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Ver a cidade com olhos de criança

O projeto transformou o percurso entre a casa e a escola e mudou a relação das famílias com o bairro

POR:
Patrick Cassimiro, Daniela Hirsch e Maggi Krause
LÁ NAQUELA ÁRVORE
Durante um passeio no feriado, Diego chama a atenção da tia Luciana Pereira dos Santos: "Está vendo ali em cima? Sempre que vou a pé para a escola vejo um monte de maritacas", diz ele, que adora encontrar os amigos no caminho.

Desenhar o percurso da casa até a escola. Essa é uma tarefa das mais comuns nas salas de Educação Infantil, mas o olhar atento da professora Jerusa Pereira de Jesus a transformou no pontapé inicial do projeto Lá Onde Eu Moro, selecionado entre os 50 finalistas do Prêmio Educador Nota 10 de 2017. Sua turminha de 4 e 5 anos da EMEI Décio Trujillo, em Barueri, região metropolitana de São Paulo, traçava coloridas casas, a escola, ruas, ônibus... Diante das produções, Jerusa passou a perguntar o que os pequenos viam pelo caminho. "Percebi em seus relatos que não existiam pessoas, animais, árvores, comércio local ou praças. Eles sabiam pouco sobre esse trajeto diário, que é uma oportunidade rica para encontrar amigos, brincar, estar em contato com a natureza", explica ela. Em uma oficina, a profesora notou que os pequenos construíram estradas, avenidas e pontes com pedaços de madeira, completando a instalação com carrinhos. ?A atividade e os diálogos entre eles remetiam a uma cidade dinâmica, em constante movimento. Senti que precisava trazer para as rodas de conversa o trajeto de casa para a escola e estimulá-los a descrever detalhes humanizados", conta.

Envolvimento das famílias

Esse exercício de aguçar o olhar sobre o entorno funcionava como uma lição de casa. Por isso, exigia o envolvimento das famílias e dos responsáveis por conduzir as crianças à escola. Moradores de bairros distintos e cada um com seus interesses pessoais, as crianças deveriam explorar o espaço urbano à sua maneira. A conversa pelo caminho seria fundamental para memorizarem e introduzirem os novos elementos em mapas elaborados por eles em sala. "Para engajar as famílias, criei um grupo no WhatsApp e mandava mensagens lembrando-os de circular, sempre que possível, com os filhos pelas redondezas." Em uma reunião de pais, Jerusa exibiu o vídeo do YouTube Caminhando com Tim Tim (bit.ly/video-TimTim), que mostra um menino de 1 ano e 4 meses saindo de casa com a mãe, em Porto Alegre. Nele, a professora encontrou a essência do que gostaria de transmitir aos adultos. "Fico muito feliz em saber que inspiramos pais e mães. Tim tim, desde cedo, me mostrou a importância de caminhar, sem pressa, apreciando o que nos cerca. O que a gente não conseguia notar na correria dos dias, ele me puxava para ver, para respirar, para sentir", descreve Genifer Gerhardt, mãe do pequeno.

PRESENTE E PASSADO
Cícera Aparecida Salles Martins, a Dona Cida, mora há quase 30 anos na região e leva a neta à escola todos os dias. "Adorei contar para a turma as diferenças entre aquela época e hoje. Via de tudo, pois andava por uma hora, com outras crianças e mães. Hoje eu e a Maria Clara chegamos em dez minutos, mas ainda descobrimos muito pelo caminho."

4 VANTAGENS DE OLHAR AO REDOR

IRENE QUINTÁNS, arquiteta urbanista

Uma das defensoras da mobilidade ativa, com atenção especial às crianças, ela é conhecedora de projetos mundo afora e envolvida em propostas com bons resultados na Colômbia e no Brasil. Defende evitar a pressa urbana e abrir espaço para mudar o comportamento.

OLHAR PARA A DIFERENÇA

"Ao caminhar pela rua, a criança conversa com conhecidos, desconhecidos, descobre elementos urbanos - como comércio, escolas e monumentos - e naturais - como árvores e animais. Isso ajuda no aprendizado, evita o sedentarismo e trabalha temas sutis como consciência social e convívio com as diferenças."

PERTENCIMENTO

"Quando a criança produz um mapa com elementos observados por ela, nasce a sensação de pertencimento. Ela tende a ter um comportamento cívico maior que as demais. Se colhe flores no caminho, dificilmente será um adulto que joga lixo na calçada."

CIDADE CUIDADORA

"O termo foi criado pela geógrafa espanhola Martha Román, referência em mobilidade e infância. Ele indica que a cidade deve acolher e cuidar de seus habitantes. No Carona a Pé, em São Paulo, no Pedibus, em Bogotá, e em outros projetos em periferias europeias e latinas, o trajeto de casa para a escola é feito a pé, com ajuda de monitores."

MAPAS MENTAIS

"Cientistas que descobriram como funciona o 'GPS mental' receberam o Nobel de Medicina em 2014. Viram que o cérebro registra referências e monta um mapa mental que nos orienta espacialmente. Para construí-lo, você precisa vivenciar essas referências."

Foto: ARQUIVO PESSOAL

 

Diferenças de percepção

Em Barueri, o universo das crianças se ampliou. As famílias aumentaram as idas à feira, a praças e à estação de trem. Para aproximar mais as crianças do meio, Jerusa estimulou o contato com parentes e amigos que vivem perto da escola. Gente como a Dona Cida (veja acima), que contou à turma sobre como era o bairro antigamente.

"A professora abordou um tema contemporâneo e necessário. É vital a criança conhecer o espaço em que está inserida, os agentes e sujeitos que o compõem. Só assim pode se apropriar dele e entender sua dinâmica", explica Dayse Gonçalves, mestre em Educação e selecionadora de pré-escola do Prêmio Educador Nota 10. Para colaborar com o projeto, a direção da escola elaborou um grande mapa das imediações e dos bairros próximos, com a localização de cada família. Nele, os pequenos verificaram que muitos eram vizinhos uns dos outros. "O engraçado é que algumas crianças faziam o mesmo trajeto, mas tinham percepções distintas do espaço percorrido", diz Jerusa. O que viam foi registrado em colagens e desenhos e em mapas produzidos em duplas ou em pequenos grupos (veja foto abaixo).

Nas férias de julho, a educadora propôs às famílias que passeassem com as crianças e registrassem descobertas e curiosidades em um Caderno de Viagem, que foi compartilhado na volta às aulas. "O projeto trabalhou muito bem o pensamento espacial e teve a destreza de unir representação, feita por mapas mentais e falados, e a dimensão da percepção", comenta a geógrafa da USP Sueli Furlan, também selecionadora do Prêmio Educador Nota 10. Ela diz que a temática não precisa ficar restrita à etapa da Educação Infantil, por ser comum a crianças de qualquer idade e local. Basta ter cuidado e criar condições para que elas possam caminhar por aí, com liberdade para vivenciar as próprias descobertas.

INTERESSE POR MAPAS
Com a professora Jerusa, Júlio César revê uma das produções que fez com os colegas, na pracinha em frente a sua casa. Logo no início do projeto, deu para perceber que o menino adorava mapas. Apesar de ir para a aula de ônibus escolar, ele registrava todos os detalhes do trajeto. Chegou a criar um jogo de tabuleiro com o percurso até a escola.

Imagens: ALFREDO BRANT