Meu pincel, minha tinta

Fabricar materiais para as aulas aponta possibilidades artísticas e ajuda a garotada a descobrir diferentes formas de criar as próprias pinturas

POR:
Luiza Andrade
Foto: Veruska de Oliveira
DIVERSIDADE CRIATIVA Na EM Roseana Sarney, a turma usa de esponjas a fios de peruca para fazer suas ferramentas. Fotos: Veruska de Oliveira

Considerado um dos maiores pintores do século 20, o francês Henri Matisse (1869-1954) não era um artista de materiais convencionais. Na década de 1940, para vivenciar um novo jeito de pintar, realizou uma famosa série de obras com um pincel preso a uma longa vareta. Isso transformou também o suporte de sua pintura: em vez da tela tradicional, ele optou por um mural preso a uma parede. O francês não está só: assim como Matisse, muitos artistas lançam mão de recursos parecidos, utilizando galhos, folhas, escovas de dente e até vassouras como ferramentas para realizar diversos quadros.

A sala de aula pode ser palco de um processo semelhante, que se estende por todo o Ensino Fundamental (leia mais no quadro abaixo). Desenvolver esse tipo de atividade com a classe permite explorar inúmeras formas de fazer arte. "É experimentando que o artista descobre cada vez mais ferramentas, suportes e procedimentos. Na escola, contemplar essa variação amplia o leque de possibilidades expressivas dos alunos", diz Mirian Celeste Martins, diretora do Rizoma Cultural, empresa de projetos em arte, Educação e cultura, e professora da Universidade Mackenzie, ambos em São Paulo.

Para o professor, o trabalho começa antes mesmo de se propor a atividade aos alunos. "É importante investigar materiais variados e dedicar especial atenção aos recursos naturais próximos à escola que podem servir de base para as ferramentas", explica Marisa Szpigel, formadora do Centro de Educação e Documentação para Ação Comunitária (Cedac), em São Paulo. Em seguida, é o momento de convidar toda a turma para embarcar na exploração.

Foto: Veruska de Oliveira

Ao apresentar os exemplos que havia pesquisado, Silvanete Pereira Lima, professora da 3ª série da EM Roseana Sarney, em Pindaré Mirim, a 180 quilômetros de São Luís, pediu que os alunos trouxessem ideias de casa. O grupo soltou a imaginação e criou ferramentas com gravetos, cabos de vassoura, bambus, canos, escovas de dente e palitos de sorvete e de churrasco. Pelos, espumas, buchas e penas, entre outros, foram presos aos suportes com barbante, linha ou fita adesiva. No levantamento das matérias-primas para tintas, a mesma avalanche de sugestões: areia colorida, argila, borra de café, açaí, buriti, carvão, urucum, giz, cenoura, espinafre e beterraba.

O conteúdo do 6º ao 9º ano

Nas séries finais do Ensino Fundamental, os conteúdos já estudados nas aulas de Arte ficam mais complexos. "É importante, sim, que o que já foi visto seja retomado, com aprofundamento e ampliação do repertório", afirma Mirian Celeste Martins. A fabricação de tintas e pincéis pode voltar, então, como uma aliada de novos projetos. Um bom exemplo é incentivar os alunos a encontrar modos particulares de trabalhar com a cor. "Para isso, você pode mostrar, como referência, obras de vários artistas contemporâneos, como as do pintor e ilustrador paulista Paulo Pasta, que revelam tons com contrastes sutis e brincam com a percepção da cor; as do gaúcho Iberê Camargo (1914-1994), com grossas camadas e muita tinta; e as do paulista Thomaz Ianelli (1932-2001), mais diluídas", sugere Mirian. Nessa fase, a ideia é que as novas ferramentas e o maior conhecimento de arte contemporânea possibilitem a cada aluno a chance de desenvolver melhor uma forma própria de se relacionar com as cores.

O ato de fabricar ferramentas é, por si só, conteúdo curricular 

É preciso ter em mente que a fabricação de pincéis e tintas (leia a sequência didática) não é mera preparação para a aula. A atividade já é um conteúdo, pois o aspecto final da obra depende diretamente da forma e da qualidade das ferramentas. Você pode e deve pontuar o processo com questões relativas ao produto final: que tipo de pincelada o pelo escolhido para o pincel vai produzir? O que acontece se eu usar mais ou menos pigmento na tinta?

Foto: Veruska de Oliveira

"Esse tipo de indagação estética faz todo sentido, pois a ferramenta é um artefato com forma e função. A fabricação não deve ser entendida como uma linha de produção, mas como um processo de desenvolvimento de estratégias artísticas pessoais", explica Marisa. A turma de 4º ano da EM Deputado José Carlos Vaz de Miranda, em Vassouras, a 89 quilômetros do Rio de Janeiro, percebeu isso na prática. Entre a diversidade de pincéis criados - com mato, pedaços de flores ou enfeites de durex colorido -, uma das crianças escolheu um modelo com folhas de árvore bem grandes e surpreendeu-se com o efeito. "Ela notou que bastava uma pincelada para cobrir uma folha inteira de papel. Por isso, acabou precisando encontrar um suporte maior para pintar", conta a professora Solange Maria da Silva Guimarães.

Instrumentos prontos, chega a hora de utilizá-los para as pinturas, sempre no plural. É que, como explica Mirian, um projeto de Arte não visa gerar apenas uma produção, mas uma série que traduza as intenções de cada criança. "Ocorre o mesmo com os artistas. Para pintar Guernica, Pablo Picasso (1881-1973) fez uma série de esboços, que, além de servir de base para o quadro, são tão importantes que foram considerados obras acabadas, inspirando outras criações do artista", afirma.

Propor uma série de pinturas para amadurecer a produção

Foto: Veruska de Oliveira
ARCO-ÍRIS EM SALA Ao misturar areia com pigmentos coloridos, os alunos criam cores para pintar.
Foto: Veruska de Oliveira

O tema dessa série de produções é bastante variável. "Pode ser livre, de observação, de imaginação. O que será feito com os materiais é um novo conteúdo e estimulará o debate sobre o que essa ferramenta pode ajudar a produzir. É ainda uma boa hora para testar suportes diferentes para a pintura, como mesa, parede e chão", diz Marisa. A professora Silvanete optou pelo tema livre, do qual saíram cores, texturas e formas surpreendentes. Já Solange escolheu o desenho de observação de árvores do pátio da escola - isso depois de apresentar referências variadas, das que foram pintadas pelos índios ticunas às do impressionista Oscar-Claude Monet (1840-1926). Em todos os casos, o resultado é sempre diverso daquele em que são usados materiais convencionais, pois introduz não apenas ferramentas diferentes mas também novos jeitos de pintar e pensar a Arte.

Reportagem sugerida por três leitores: Flavia Martins Silva, São Gonçalo, RJ, Juliana Vieira, João Pessoa, PB, e Márcia das Graças Ribeiro Roldão, Catalão, GO

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CONTATOS
EM Deputado José Carlos Vaz de Miranda
, R. Expedicionário Cândido de Luz Paiva, 53, 27700-000, Vassouras, RJ, tel. (24) 2491-2274
EM Roseana Sarney, Av. Brasil, s/n, 65370-000, Pindaré Mirim, MA, tel. (98) 3654-2705
Marisa Szpigel
Mirian Celeste Martins

BIBLIOGRAFIA
O Livro das Tintas
, Ruth Rocha e Otávio Roth, 32 págs., Ed. Melhoramentos, tel. (11) 3874-0800, 22 reais
Pinturas, Jogos e Experiências, Ann Forslind, 48 págs., Ed. Callis, tel. (11) 3068-5600, 25,90 reais  

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