Por que Stephen Hawking foi importante para a Ciência?

O físico britânico conseguiu difundir o interesse por buracos negros e cosmologia em livros como “Uma breve história do tempo”

POR:
Paula Peres, Soraia Yoshida
O astrofísico britânico Stephen Hawking   Foto: Getty Images

A primeira coisa que chamava atenção para o físico britânico Stephen Hawking era sua condição física: ele sofria de Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA), doença neurodegenerativa que o prendia a uma cadeira de rodas e um respirador artificial. Incapaz de falar após uma traqueostomia, ele usava um aparelho para se comunicar. O equipamento, veja só, deu-lhe um sotaque americano, muito longe do original. Mas foi essa voz e essa figura que cientistas, políticos, professores e estudantes no mundo inteiro passaram a admirar.

Hawking foi diagnosticado como portador de ELA aos 21 anos. Na época, o médico lhe deu dois anos de vida. Errou feio: Hawking morreu aos 76 anos, após dar aula na Universidade de Cambridge, escrever livros que se tornaram best-sellers, como “Uma Breve História do Tempo” (1988) e avançar no estudo dos buracos negros.

A doença, que não tem cura, fez com que Hawking perdesse o controle sobre seus músculos. Até o final da vida, ele conseguia controlar apenas o músculo da bochecha. Através de gestos faciais, ele enviava sinais a um computador que expressava seu pensamento em uma voz sintetizada. Mesmo assim, Hawking tinha um senso de humor muito sagaz, capaz de fazer piadas quando menos se esperava. “O lado ruim da minha celebridade é que eu não posso ir a lugar nenhum no mundo sem ser reconhecido. Para mim não basta colocar óculos escuros e uma peruca. A cadeira de rodas me entrega", disse em uma entrevista.

Filho de um pesquisador em biologia, Stephen estudou Física na Universidade de Oxford e fez pós-graduação em cosmologia, em Cambridge. "Einstein estava errado quando disse 'Deus não joga dados'. A consideração de buracos negros sugere que não apenas Deus joga dados, mas que ele também nos confunde às vezes jogando-os onde não podem ser vistos".

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Foi no estudo dos buracos negros, aliás, que ele deixou sua contribuição mais famosa para a ciência. “Já tínhamos uma ideia do que era, mas achávamos que era literalmente um buraco muito escuro, com uma gravidade muito grande”, conta o astrônomo e físico Fabrício Cortezi, coordenador pedagógico do Sistema de Ensino pH. Quando Hawking foi estudar, viu que não era bem assim. “Os buracos negros eram capazes de emitir radiação e não duravam para sempre: existem por um tempo, mas depois somem, como se evaporassem. Nessa evaporação, eles emitem radiação, e por isso nós conseguimos vê-los”, explica Fabrício.

A outra grande contribuição do cientista é mais teórica. Ele relaciona, em seus estudos, a teoria da relatividade de Albert Einstein com estudos sobre mecânica quântica. Enquanto a primeira tenta explicar o Universo e a relação entre tempo e espaço, a segunda diz respeito a átomos e partículas. São áreas da Física que, em tese, não teriam muita relação. “Ele faz as duas correrem paralelamente, começa a ‘quantizar’ as coisas”, conta Fabrício.

O nome de Stephen Hawking está associado ao estudo dos buracos negros   Foto: Getty Images

Stephen Hawking cabe na escola?

Para Fabrício, as pesquisas de Hawking dizem respeito a temas densos e muito teóricos da Física. “Mas ele foi um grande divulgador do tema, da ciência, conseguiu inspirar muitas pessoas, como eu e outros colegas, engajou muita gente com os livros que escrevia”, opina.

O livro “Uma breve história do tempo” foi escrito na década de 1980 com o propósito de mostrar seus estudos ao público leigo, independente da idade. “E mesmo assim, foi muito pesado para aquela época”, explica Fabrício. A segunda tentativa veio com “O Universo numa casca de noz”, já no início dos anos 2000. “Era o mesmo conteúdo, mas de uma forma ainda mais palatável, lúdica, com imagens, infográficos, para tentar divulgar aquilo que ele trabalhava da cosmologia e dos buracos negros”.

As teorias de Stephen Hawking ainda precisam se provar. “Algumas não vão conseguir ser provadas nem em nossa era, por limitações de tecnologia”, explica Fabrício. Mas isso não tira, em absoluto, a importância do cientista para o nosso atual modo de enxergar o Universo. “As pessoas olham para a teoria dele com muito mais crença, com vontade de observar e detalhar”.

Ou como Hawking disse bem ao ser questionado sobre a razão da existência do universo: “Se encontrarmos a resposta para isso, seria o triunfo máximo da razão humana - porque nós conheceríamos a mente de Deus”.

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