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Sala de aula | Matemática


Por: Sophia Winkel

O certo, o provável e o impossível

Agora, os alunos dos anos iniciais do Ensino Fundamental também devem aprender sobre probabilidade. Veja como trabalhar o conceito com as crianças

Sorteios ajudam a compreender que há eventos prováveis, mas não certos. Foto: Thomás Arthuzzi

"É um novo olhar sobre um novo mundo." É assim que Rita de Cássia Batista da Silva, especialista em probabilidade do Time de Autores dos planos de aula NOVA ESCOLA, resume uma das novidades que a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) traz em Matemática: a inclusão do estudo de probabilidade nos anos iniciais do Ensino Fundamental. Antes, o tema era tratado quase que exclusivamente no Ensino Médio, com algumas escolas introduzindo o assunto também nos anos finais do Ensino Fundamental. Agora, probabilidade deve ser trabalhada em toda a Educação Básica, inclusive no Fundamental 1.

O assunto está presente na unidade temática Probabilidade e Estatística, que propõe a abordagem de conceitos, fatos e procedimentos presentes em situações problema do cotidiano. A ideia é promover a compreensão entre as crianças de que nem todos os fenômenos são determinísticos, ou seja, que o acaso tem um papel importante em muitas situações. Para isso, o início da proposta de trabalho com probabilidade está centrado no desenvolvimento da noção de aleatoriedade, de modo que os alunos compreendam a existência de eventos certos, outros prováveis ou improváveis e também os impossíveis. Os cálculos propriamente ditos só serão estudados depois. "A probabilidade é a Matemática da incerteza e se aproxima mais da realidade. Em nosso dia a dia, lidamos mais com a estimativa do que com a precisão, com o incerto do que com o certo", justifica Rita.

A opção por trabalhar com esse eixo durante toda a Educação Básica é uma estratégia para ajudar os alunos a construírem gradativamente maneiras diferentes de pensar a Matemática. Afinal, ela não é apenas uma ciência que trabalha com a exatidão, como eles aprendem na aritmética. Assim, quando os cálculos forem apresentados e ficarem cada vez mais complexos, espera-se que seja mais fácil a compreensão. "A mudança deve permitir maior integração entre o Ensino Fundamental e o Médio, já que a formação precisa ser contínua", diz Antonio Menezes da Costa, que trabalha na Secretaria Estadual de Educação do Amazonas (Seduc) e coordena a implementação da Base nesse estado.

1 CRIAR NÚMEROS Proponha que os alunos pensem sobre quantos e quais números de dois algarismos eles podem formar utilizando apenas 3, 4 e 5. A ideia é que discutam em grupo e registrem as hipóteses levantadas. Foto: Thomás Arthuzzi

2 REGISTRO DAS POSSIBILIDADES Pergunte os números descobertos e a estratégia para chegar a eles. Em geral, eles escrevem um número e esgotam as opções e assim por diante. Anote no quadro. Foto: Thomás Arthuzzi

3 JOGO DOS NÚMEROS Hora de propor sorteios. Entregue kits de cartelas com os 9 números e um saquinho. O objetivo é questioná-los sobre o tema antes de cada lance. Apresente perguntas como: "Podemos sortear 65?", "Qual número cada grupo acha que será sorteado?" e "Quem tem mais chance de ganhar?". Conduza a conversa à conclusão de que a chance de sorteio de cada número é de 1 para 9 e que é impossível que alguns números (como o 65) sejam sorteados. Foto: Thomás Arthuzzi

A prática em sala

Como apresentar esses conceitos para as crianças? Para o 1º ano, a professora Rita propõe uma atividade simples e bem ilustrativa para trabalhar acaso e aleatoriedade: um sorteio utilizando um saco não transparente, contendo oito bolas azuis e duas bolas amarelas. A cada vez que alguém mexer no saco (pode ser o próprio professor ou uma criança), o docente faz perguntas tais como: "O que é mais provável, sortear uma bolinha azul ou amarela?", "É certeza tirar uma bolinha de dentro do saco?" e "Seria possível ou impossível sortear uma bolinha verde ou um lápis?".

Vale também aproveitar sugestões de instituições que, mesmo antes da indicação da Base, já vinham desenvolvendo o pensamento probabilístico no Fundamental 1. É o caso da Escola Móbile, em São Paulo. "Com as crianças, muitos conceitos não ganham nome, mas já existem discussões matemáticas sobre as ideias. Nessa faixa etária, eles aprendem com base em manipulação e experimentação", explica o coordenador pedagógico Antonio de Freitas da Corte.

Uma das atividades realizadas com as turmas de 2º ano é a que está ilustrada acima. "Ela ajuda os alunos a elaborar o que significa um sorteio (noções de aleatório e acaso) e iniciar a construção do pensamento probabilístico", diz Antonio.

Outra proposta desenvolvida na escola paulistana é apresentar uma situação do cotidiano: Paulo tem duas camisetas, uma de cor azul e outra de cor vermelha, e três bermudas de cores branca, verde, amarela. Ele vai fazer uma caminhada no parque. De quantas maneiras diferentes ele pode sair vestido? Se ele tivesse uma camiseta de cor preta, quantas possibilidades de combinação ele teria a mais? E se tivesse uma bermuda de cor azul, aumentaria o número de possibilidades? Para facilitar a compreensão, o professor pode desenhar figuras representando as peças de roupa e recortá-las para as crianças manipularem enquanto pensam e discutem as respostas.

Em todas as situações apresentadas aqui, o objetivo é que rendam boas discussões em sala. Pode ocorrer, por exemplo, de durante a atividade da combinação de roupas alguns alunos não considerarem todas as possibilidades por não gostarem de alguma cor de camiseta e, por isso, não utilizarem aquela peça na resolução. "Se isso acontecer, o professor pode aproveitar para explicar a diferença entre as possibilidades existentes e o gosto pessoal de cada um", afirma Elizabeth Soares, doutora em Educação e professora do Centro Universitário Santana (UniSantana). O importante é colocar as crianças para pensar no tema.