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Especialistas | Entre Colegas


Por: Felipe Bandoni

Carta aberta a uma jovem professora

Algumas vezes, os ataques que sofremos não são dirigidos a nós, e sim ao que representamos para os alunos

Ilustração: Adriana Komura

Querida Andara,

Fiquei tocado pela descrição dos problemas que você enfrentou em 2017, logo na sua estreia como professora, com uma das turmas de 7º ano: momentos de tensão em sala, perfis de jovens em situação de vulnerabilidade, indisciplina, falta de adesão dos alunos às suas propostas, dificuldades de dialogar com eles, os pais e os gestores. Não me surpreende que isso se reflita em baixo rendimento nas aulas, impaciência e "explosões" da sua parte. Em 2018, os alunos continuam na escola, agora no 8º ano, e esse problema não pode continuar, como você mesma reconheceu em seu desabafo. Como restabelecer a relação?

Em primeiro lugar, saiba que é difícil resolver essa situação sem o apoio da equipe gestora. Por mais esforço que uma professora faça isoladamente ou em dupla com uma colega, pouco vai conseguir avançar, sobretudo no Fundamental 2, quando temos um tempo escasso em sala. Alunos vulneráveis socialmente, não importa o motivo, requerem um trabalho cuidadoso de toda a escola. Não deixe de buscar apoio.

Sei que já tentou muitas opções, mas penso que há caminhos para melhorar o clima. Primeiro, escolha conteúdos atrativos para os estudantes. Eu, no seu lugar, abordaria temáticas de drogas e sexualidade, por exemplo. Despertam interesse e abrem portas para estudar outros conteúdos.

Não se prenda ao planejamento de início de ano nem ao que estará fazendo em outras turmas. Esqueça o que propõe o livro didático ou o que "se espera" para um 8º ano. Trata-se de uma turma especial, e seu principal objetivo deve ser o de criar vínculo com os alunos. Sem isso, trabalho nenhum acontecerá.

Evite, quanto puder, as palestras. Substitua aulas em que os estudantes são passivos por outras em que há a necessidade da participação deles. Proponha que conversem, pergunte a opinião deles, escute-os genuinamente e faça-os escutarem uns aos outros. Use notícias atuais e casos que acontecem na escola para disparar as discussões.

Por fim, não deixe que os comentários pejorativos feitos pela turma atinjam você. Os alunos são apenas pessoas muito jovens que estão se desenvolvendo e aprendendo a se relacionar. Algumas vezes, os ataques que sofremos não são dirigidos a nós, e sim ao que representamos para eles: o adulto, a autoridade, a escola.

Obviamente, eles percebem que você é a mais jovem da equipe e vão testá-la em todos os momentos. Por outro lado, você é mais próxima em termos de idade, tem mais familiaridade com a linguagem e os interesses deles. São grandes vantagens para estabelecer um diálogo interessante.

Sempre haverá a turma difícil. A relação com os alunos e o apoio da coordenação nem sempre serão ideais. São obstáculos do nosso cotidiano, e espero que nossa conversa a ajude a contorná-los. Desejo a você um 2018 mais sereno e com muita aprendizagem! Um grande abraço!

FELIPE BANDONI é doutor em Biologia pela USP e professor na Educação de Jovens e Adultos (EJA) do Colégio Santa Cruz, em São Paulo.