Mídias de ontem e de hoje despertam a turma

Depois de apresentar as antigas radionovelas e fotonovelas à garotada, Carlos explorou linguagens contemporâneas e mostrou a importância de analisar o mundo do entretenimento de forma crítica

POR:
Meire Cavalcante
Olhar crítico: Carlos revelou aos alunos que existem idéias e conceitos por trás do que vemos e ouvimos. Foto: Ricardo Benichio
Olhar crítico: Carlos revelou aos alunos que existem
idéias e conceitos por trás do que vemos e
ouvimos. Foto: Ricardo Benichio

Quem, hoje em dia, conseguiria acompanhar uma novela pelo rádio? E o que dizer das célebres fotonovelas, com seus personagens fazendo caras e bocas para convencer o leitor? "Vai saber se, no futuro, essas mídias não ressurgirão por um motivo qualquer. Na 6ª série, nosso trabalho é despertá-las", afirma o professor de artes Carlos Augusto Cabral Arouca, 36 anos. Estudando essas duas linguagens, ele criou o projeto Mídias Adormecidas, que dura um ano e envolve as 6ªs séries da Escola da Vila, em São Paulo. Trata-se de algo simples e divertido: analisar a fotonovela e a radionovela e reproduzi-las, utilizando outras linguagens, como a dramaturgia, histórias em quadrinhos e cinema. A receita é sucesso garantido. "Os alunos da 5ª série ficam ansiosos, pois sabem que no ano seguinte será a vez deles", diz Carlos, professor há dez anos. Com tanta popularidade, ele poderia ter se limitado a trabalhar o conteúdo de forma divertida. Mas também mostra à turma que, tanto no passado como no presente, o mundo da comunicação impõe idéias, comportamentos e padrões que devem ser olhados de modo crítico. Além de conhecer velhas e novas linguagens artísticas, os estudantes têm a oportunidade de ser consumidores mais observadores nesse mundo da propaganda e da persuasão.

Passo-a-passo e metodologia

1. A radiolovela vai ao ar
No primeiro semestre de 2004, os alunos trabalharam com o rádio. Carlos apresentou a eles um roteiro detalhado de cada etapa do projeto e mostrou as quatro funções básicas em radionovela: dirigir, atuar, escrever e sonorizar. Cada um escolheu a que gostaria de desempenhar. Todos os grupos deveriam ter pessoas exercendo as quatro atividades. Os estudantes leram textos sobre o rádio no Brasil e no mundo e sobre o apogeu de seus programas. Depois, entrevistaram pais e avós para avaliar o impacto do rádio na vida das pessoas. Para aprender as características da linguagem radiofônica, a turma ouviu trechos de novelas, como O Direito de Nascer; de humorísticos, como Balança Mas Não Cai; e de spots publicitários. Os alunos, então, leram o roteiro de uma radionovela e assistiram a um vídeo que mostra a interpretação dos atores. Por fim, cada um preparou para a aula seguinte o próprio roteiro (tarefa que envolveu o professor de Língua Portuguesa). Além de bolar a história, a turma também se encarregou de criar o nome da emissora e anúncios fictícios.

Com o roteiro pronto, os alunos cuidaram da sonoplastia: trouxeram instrumentos musicais, baixaram músicas e sons da internet e captaram ruídos com um gravador. Depois, registraram em áudio os ensaios, para se familiarizar com os aparelhos sonoros e para poder ouvir os programas e corrigir as falhas. Todo o trabalho foi desenvolvido em parceria com a professora de Artes Cênicas, Sandra Arouca. Na hora de realizar a gravação final, todos capricharam na entonação da voz e abusaram dos recursos disponíveis.

2. Luz, câmera e... foto!
No segundo semestre, o tema foi a fotonovela. Os alunos leram sobre o gênero e compararam revistas da década de 1970 com as histórias em quadrinhos atuais e da época. Assim, aprenderam os conceitos de diagramação, plano e enquadramento. Carlos então explicou o que é um storyboard (seqüência ilustrada que mostra as cenas de um filme ou de uma peça publicitária). Para que os estudantes entendessem os recursos visuais, ele pediu que transformassem o roteiro de uma história em quadrinhos em desenhos e vice-versa.

Em seguida, Carlos exibiu o filme alemão O Gabinete do Dr. Caligari, de 1919. A turma comparou a dramatização e a cenografia com a produção de pintores expressionistas. Depois, ele forneceu aos estudantes fotocópias com a figura do vampiro Nosferatu (personagem-título do filme expressionista alemão de F.W. Murnau). Eles recortaram as cópias, colaram-nas no papel e criaram para o personagem um cenário expressionista. Os grupos partiram então para a elaboração dos próprios roteiros e storyboards. Terminada essa etapa, a garotada começou a caracterização dos personagens. Eram velhinhas, gângsteres, casais de noivos e mortos-vivos pelos corredores, enquanto as câmeras digitais registravam as cenas interpretadas e posadas com todo cuidado - mais uma vez a professora de Artes Cênicas entrava em ação.

Na etapa final, os jovens imprimiram as fotos, recortaram as imagens e, depois de colar tudo no papel, criaram os cenários. Para isso, usaram materiais como tinta, giz, lápis de cor e revistas para colagem. Na sala de informática, eles digitaram e imprimiram as falas dos personagens para serem coladas nos balões. A turma gravou em CD as radionovelas e as fotonovelas e, no ano seguinte, participou da festa de lançamento dos materiais. Na ocasião, todos os alunos receberam um CD com a produção dos colegas.

TEMA DO TRABALHO

Radionovela e fotonovela

? 6ª série

Objetivos e conteúdos
Carlos mostrou que os produtos da indústria do entretenimento são passageiros em comparação com as obras de arte. A turma analisou o contexto histórico, social e político que tornou a radionovela e a fotonovela populares e conheceu conceitos relativos à comunicação. Para realizar as tarefas, os alunos aprenderam a trabalhar em grupo.

Avaliação
O professor avaliou com base nas tarefas de casa, no envolvimento dos alunos em pesquisas e no modo como eles utilizaram, em cada etapa do trabalho, os conceitos artísticos aprendidos durante o projeto.

Quer saber mais?

Escola da Vila, R. Barroso Neto, 91, 05595-010, São Paulo, SP, tel. (11) 3726-3578

Carlos Augusto Cabral Arouca, carlos@vila.com.br

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