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08 de Março de 2018 Imprimir
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“Guerra dos sexos” tem que acabar na escola

Educadoras defendem uma formação de professores e de alunos que trate igualmente meninos e meninas

Por: Paula Peres, Soraia Yoshida, Laís Semis
A guerra dos sexos estipula padrões que limitam as escolhas de meninos e meninas ao longo da vida, das cores às carreiras. Crédito: Getty Images


“Costumo dizer que a gente toma doses de racismo e machismo todos os dias, o que muda é o tamanho do copo”, afirma Macaé Evaristo, ex-secretária de Educação de Minas Gerais e ativista pelos direitos das mulheres. Segundo ela, esses copos nos são dados logo ao nascermos (pense nas cores associadas ao sexo dos bebês), contemplados e perpetuados nos mais diversos espaços – mesmo naqueles que deveriam proporcionar respeito, pensamento crítico e igualdade, como é o caso das escolas.

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A desigualdade de gênero não está contemplada na maioria das formações iniciais e continuadas dadas aos professores ao longo de sua carreira. Entretanto, para promover uma mudança em sala de aula, há um entendimento por parte de muitos educadores de que o trabalho deveria começar por quem ensina. Cleuza Repulho, especialista do programa Formar e professora de cursos de pós-graduação, encara a questão como essencial. “Eu digo aos professores que ninguém nasce preconceituoso", afirma. "Se você coloca crianças para brincar juntas, elas vão brincar com tudo e com todos”. Os espaços de socialização acabam contribuindo para reforçar alguns estereótipos, como os de gênero, raça e religião, explica ela.

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Para Olga de Freitas, que em seu doutorado pela Universidade Nacional de La Plata, na Argentina, estuda a ocupação dos espaços de poder pela mulher na Educação, o machismo é pedagógico. “Contribuímos com isso estabelecendo o que é de menino e menina e quais atitudes são aceitas para cada sexo”, diz. “Isso ajuda a perpetuar uma cultura em que vamos caminhando naturalmente nesse machismo, muitas vezes reproduzido sem intencionalidade”. Apesar da conscientização sobre o tema estar aumentando, faltam subsídios para que essa discussão acompanhe o professor e o auxilie na transformação de atitudes e visões difundidas socialmente.

A professora Gina Vieira Ponte de Albuquerque, da rede pública do Distrito Federal, leciona desde os 17 anos. Ela conta que em quase 30 anos de magistério passou por situações de assédio sexual por parte de homens que ocupavam cargos mais altos que o seu. Por ser mulher, ela teve sua fala deslegitimada. Quando se irritou e alterou o tom, foi chamada de mal-educada ou louca (mas também já ouviu que estava de TPM, era mal amada e outras depreciações do gênero, com o perdão do trocadilho).

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A professora Gina Vieira trabalhou em sala o
empodeiramento das mulheres a partir de
biografias. Crédito: Karina Santiago

São situações às quais as alunas do Centro de Ensino Fundamental 12, em Ceilândia, também estão sujeitas. “É muito recorrente o assédio que elas sofrem, tanto por parte dos meninos quanto dos professores. A escola ainda é muito conservadora, tradicional, e fala muito pouco sobre igualdade para mulheres”, diz Gina. Quando se queixam de terem sido tocadas de maneira inadequada a algum adulto, elas ouvem: “Mas o que você esperava com essa roupa?”.

“Não basta levar esse debate para a sala de aula e não repensar a cultura escolar. Que tipo de atividades na escola estão limitadas às mulheres? Que tipo de comportamentos nos fazem mais tolerantes com os meninos do que as meninas?”, questiona Gina, que integra o programa Mulheres Inspiradoras.

Um exemplo de como meninos e meninas não são vistos sob a mesma ótica pode ser sentida quando algum aluno se destaca nos estudos. “Se estamos falando de uma menina, o tom é ‘Ah, mas elas são mais dedicadas mesmo’. Mas se é um menino, eles são elevados à condição de gênio, como se fosse algo nato”, diz. Uma das razões para esse comportamento seriam as baixas expectativas para as meninas, como apontam pesquisas da ONU Mulheres, braço das Nações Unidas que promove a igualdade de oportunidades para mulheres. Para Maria Helena Guimarães de Castro, secretária-executiva do Ministério da Educação, além de trabalhar desde cedo a questão da igualdade de gênero com as crianças na escola, é preciso também fazer esse trabalho em casa. “As próprias famílias mantêm expectativas e tratam de forma diferente meninos e meninas”, diz.

Dados do Inep apontam que 60% dos concluintes dos cursos superiores no Brasil, em 2015, são mulheres. No entanto, quando consideramos apenas os cursos ligados a disciplinas de Exatas, como engenharias, ciência da computação ou ainda medicina, o número cai para 41%.

Foi a observação de como suas alunas se mostravam nas redes sociais que levou Gina de Albuquerque a apresentar para a turma histórias de mulheres inspiradoras – negras, brancas, jovens, velhas, estudadas e sem escolaridade. “Percebi que as meninas são expostas desde muito novas ao modelo de uma mulher sensual, que agrada aos homens e corresponde a um determinado padrão de beleza”, explica a professora. Sua ideia foi trazer novas referências para o debate, como as escritoras Carolina Maria de Jesus e Cora Coralina, a jovem ativista paquistanesa Malala Yousafzai e a psiquiatra Nise da Silveira para que a turma refletisse sobre esses padrões. “Quando estudamos a biografia dessas mulheres, vimos como os estereótipos de gênero limitam seus espaços e como as meninas podem escrever grandes histórias em suas vidas”.

Para romper com esse padrão, é preciso entender que a desigualdade de gênero e o empoderamento feminino não são questões apenas para as mulheres. Gina vê como grande desafio ir além da polarização que, segundo ela, prejudica o debate, como uma espécie de “guerra dos sexos”. “Não é por acaso que as condições das mulheres são indicadoras da civilidade do país. Para evoluir como humanidade, precisamos apoiar as meninas e as mulheres. Ser conivente com uma cultura que viola as mulheres representa um grande atraso para todo mundo”, afirma.


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