o Brasil tem um dos 15 maiores índices de repetência do mundo. Em 2015, 11% ficaram retidos no Ensino Médio, número comparável apenas aos de nações africanas muito pobres (nos países de alta renda, não passa de 2%). "Já há farta bibliografia indicando que o efeito pedagógico da reprovação é perto de zero", argumenta Ricardo Henriques, superintendente executivo do Instituto Unibanco e especialista em Educação e trabalho na juventude. "Além disso, ao repetir de ano, o aluno pode se desestimular e abandonar os estudos."

Como você deve ter percebido, o problema é gigantesco. As soluções precisam ser do mesmo tamanho, no nível das políticas públicas. Considere, por exemplo, a complicação que é trazer de volta para a aula os estudantes que desistiram de procurar vaga. Como a escola não tem informações recentes sobre o destino dos alunos que evadiram, fica difícil saber quantos são, quem são e onde procurá-los. Qual pista seguir?

Respostas promissoras vêm dos chamados programas de busca ativa escolar. São ações coordenadas em que diversas equipes da administração de um município (saúde da família, assistentes sociais e agentes comunitários, por exemplo) alimentam uma base de dados sobre crianças e jovens fora da escola. De posse das informações, a secretaria de Educação providencia a matrícula.

Todos de volta. Todos mesmo

Com uma metodologia parecida, o Rio de Janeiro fez busca ativa por crianças de 6 a 14 anos entre 2013 e 2016. Os resultados foram impressionantes. Voltaram à escola 92% dos 24 mil alunos evadidos. Em nível nacional, o desafio ainda é a baixa adesão dos municípios. Hoje, a ação mais ampla é do Unicef (buscativaescolar.org.br). Por enquanto, conta com a adesão de 469 municípios, apenas 8% do total de cidades do país.

Trazer os alunos de volta à escola é só o recomeço da história. "Se a escola não mudar, estaremos enxugando gelo. A probabilidade de frustração e de novo abandono é enorme", afirma Ricardo Henriques. O MEC respondeu com uma proposta de reforma do Ensino Médio ancorada em três pilares. O primeiro é a flexibilização da grade curricular, permitindo que o estudante escolha a área em que quer se aprofundar. O segundo é a adoção da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que norteará o que deve ser ensinado no núcleo comum de disciplinas. O terceiro é a ampliação das escolas de tempo integral, hoje resposáveis por apenas 5% das matrículas. A meta é chegar a 25% até 2024, conforme previsto no Plano Nacional de Educação (PNE).

Transtornos psicológicos também podem afastar das aulas

"Entrei em depressão e não conseguia estudar"
AURORA, 18 anos, ex-aluna da rede particular em São Paulo (SP)

As dificuldades começaram quando meu pai ficou doente e morreu. Entrei numa depressão pesada e não conseguia ir para a escola. Busquei tratamento e voltei seis meses depois numa sala diferente. Senti um discurso de ódio dos alunos e até um professor falou besteira para mim porque sou feminista. A depressão reapareceu. No dia em que fui cancelar a matrícula, o diretor chorou. Era uma escola de classe média que me apoiou nas minhas crises. Minha mãe, que tem Ensino Superior, entendeu o momento. Em novembro, fiz o Encceja [Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos, que dá diploma do Ensino Médio]. Quero cursar faculdade de artes visuais. Estou em dúvida se presto uma particular ou se pago cursinho para tentar uma pública.

 

A maioria dos especialistas defende que as medidas caminham no sentido correto para dinamizar o Médio, tornando-o menos sujeito ao abandono. Mas há obstáculos como a escalabilidade, que é a necessidade de levar as mudanças a todas as escolas. É um desafio para ações caras como o tempo integral. Com a queda na arrecadação e a emenda constitucional do teto de gastos, há o temor real de não haver recursos para a expansão. E, aí, melhorar apenas um grupo de escolas pode gerar o efeito das "ilhas de excelência", um punhado de boas instituições cercado por um mar de escolas precárias. Isso faz crescer a desigualdade.

Solução que piora o problema

Segundo a Rede Escola Pública e Universidade, foi o que aconteceu na reorganização estadual paulista. Enquanto as escolas do Programa Ensino Integral (PEI) avançaram nas avaliações externas, as do entorno pioraram seus resultados. "Alunos de nível socioeconômico mais baixo estão sendo excluídos das escolas PEI pela pressão acadêmica e pela dificuldade de conciliar trabalho e estudo. Isso pode agravar a evasão", afirma Fernando Cássio, professor de políticas de Educação da Universidade Federal do ABC (UFABC) e um dos coordenadores do estudo (bit.ly/redepei).

Outro entrave é que as mudanças concebidas em Brasília precisam do chão da escola para se tornar realidade. O cenário atual preocupa. A edição da reforma por medida provisória e o pouco diálogo com os alunos na construção da BNCC - justamente os maiores interessados nas mudanças - aprofundaram a oposição das entidades docentes e estudantis à atual gestão do MEC. "Sem apoio da comunidade escolar, nada acontece", observa Fernando Cássio.

Paradoxalmente, esse poder que está nas mãos de gestores e professores é também uma boa notícia. Há muita coisa que pode ser feita independentemente do que os políticos decidem. É o caso das ações de identificação do risco de evasão. "Um aluno não larga a escola de uma hora para outra. Ele perde o interesse, cai de desempenho, começa a faltar. E aí abandona", diz Paes de Barros.

Agir rápido sobre esses sinais é fundamental. Alunos com notas vermelhas precisam de apoio logo no primeiro bimestre. Os que chegam do Fundamental fora da idade ideal, também: vale pedir às famílias o histórico das etapas anteriores, para entender quais são as disciplinas que vão exigir maior atenção. Se a questão é o clima escolar, a saída é aprimorar a gestão democrática. "Em resumo, a escola precisa ter um repertório de práticas que olhem para os jovens em vulnerabilidade", afirma Ricardo Henriques.

É verdade que só isso não vai acabar com a evasão. "A solução do problema já é conhecida", diz Fernando Cássio, da UFABC. "Passa pelo cumprimento do PNE, pela valorização dos professores e pela implantação do custo-aluno qualidade, que define objetivamente o essencial para cada escola. Nada disso tem sido prioridade. "Ainda assim, a ação de professores e gestores é bem-vinda. "Ajuda muito ter uma comunidade de pessoas tentando resolver localmente esse tipo de problema", opina Paes de Barros. Pouco a pouco, escola por escola, a evasão e o desperdício de recursos - e de vidas - pode ser combatido.

 

Trabalho e gravidez na adolescência são algumas das causas sociais do abandono

"Larguei duas vezes por causa do trabalho"
RENATO, 26 anos, ex-aluno da rede pública em São Paulo (SP)

Sou filho de mãe faxineira e pai pedreiro. Eu e meus quatro irmãos sempre precisamos trabalhar para ajudar nas despesas da casa. No 1º ano do Ensino Médio, arranjei um emprego como frentista e não consegui conciliar trabalho e estudo. Abandonei pela primeira vez, voltei cerca de um ano depois e entrei no pet shop em que estou até hoje. Ganho 1.430 reais por mês e em algumas semanas trabalho de segunda a segunda. Fiquei sem estudar até que minha namorada me incentivou. Prestei o Encceja neste ano. Estou esperando o resultado. Se me arrependo de largar a escola? Oxi! Até hoje minha mãe briga comigo. Diz que foi a pior coisa que fiz na vida. Meus quatro irmãos terminaram o Médio. Dois querem fazer faculdade.

 

Imagens: RICARDO TOSCANI