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01 de Março de 2011 Imprimir
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O percurso do desenho livre de estereótipos

Para que os alunos percebam o valor de seus trabalhos e deixem de lado figuras-padrão, é preciso mostrar que não existe uma única forma de representar um objeto

Por: Anderson Moço
Foto: Tamires Kopp
Prêmio Victor Civita - Educador Nota 10

Cena comum na maioria das turmas dos anos iniciais do Ensino Fundamental: quando convidados a desenhar, os alunos dizem que não sabem e algumas vezes até se recusam a começar a atividade. Quando desenham, acabam entregando trabalhos que apenas reproduzem modelos prontos: se traçam uma casa, por exemplo, eles todos usam a mesma forma. É difícil até descobrir qual desenho foi feito por quem.

Foi isso que provocou Paula Regina de Vargas, professora da EMEF Adolfo Schüler, em Montenegro, a 55 quilômetros de Porto Alegre, a desenvolver um projeto para acabar com o mito do "não sei desenhar". O trabalho rendeu a ela o Prêmio Victor Civita - Educador Nota 10 no ano passado. De acordo com Rosa Iavelberg, selecionadora de Arte, ela mereceu o título porque enfrentou o medo de desenhar dos estudantes e orientou o trabalho com experiências de aprendizagens significativas (leia o quadro na última página).

Para compreender por que esse problema surge e é tão comum, é válido saber um pouco sobre como se desenvolve o percurso das crianças no desenho. A princípio, quando elas começam a fazer seus primeiros traços, as produções se parecem com o que se convencionou chamar de boneco girino, uma figura humana constituída por um círculo de onde sai um traço representando o tronco, dois riscos para os braços e outros dois para as pernas. Depois, entre 5 e 8 anos, essa imagem incorpora cada vez mais detalhes, conforme os pequenos refinam seu esquema corporal e ganham um repertório de imagens ao ver desenhos de sua cultura e dos próprios colegas.

É nessa faixa etária também que elas começam a perceber o desenho como uma representação do real e se interessam em registrar no papel algo que seja reconhecido pelos outros. Ao mesmo tempo, a garotada está aprendendo a escrever e descobre que as letras querem dizer algo (e têm uma forma correta para transmitir a mensagem). É justamente aí que a turma começa a afirmar que não sabe como desenhar.

Mas, afinal, por que isso ocorre? O fato pode ser resultado de comparação dos próprios desenhos com os dos colegas e também a percepção de haver uma distância entre suas intenções ao desenhar e a capacidade de realização. "É como se eles dissessem: 'Me ensine, por favor, porque eu preciso saber como representar exatamente o que estou pensando'", diz Karen Amar, professora da Escola da Vila, em São Paulo.

Essa frustração faz as crianças tentarem criar imagens perfeitas. Daí o primeiro motivos de eles reproduzirem estereótipos, repetindo padrões, como uma forma segura de se expressar. O segundo se dá pelo fato de grande parte das imagens com que os pequenos têm contato ser ilustrativa e passar mensagens claras. Ao folhear um livro, por exemplo, eles conseguem deduzir que parte da história é contada com ilustrações. Mas com suas próprias produções não costuma funcionar bem assim! Os adultos perguntam o que o desenho mostra antes mesmo de tentar entendê-lo. É possível ainda que o aluno tenha sofrido julgamentos negativos sobre suas atividades, ficando com sua confiança abalada para desenhar. Isso ocorre quando ele não contou com referências de alguém que valide ou oriente seus trabalhos.

E, afinal, o que é o desenho? É uma das expressões mais fortes e reconhecidas da cultura humana, um vasto campo de conhecimento. Ainda assim, o que é saber desenhar? É fazer alguém em proporção? É rabiscar? É reproduzir? Na verdade, é tudo isso: essa arte tem muitos campos de linguagem. O chargista, por exemplo, não necessariamente sabe como desenhar um quadro de paisagem. Fica claro então que cada autor desenvolve mais uma linguagem. Por isso, o mais importante é fazer as crianças experimentarem - e não necessariamente uma só técnica (leia o projeto didático).

A didática da Arte consiste em apreciar, produzir e refletir

"Mais que aprender a linguagem, os alunos precisam conhecê-la e se relacionar com ela. A escola não deve ensinar o desenho para eles, mas investir para que desenvolvam o próprio percurso", diz Fernando Chuí, professor do Colégio Arquidiocesano, em São Paulo, e doutorando em Educação, com foco na importância do erro para o ensino de Arte.

Há uma série de códigos e de procedimentos com que os estudantes precisam entrar em contato para compreender a linguagem do desenho. É preciso saber, por exemplo, que é possível utilizar uma linha para distinguir uma figura do fundo. Como representar movimento, luz e sombra ou uma mão, uma boca ou ainda o ambiente interno de uma sala em perspectiva? Não basta apenas desenhar para aprender a fazer isso. As respostas para essas questões são conquistadas por meio da aprendizagem de saberes construídos por outros desenhistas e que serão recriados pelo aluno. Ou seja, por meio da apreciação. Ter contato com uma variedade de artistas e suas produções, linguagens e técnicas é importante para os pequenos.

A apreciação garante modelos variados e dá elementos para que a garotada desenvolva seu percurso criador - afinal, ninguém cria do nada: a criatividade está ligada aos conhecimentos que temos. "As crianças precisam conhecer produções variadas de adultos para poder se identificar. Às vezes, a temática dos desenhos é o que as surpreende. Em outras, é a variedade de técnicas e materiais utilizados", ressalta Chuí. Ao possibilitar à criança ter contato com a linguagem, ela ganha repertório visual e com isso encontra sentido para suas próprias produções. O importante é que ela perceba a variedade de possibilidades e que cada artista desenha de um jeito.

Outra situação fundamental para que as crianças percebam o valor dos próprios desenhos e abandonem os estereótipos é propor a observação de objetos e paisagens. As formas e cores presentes na natureza são muito variadas e isso pode ajudar a expandir o conceito de representação. Não existe, por exemplo, apenas um tipo de árvore ou de pedra. Observar essas variações (e algumas vezes tentar reproduzir os detalhes vistos) é um aprendizado e tanto.

Por fim, os estudantes também precisam produzir. Essa é a etapa seguinte à apreciação e à observação. A turma tem de ser convidada a experimentar os procedimentos utilizados pelos artistas. Não se trata de copiar. O objetivo é testar a técnica e ver se gosta, analisar que espaços e formas foram criados e depois fazer de novo. "Tentar sem a obrigatoriedade de ter um produto final perfeito", recomenda Karen.

E seu papel, professor, é validar a produção das crianças. Isso é possível encaminhando-as a apreciar artistas renomados e mostrando como alguns deles até se espelharam em produções feitas por gente pequena para criar suas obras.

Além disso, enfatize sempre o quanto a linguagem do desenho é variada e oriente o percurso da garotada, possibilitando o contato e a produção com diferentes técnicas e modelos.

Paula apresentou em sala diversos artistas - como Piet Mondrian (1872-1944) e  Tarsila do Amaral (1886-1973), que empregaram técnicas e linguagens diferentes para representar a árvore - um elemento próximo ao universo das crianças da classe e um dos mais estereotipados nos desenhos delas. Em outro momento, propôs a observação das variadas formas presentes na natureza (os tipos de folhas, flores, galhos, caules etc.) Depois, propôs que a garotada tentasse desenhar árvores variando as formas e linguagens e utilizando o que haviam conhecido em suas próprias produções.

Realizar um trabalho que inclua essas três situações (apreciar, produzir e observar) permite que cada aluno avance dentro de seus conhecimentos e de suas vontades enquanto produtor de arte. Para alguns, os modelos são fundamentais. Para outros, é a prática. Outros ainda precisam observar e reproduzir. O fato é que só assim os estudantes vão conseguir se aproximar dessa linguagem tão importante da nossa cultura e se relacionar com ela de maneira autônoma.

Ver, conhecer e recriar árvores: o projeto da Educadora Nota 10

Foto: Tamires Kopp

A professora nota 10: Paula Regina de Vargas
Professora de Arte do 1º ano da EMEF Adolfo Schüler, em Montenegro, RS


Graduada em Artes Visuais e especialista em Arte Educação, leciona há quatro anos. Atualmente, também é assessora para o ensino da Arte da coordenação pedagógica das turmas de Educação Infantil da mesma escola.

 

Foto: Tamires Kopp

1. Apreciação
Para acabar com a estereotipia, Paula mostrou ilustrações de árvores feitas por vários artistas, como Piet Mondrian (1872-1944) a Tarsila do Amaral (1886-1973), passando por pintores e escultores gaúchos.

 

Foto: Tamires Kopp

2. Produção
Os alunos se inspiraram e passaram a criar utilizando técnicas diferentes, como colagem.

 

Foto: Tamires Kopp

3. Observação
Em passeios por parques, a garotada observou que na natureza não havia árvores com apenas uma aparência. Estimulados pelas novas referências e por debates em grupo, os alunos produziram uma série de desenhos sobre o tema. 

O conteúdo do 6º ao 9º ano

Para que os jovens percebam que desenhar bem não é, necessariamente, fazer formas perfeitas, uma boa saída é propor o estudo do desenrolar do percurso criativo de alguns nomes da arte moderna, como Picasso e Mondrian. Ambos começaram com desenhos naturalistas e realistas e, com o passar do tempo, desenvolveram uma linguagem própria, que os caracterizou em definitivo. "Mondrian, hoje conhecido por trabalhar com formas geométricas, surgiu na cena artística pintando paisagens e objetos realistas", diz Maria José Spiteri, professora da Universidade Cruzeiro do Sul (Unicsul) e da Universidade São Judas Tadeu.

Quer saber mais?

CONTATOS
EMEF Adolfo Schüler, tel. (51) 3632-5495
Fernando Chuí
Karen Amar
Paula Regina de Vargas

BIBLIOGRAFIA
O Desenho Cultivado da Criança
, Rosa Iavelberg, 112 págs., Ed. Zouk, tel. (51) 3024-7554, 23 reais
Para Gostar de Aprender Arte, Rosa Iavelberg, 128 págs., Ed. Artmed, tel. 0800-703-3444, 42 reais

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