Sala de aula | Educação Física

A quadra também é delas

Não precisa separar meninos e meninas. O trabalho com times mistos garante que todos se sintam bem ao praticar esportes

POR:
Mariana González
Variar esportes, como o rúgbi, ajuda na inclusão das meninas. Foto: Sidinei Lopes

Rafaela Silva, Ágatha Bednarczuk e Poliana Okimoto são atletas que entraram para a história do esporte brasileiro subindo ao pódio olímpico em 2016. As medalhistas de ouro, prata e bronze, respectivamente, fazem parte de um grupo de sete mulheres, pequeno se comparado aos 15 atletas homens premiados na última edição dos Jogos. A disparidade entre os gêneros nos esportes é o que a professora Adriana Moraes Alves trabalha para evitar em suas aulas de Educação Física na EE Victorio Fornasaro, em Carapicuíba, região metropolitana de São Paulo.

Para ela, manter as crianças trabalhando juntas, sem distinção de gênero, é o melhor caminho para aproveitar tempo, espaço e o que um pode ensinar aos outros. "Tem professor que divide a quadra ou o tempo da aula entre garotos e garotas. Isso limita a exposição dos alunos às práticas e reduz o espaço disponível. Além de dificultar o entendimento de igualdade de gênero, claro."

Ela é uma exceção: a separação dos gêneros ainda é comum, principalmente entre turmas mais velhas, do Fundamental 2 ao Ensino Médio. Os professores que a defendem argumentam que ela evita conflitos e incentiva o desempenho delas, que se sentem menos à vontade para jogar quando dividem o time com o sexo oposto. O argumento não é de todo inválido: a pesquisa

Questões de Gênero na Educação Física Escolar, publicada em 2016 pela Revista Brasileira de Ciências do Esporte, confirma essa percepção. Ao comparar uma partida de queimada com times mistos do 6º ano, os autores Luciano Corsino e Daniela Auad calcularam que a média de arremessos entre as meninas representou menos da metade de tentativas entre os meninos.

"Isso não quer dizer que elas são menos aptas a praticar esportes, mas é um reflexo da criação e do incentivo esportivo desde os primeiros passos da criança, que costuma ser mais intensa para os garotos", explica Luciano. Claro que há exceções, mas o fato é que os meninos chegam à quadra da escola mais familiarizados com alguns esportes - o que não é motivo para separar as turmas e "resolver o problema" evitando os conflitos.

Times mistos proporcionam lições sobre questões de gênero. Foto: Sidinei Lopes

JOGO DE CONFLITOS

Misturar meninos e meninas nem sempre é fácil. Conheça os principais conflitos e como solucioná-los

Escolha dos times

PROBLEMA Deixar que um ou dois alunos montem as equipes sem a intervenção do professor segrega a turma e exclui os menos habituados aos esportes.

SOLUÇÃO Sortear os times na frente dos alunos, deixar que os líderes do dia (sempre um menino e uma menina) escolham às cegas ou ainda deixar que convidem livremente, desde que intercalando entre meninos e meninas.

Agressões verbais

PROBLEMA Quando meninos excluem meninas da prática esportiva fazendo comentários como "você é menina, não sabe jogar" ou outros ataques do tipo.

SOLUÇÃO Pare o jogo. Pergunte ao agressor o porquê de pensar dessa forma. À agredida, peça que fale como se sente. Use a oportunidade para dialogar sobre a questão de gênero e deixe claro que a agressão não pode se repetir.

Baixa autoestima

PROBLEMA Por terem menos prática, as meninas não se sentem à vontade para dar o melhor de si e tentar novas atividades na aula.

SOLUÇÃO Evidencie atletas mulheres, mostrando lances e jogadas de destaque, incentive a participação das meninas, não deixando que se omitam. Em alguns momentos, vale separá-las para que ganhem confiança antes de voltar ao time misto.

Falta de interesse e evasão esportiva

PROBLEMA As meninas perdem o interesse em práticas às quais os meninos estão mais habituados, como o futsal.

SOLUÇÃO Mostre o maior número de modalidades possível à turma. Quanto mais as crianças conhecerem, maior a chance de se destacarem em diferentes habilidades corporais (como força, velocidade, equilíbrio, flexibilidade etc).

Olhos e ouvidos atentos

As aulas da professora Adriana cativam a garotada pela gama de atividades propostas, que vão muito além dos clássicos futebol, queimada, handebol e vôlei. "Aluno meu joga de tudo", dispara. Além de explorar diferentes modalidades e despertar novos interesses nas crianças, essa é uma tentativa de evitar a evasão esportiva das meninas que não se encaixam nos esportes mais comuns. Ao apresentar práticas como ginástica rítmica, rúgbi e atletismo, ela mostra como o esporte valoriza diferentes habilidades corporais - não necessariamente velocidade ou força - e aumenta as chances de as alunas se adaptarem à prática esportiva.

Quando percebe que as meninas estão ficando em segundo plano em uma atividade, Adriana para o jogo e as reúne em um grupo por alguns minutos, incentivando que elas façam os mesmos movimentos e jogadas que deveriam fazer no jogo misto. Nesse momento, elas desempenham a atividade com mais entusiasmo e confiança e a professora questiona o porquê da mudança. Rapidamente, elas voltam ao grupo, se misturam com os meninos e continuam realizando os mesmos movimentos com mais confiança. "Às vezes, é necessário fazê-las perceber que são tão capazes de jogar quanto os garotos", justifica.

A escolha dos times é outro momento com potencial para gerar conflitos entre meninos e meninas. O formato clássico em que o professor escolhe dois líderes (ou capitães) e, de forma intercalada, cada um escolhe os membros de seus respectivos times tende a deixar as meninas por último, especialmente as que se destacam menos. Um estudo da universidade norte-americana Brigham Young defende que a prática pode fazer as crianças deixadas por último associarem esporte a uma coisa ruim. Aqui, não estamos falando só das meninas, mas outros grupos de alunos considerados fora do padrão atlético, como acima ou abaixo do peso. Uma boa saída é apostar na sorte, distribuindo os times por sorteio.

Por fim, é importante conversar e ressaltar questões de gênero, seja quando conflitos surgirem (leia destaque acima), seja na apresentação de novas modalidades. Com o objetivo de mostrar para meninos e meninas que todos têm espaço na quadra, vale evidenciar atletas e equipes femininas com bom desempenho, como a seleção de handebol, por exemplo, que tem uma performance bem superior à equipe masculina. Além disso, é importante desenvolver com os alunos um olhar crítico sobre as desigualdades nos esportes. Uma boa forma de fazer isso com crianças menores é mostrar a foto de Neymar Júnior e de Marta Vieira da Silva e perguntar quantos na classe reconhecem cada um. Na sequência, vale apresentar os dois, comentando que são considerados os melhores do Brasil, que conquistaram prêmios e medalhas e questionar por que nem todos reconhecem a Marta. Entre alunos maiores, é possível comparar os salários dos dois e evidenciar que as conquistas profissionais de ambos são similares. "É uma forma de conscientizar os garotos a respeito do machismo no esporte e valorizar os feitos de atletas mulheres. Exemplos não faltam", garante o professor Luciano.