A convivência além da última página

Hoje, novos projetos me chamam e me despeço da coluna, mas não da revista

POR:
Telma Vinha
Ilustração: Adriana Komura

Logo que me formei pedagoga e ingressei como coordenadora em uma rede municipal, me deparei com as dificuldades relacionadas ao comportamento dos alunos - algo que, você sabe, muitos professores também sentem. Na época, só tinha clareza do que não fazer: não gritar, não humilhar, não excluir. Meus colegas e eu não queríamos obediência por medo ou submissão, mas não conseguíamos fazer diferente.

Decidi retornar à Unicamp, onde havia estudado, e pesquisar sobre o desenvolvimento moral, os problemas de convivência, a qualidade do clima escolar, a relação professor e aluno, entre outras questões. Tornei-me docente na Faculdade de Educação e passei a trabalhar com uma equipe de pesquisadores que desenvolvem investigações nessa área e realizam trabalhos nas escolas.

Era essa a posição que eu ocupava quando, em 2010, fui convidada por NOVA ESCOLA a escrever uma coluna respondendo às perguntas sobre comportamento. Seria uma forma de a universidade chegar à escola e compartilhar as descobertas nesse campo com os professores - já que o tema ainda é pouco presente nas formações. Tentar responder questões complexas em um espaço de poucas linhas e numa linguagem menos acadêmica era uma tarefa quase impossível. Esse desafio só foi conseguido com a ajuda e apoio da equipe da revista. Foram quatro anos com a coluna E Agora, Telma? respondendo a questões que revelavam as preocupações e inseguranças de quem está na sala de aula. Além disso, também pude ver o interesse dos educadores e o desejo de encontrar novos modos de atuar.

Depois de um tempo, comecei a sentir um incômodo: quando uma pergunta chegava a nós, o problema já estava instalado. Solucionar um conflito ou uma dificuldade é necessário, mas precisávamos também incentivar o trabalho preventivo e o planejamento sistematizado da convivência nas escolas. Assim, em 2015, inauguramos a coluna Espaço de Convivência, em que, com auxílio de pesquisadores de diferentes universidades, nos aprofundamos em algumas questões sobre convivência, trouxemos novas descobertas e mostramos que não existem saídas fáceis para a melhoria do comportamento humano e das relações. Sabemos que resultados efetivos são obtidos com ações coordenadas, sistêmicas e coerentes envolvendo a escola como um todo. A Educação socioafetiva deve ser um projeto institucional e não um compromisso de apenas um ou poucos docentes.

Hoje, novos projetos me chamam e me despeço da coluna, mas não da revista. Os temas tratados nesse espaço continuarão ocupando as páginas de NOVA ESCOLA. Encerro este último texto agradecendo à revista pela oportunidade, parceria e confiança ao longo desses anos, aos colegas pesquisadores que sempre ajudaram com as dúvidas e atenderam ao convite de escrever. Mas, principalmente, agradeço aos leitores que, com seus anseios e conquistas, nos fizeram acreditar ainda mais no poder transformador da escola.

TELMA VINHA é professora de Psicologia Educacional da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)