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Hora de discutir a relação

Dá, sim, para superar as dificuldades na parceria entre escolas e famílias e diminuir a tensão entre as duas

POR:
Wellington Soares, Patrick Cassimiro e Laís Semis

Nos "bons tempos", os alunos eram comportados, respeitavam os professores. As famílias apoiavam a escola, compareciam e tinham maior interesse pela vida acadêmica dos filhos. Hoje, elas são desestruturadas, os pais não se interessam pela Educação, e as instituições escolares devem, além dos conteúdos, também ensinar comportamento. Percepções como essa são comuns: dá para ouvi-las em qualquer escola. O problema parece difícil e tira o sono de educadores e pais.

A origem do conflito está no fato de que os alunos e as famílias mudaram nas últimas décadas. "A partir de 1970, o perfil dos estudantes se alterou porque a escola pública passou a atender grupos sociais que não tinham acesso a ela", diz Antônio Gomes Batista, coordenador do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec). Isso significa que o apego aos velhos tempos precisa ser deixado de lado e as escolas devem investir em conhecer a comunidade para conseguir se aproximar dela.

Nas próximas linhas, você conhecerá casos de instituições que conseguiram contornar as dificuldades no trato com os pais e reconstruíram uma relação que parecia fragilizada. Em todas as histórias, o ponto de partida foi repensar as concepções que a equipe tinha sobre a comunidade escolar. "Existe uma ideia de que as famílias, especialmente as inseridas em contextos socioeconômicos mais baixos, não se interessariam nem se importariam com a escolarização dos filhos", aponta Antônio. Essa opinião, segundo os especialistas, é falsa. A pesquisa Escola, Família e Território Vulnerável, realizada pelo Cenpec, mostrou que - ao contrário do que muitos acreditam - as famílias valorizam, sim, a Educação e querem fazer o possível para ajudar as crianças e os jovens a serem bem-sucedidos nos estudos.

Mas os esforços dessas classes, muitas vezes, são invisíveis aos olhos da escola: a falta de conhecimento sobre como participar ativamente, dificuldades financeiras ou familiares e até a insegurança sobre como lidar com as crianças podem ser obstáculos para a aproximação dos responsáveis.

Outra concepção frequente é a das tais famílias desestruturadas - que na verdade são apenas uma estrutura diferente do imaginário-padrão pai-mãe-filho. "Não é surpresa para ninguém que existam novos tipos de união. Isso não é de hoje. A sociedade está mudando rapidamente", constata Tania Zagury, professora adjunta da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e autora do livro Escola sem Conflito - Parceria com os Pais. "As transformações das famílias ocorrem em todos os grupos sociais e não há como evitar ou reverter. É um fenômeno do mundo contemporâneo", considera Antônio. Embora possa existir impacto emocional quando há perdas afetivas para uma criança - como é o caso de uma separação ou a morte de um dos familiares -, não é isso que define a trajetória escolar ou a relação da criança e dos responsáveis com a escola.

Dispostos a romper com os preconceitos sobre as famílias, é fundamental ouvi-las: enquetes feitas por bilhete, ligações telefônicas e atendimentos personalizados são fundamentais para criar entendimentos e combinados que possam ser cumpridos pelas duas partes. No fim das contas, professores, gestores, funcionários, pais e outros familiares trabalham por um objetivo em comum: o aprendizado das crianças.

A professora Michelle Santos e o pai Marcelo Betti: parceria que deu certo

As famílias que nunca apareciam

Na EM Professor José Antônio Flygare Telles, em Castro (PR), metade dos pais não comparecia às reuniões. "Era um número que precisávamos reverter", diz o diretor Jonathan Barros. A gestão ligou para cada família e descobriu os principais motivos de ausência: restrições de horários, dificuldades de transporte, falta de quem cuidasse das crianças quando os pais estivessem na escola e esquecimento do compromisso.

Com base nessas informações, a instituição tomou diversas medidas para aumentar a participação. A primeira foi transferir os encontros para o período noturno e realizar enquetes por bilhete para selecionar os melhores dias e horários. O diretor também passou a enviar ofícios aos locais de trabalho de alguns familiares. "Sabendo do compromisso, os patrões o consideravam na hora de montar as escalas", conta Jonathan. Outras ações incluíram a parceria com a empresa de transporte que realiza as formaturas da escola para garantir carona aos pais, a disponibilização de um espaço no colégio escola para que deixassem os filhos durante os encontros e o envio de diversos lembretes sobre a data marcada. "Se os queremos próximos, temos que criar disponibilidade para atendê-los. Também precisamos consultá-los e não apenas dar ordens", diz o diretor.

Outra questão que precisou ser atacada foi a falta de motivação dos pais para comparecer. "Geralmente, você só vai na escola se for uma mãe que está realmente preocupada, porque é comum ouvir que seu filho só tem defeitos", desabafa Josemara Dias Pedroso, mãe da aluna Izabel Dias Mittelstedt, 7 anos. Afinal, ninguém quer escutar apenas notícias ruins.

Para mudar a situação, a escola decidiu orientar que os professores se atentassem à comunicação com a família. "O tempo para reclamar é antes da reunião. No dia, mostramos o que o estudante produziu", afirma o diretor.

Para Josemara, ser informada do desempenho enquanto o bimestre ainda está acontecendo faz toda a diferença no acompanhamento escolar. "A gente sabe que os filhos aprontam. No encontro, pode até vir alguma indicação de problema, mas apenas questões pontuais e de fácil solução. Os professores estão sempre indicando caminhos", conta a mãe. O esforço da escola fica visível à comunidade escolar. "Como eles dão o melhor deles para nós, temos que dar o nosso melhor também para eles. O resultado é que os pais interagem mais e querem estar aqui", destaca.

Vale também refletir se as reuniões ou momentos voltados para a comunidade familiar não estão muito longos ou burocráticos demais. "É preciso tornar aquele encontro importante e interessante. Se existe uma parte pedagógica a ser apresentada, não pode ser em 'pedagogês'. Tem que ser simples e objetiva e explicitar qual é o papel deles nisso", indica a especialista Tania.

Os resultados impressionam. "Hoje temos salas em que a participação é de 100%", diz Dinacir Bonfim do Nascimento, professora e mãe de Eloiza do Nascimento Oliveira, 9 anos, que estuda na escola. Para ela, são nesses acompanhamentos que os familiares entendem o que está acontecendo com as crianças. "Sabendo que o tempo está sendo bem aproveitado e que os filhos estão recebendo atendimento adequado, nos sentimos mais motivados a colaborar. É uma troca", avalia.

Da esq. para a dir., a professora Dinacir, o diretor Jonathan e Josemara, mãe de aluna

Os pais erravam com as tarefas

Há tarefas que deixam muito claro: pelas respostas elaboradas e pela letra redondinha, elas não foram feitas pelas crianças. E há ainda as lições que nunca são feitas.

Quando o assunto era o acompanhamento dos estudos, a EMEB Prof.ª Ana Isabel da Costa Ferreira, em Mogi Mirim (SP), esbarrava no fato de que parte dos pais não havia concluído a Educação. A instituição aderiu ao projeto Comunidades de Aprendizagem, do Instituto Natura (saiba mais em comunidadedeaprendizagem.com), e encontrou uma proposta que poderia ajudar: os grupos interativos. Toda semana, alguns familiares acompanham a aplicação de atividades em sala.

O 3º ano da professora Claudete Wollmann é uma das turmas que participam. Ela, como outros docentes, foi resistente ao projeto. "Não queria que acontecesse na minha sala", relembra. Um dos receios era de que os pais comentassem sobre a prática dela. "Nunca aconteceu. Nos aproximamos das famílias e as crianças tiveram uma evolução na aprendizagem", considera a professora.

Foi com esse projeto que Neuza do Carmo Ribeiro Santana notou que poderia ajudar mais seu neto Erick Pinheiro Santana, 10 anos, nas tarefas. "Ela vinha sempre às reuniões, mas não sabia como se envolver mais", diz a vice-diretora Elaine dos Santos Depieri. A participação fez com que Neuza percebesse que a presença no momento da lição de casa era o mais importante para ajudar o garoto. "Quando entendi que eu não devia ensinar, fiquei mais confortável", conta a avó.

Shirlei de Souza, mãe de Murilo, 10 anos, e Danilo de Souza, 4 anos, vê outros benefícios. "Prestei atenção a detalhes como os alfabetos e os livros à disposição das crianças. Levei essas referências para minha casa, como mais livros", conta.

Em pé, a vice diretora Elaine e a professora Claudete. Sentada à dir., Neuza, avó de Erick

Faltava a Educação familiar

"O papel da família é educar e o da escola ensinar?: você provavelmente já ouviu essa frase, talvez até já tenha dito. A divisão das responsabilidades sobre a Educação moral dos alunos é outro ponto de atrito entre responsáveis e instituições de ensino. Desde 2006, a EM Wilson Hedy Molinari, em Poços de Caldas (MG), assumiu a responsabilidade de resolver questões que, antes, seriam endereçadas diretamente aos pais. Todos os professores têm acesso a formações e a indicações de leitura sobre como a escola pode contribuir no estabelecimento de regras e na resolução de conflitos, como o livro Quando a Escola É Democrática - Um Olhar Sobre a Prática das Regras e Assembleias na Escola, das especialistas Telma Vinha e Luciene Tognetta. A saída é quase sempre pelo diálogo: ouvir o aluno e criar combinados - em vez de impor regras - tem funcionado. Assim, as famílias deixam de ser chamadas para resolver todos os problemas.

A escola também investe na formação dos pais para que atitudes parecidas sejam tomadas por eles em casa. A iniciativa é uma parceria proposta pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG). Quinzenalmente, estudantes de Psicologia se encontram com os responsáveis. "Damos orientações em linguagem didática e simples, apresentamos propostas de como educar os filhos, como lidar com o comportamento e a importância do afeto no desenvolvimento", conta Paolla Magioni Santini, professora da PUC responsável pelo projeto.

"Minha filha estava dando muito trabalho para mim, fazendo birra, não querendo ir à escola", relata Thaís Letícia Barione Faustino, mãe de Isabella Barione Faustino, 9 anos. "Agora conseguimos conversar. Nós duas falamos, cada uma na sua vez, reconhecemos os erros, pedimos desculpas e chegamos num acordo. O apoio da escola foi fundamental para estabelecer isso", diz.

O professor Flávio e a diretora Ana (à esq.) conversam com a mãe Thaís (centro)

O fim das reclamações na porta da sala

Na CEI Professor Juemil Lorenzotti, também em Poços de Caldas (MG), a coordenadora Márcia de Morais Diniz viveu períodos de muitas reclamações dos pais. Eram queixas sobre mordidas, ralados e considerações sobre como a Educação Infantil era "só brincadeira". "A equipe se sentia pouco valorizada", recorda a gestora.

O primeiro passo foi definir os espaços mais adequados para o diálogo entre a escola e as famílias. Na porta da sala, só questões mais rápidas e urgentes. "Apenas um aviso em relação ao comportamento do aluno ou a um medicamento, por exemplo, porque são assuntos importantes para estarmos atentas", diz a professora Michelle Santos de Oliveira. Quando há uma reclamação mais séria, ela orienta o responsável a conversar com a gestão. "É importante que haja uma triagem de algumas demandas paternas. O contato dos professores com a família deve ser planejado", aponta Antônio, coordenador do Cenpec.

Os três filhos de Marcelo Luís Betti, Otávio Kauã Ramos Betti, 8 anos, Marcelo Vinícius Betti, 3 anos, e Helena Antonella Betti, 11 meses, frequentaram a instituição. Hoje, ele tem mais tranquilidade em lidar com os acontecimentos entre os pequenos. "No início, questionamos coisas pequenas, como se a criança comeu, se teve apoio nas atividades que realizou, se a música que colocaram para dançar é legal, quem é o coleguinha com quem ela estava brincando...", conta ele.

É importante ouvir as preocupações e se colocar à disposição para tirar dúvidas. Nas reuniões e encontros individuais, professores e gestores explicam sobre o desenvolvimento das crianças e as propostas da instituição. Para os pais de primeira viagem, às vezes, é necessária maior contextualização do que para os que já têm a referência de outros filhos. "Eles conseguem entender melhor quais são as propostas com cada atividade que é realizada isso os tranquiliza", diz Márcia.

Marcelo, pai de aluno, trata de questões complexas com a coordenadora Márcia

Fotos: JOÃO FERREIRA/MONTAGEM OTAVIO SILVEIRA