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Por: Rodrigo Ratier, Patrick Cassimiro e Beatriz Vichessi

Neste verão, vamos derreter?

O calor que vem chegando é boa chance de falar sobre previsão do tempo e esclarecer a influência do aquecimento global

E le chega e vai embora com data certa. E deixa marcas. De 21 de dezembro a 18 de março, o verão dá as caras. A temperatura sobe, a umidade aumenta e, no meio do suor, pensamos: "Desta vez o calor passou dos limites! Tem algo errado com esse clima!". Será mesmo?

Aí está uma ótima chance de explicar para a turma conceitos básicos de climatologia. Considerar as alterações climáticas provocadas pelo homem e analisar consequências, vantagens e desvantagens são pontos destacados pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC), para os anos finais do Ensino Fundamental.

Usando o verão como gancho, você pode começar falando que o aquecimento global não tem necessariamente a ver com o calorão do começo do ano. Como vamos ver mais adiante neste texto e também no esquema da página à direita, o aumento da temperatura do planeta tem mais efeitos sobre o clima - que se refere às condições de territórios vastos, analisados num período longo - do que sobre o tempo - que se manifesta num lugar preciso e num período de tempo relativamente curto. Mas, antes, vamos falar da sensação de que estamos derretendo no verão.

Quem mora em grandes cidades, como São Paulo, tem razão em dizer que sente mais calor atualmente do que no passado. Mas não por causa do aquecimento global. Nas áreas urbanas, há cada vez menos vegetação e mais edificações, ocasionando o fenômeno das ilhas de calor - a elevação da temperatura média em áreas de grande concentração de asfalto e concreto. Mesmo assim, a percepção pode ser enganosa. "Sensações não são instrumentos precisos para descrever os ritmos climáticos", diz Sueli Furlan, geógrafa da Universidade de São Paulo (USP).

A verdade é que, para dizer se um verão será mesmo infernal, é preciso coletar uma série de informações: pressão atmosférica, temperatura, umidade, vento, precipitação e radiação solar. Com esses elementos, cientistas são capazes de explicar o clima. Também podem fazer previsões, que nem sempre se revelam corretas porque lidam com a dinâmica atmosférica. "Tempo e clima são influenciados por muitos fatores que não são estanques, como o comportamento dos ventos, correntes marítimas e deslocamento das nuvens, por exemplo", diz Marcelo Stipp, geógrafo da Universidade Técnica Federal do Paraná (UTFPR).

FONTE: BOLETIM DO GRUPO DE TRABALHO EM PREVISÃO CLIMÁTICA SAZONAL DO MINISTÉRIO DA CIÊNCIA E TECNOLOGIA (BIT.LY/2ZTERN3). PERÍODO NOV 2017 A JAN 2018.

MISTÉRIOS DA METEOROLOGIA

Duas perguntas que os cientistas ainda não sabem responder

O que causa El Ñino e La Ñina?
Não se sabe o que gera o aquecimento (El Ñino) e o esfriamento (La Ñina) das águas do Pacífico. Os cientistas dizem que o fenômeno é natural e trabalham com a hipótese de uma interação entre correntes marítimas e a atmosfera. Prever os fenômenos ainda é um desafio. Às vezes, o El Niño se repete de modo inesperado, em anos sequenciais. A preocupação sobre o assunto é relativamente nova. Estudos mais frequentes começaram em 1987, depois que um El Niño severo causou prejuízo de bilhões de dólares à economia americana.

Os tornados estão ocorrendo com mais frequência no Brasil?
Não se sabe se é isso ou se apenas aumentou a capacidade de registro (filmagens, fotos). É esse fator que causou a elevação nas notificações, que são mais frequentes hoje do que há 15 anos. Esse evento considerado severo - nuvem em forma de funil que toca o solo e causa grande destruição em menos de 1 minuto, matando pessoas e animais - não pode ser detectado por satélites nem medido por instrumentos meteorológicos. Radares conseguem, mas existem poucos aparelhos com a tecnologia adequada no Brasil.

 

Mas há alguns dados mais estáveis. "Uma informação importante que ajuda prever como será o verão, por exemplo, é a temperatura das águas do Oceano Pacífico", explica a pesquisadora Amanda Rehbein, do Grupo de Estudos Climáticos do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP. Isso porque a medida indica se ocorrerá El Niño ou La Niña. Essas duas ocorrências ainda misteriosas (veja quadro acima) se referem a fenômenos climáticos naturais que interferem no regime de chuvas e na temperatura. Quando as águas do Oceano Pacífico na região próxima ao Equador ficam 0,5ºC mais quentes que o normal, temos El Niño; quando ficam 0,5ºC mais frias, La Niña.

No caso brasileiro, os efeitos se fazem sentir sobretudo no Sul do país. Nessa região, em anos de El Niño, chove muito mais que o normal. Nos anos de La Niña, a precipitação fica muito abaixo da média (em 2011 e 2012, foi a menor em 60 anos), com baixa umidade relativa do ar e temperaturas muito elevadas. E no ano que vem? Em novembro, as medições da Agência Americana de Meteorologia e Oceanografia (NOAA) apontavam água um pouco mais fria do que o normal no Pacífico. A previsão, portanto, é de La Niña moderado, o que no Brasil pode gerar chuva e temperaturas como os acima.

Mas, então, qual o papel do aquecimento global? Nesse assunto, a fonte mais reconhecida é o IPCC, sigla em inglês para Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (www.ipcc.ch). Trata-se de uma organização da ONU criada para sintetizar e divulgar trabalhos de milhares de cientistas sobre as mudanças climáticas.

A entidade já produziu cinco grandes relatórios desde 1990. O mais recente, de 2014, indicou que a influência humana sobre o clima é clara. O aquecimento global é uma realidade e pode ser observado em diferentes dimensões: temperaturas da atmosfera e dos oceanos e redução das camadas de gelo polar, por exemplo. As últimas três décadas foram as mais quentes desde 1850 (perceba que estamos falando de temperatura média, e não necessariamente picos de calor no verão). O relatório aponta, ainda, tendência de aumento de eventos extremos, como furacões e secas. O risco, portanto, não é derreter neste verão. Se a alta de temperatura média não for contida, o clima vai cobrar o preço de diferentes formas.

CONSULTORIA: AMANDA REHBEIN, DO GRUPO DE ESTUDOS CLIMÁTICOS DO INSTITUTO DE ASTRONOMIA, GEOFÍSICA E CIÊNCIAS ATMOSFÉRICAS (IAG) DA USP

Ilustração: BRUNO NUNES