Sala de aula | Geografia

Como explicar que a Terra é redonda?

Ensine os estudantes a construir argumentos para responder à questão se valendo do modo científico de pensar

POR:
Beatriz Vichessi
Ilustração: Vini Capiotti

O mundo é redondo e achatado nos polos. Óbvio, certo? Hum… Nem tanto. Acredite: mesmo nos dias atuais, muita gente não pensa assim, o que remonta a um pensamento antiquíssimo, mas colocado em xeque pela humanidade - e superado - há mais de 2 mil anos. Os chamados terraplanistas defendem que vivemos num planeta em forma de disco. Eles atuam com força na internet. Há cerca de 30 comunidades no Facebook sobre o tema no Brasil, uma delas com mais de 97 mil seguidores. Mundo afora, o fenômeno também impressiona. Em Londres, está sediada a organização The Flat Earth Society (em português, A sociedade da terra plana), dedicada ao assunto. O rapper estadunidense B.o.B chegou a lançar uma campanha virtual chamada Show B.o.B the Curve (Mostre a curva ao B.o.B., em português) para arrecadar um milhão de dólares e comprovar que a superfície é reta. A ideia dele é usar o dinheiro para mandar um satélite para o espaço e fotografar o mundo que ele defende ser achatado como uma pizza. A iniciativa ainda não atingiu a meta, mas a arrecadação continua ativa e foram contabilizados pelo menos 6 mil dólares em doações, mesmo ele já tendo recebido mensagens pelo Twitter de vários astronautas, como o norte-americano Buzz Aldrin, dizendo a ele que é melhor economizar esse dinheiro.


B.o.B e tantas outras pessoas ignoram provas irrefutáveis conquistadas há tempos pela humanidade, inclusive imagens da Terra obtidas por satélites e fotos feitas quando o homem - Neil Armstrong e justamente Buzz Aldrin - pisou na Lua pela primeira vez, em 1969.

Ao perguntar para os alunos se o planeta é redondo, o mais provável é que eles tenham a resposta na ponta da língua: sim. Mas isso não pode bastar nas aulas de Ciências, pois a afirmação deles, provavelmente, está baseada em uma informação recebida anteriormente. Ao pedir que comprove o fato, é quase certo que a maioria vai titubear, pois nunca teve de pensar a respeito. É importante ensiná-los a não assumir tudo como verdade, e sim questionar e justificar as próprias respostas de maneira sólida. Afinal, se aceitamos tudo sem contestar, é fácil acreditar até mesmo em absurdos que circulam pela web.


Embora seja um fato inquestionável para a comunidade científica atual a Terra ter o formato elipsóide, isso deve ser discutido com os estudantes para ensiná-los como se constrói o conhecimento científico, ou seja, de que modo pesquisadores trabalham. Explorar o assunto está previsto na Base Nacional Comum Curricular (BNCC) do 6º ano, que diz para incentivar a seleção, argumentação e busca de evidências que demonstrem a característica esférica do planeta.

O SOL NÃO É PARA TODOS
Pelo menos, não ao mesmo tempo

DIA DE UM LADO, NOITE DE OUTRO

Devido ao formato e ao movimento de rotação da Terra, o sol nasce e se põe em diferentes momentos mundo afora, iluminando parte do planeta, enquanto a outra parte fica às escuras. Daí o sistema de fuso horário

VERÃO NUM HEMISFÉRIO, INVERNO NO OUTRO

Como o eixo de rotação é inclinado, os raios solares se distribuem de maneira diferente pelo planeta, gerando as estações. Assim, o Hemisfério Norte recebe mais sol durante metade do ano e o Hemisfério Sul na outra

DE OLHO NA LUA

Observar o famoso satélite ajuda a explicar o formato da Terra

ATENÇÃO À SOMBRA

Durante um eclipse lunar, a sombra da Terra projetada na Lua é circular, o que pode ser conferido a olho nu. Se o planeta tivesse a forma de disco, a sombra seria apenas um traço

QUEM PODE VER O ECLIPSE

A curvatura da Terra explica por que, dependendo do ponto do planeta onde estamos, um eclipse pode ou não ser visível. Se a forma terrestre fosse plana, todos acompanhariam o fenômeno simultaneamente

Ilustração: Vini Capiotti

A construção de argumentos

"Não faz sentido simplesmente apresentar os argumentos elaborados ao longo da história para explicar a questão à classe. O ideal é dar ênfase ao percurso do pensamento dos estudantes, fazer com que pesquisem, organizem pressupostos, façam demonstrações e estruturem argumentos", diz Felipe Ribeiro, professor da Universidade Federal Rural do Semi-Árido (Ufersa) e autor da tecnologia social Metodologia Científica ao Alcance de Todos (MCAT).

Com base em muito do que já aprenderam, eles vão começar a apresentar explicações. Um exemplo: eles podem se lembrar de que ser dia no Brasil ao mesmo tempo em que é noite no Japão só faz sentido em um mundo redondo. O professor pode instigá-los com várias questões, entre as quais: "Por que existem as estações do ano?" ou "Quem já ouviu na televisão o aviso de que um eclipse só poderia ser visto em determinada região do planeta? Por que isso ocorre?" (leia outras evidências nos quadros desta reportagem). Nesse momento, é importante que todos sejam incentivados a usar termos como rotação, translação e fuso horário, entre outros, se apropriando da linguagem científica e embasando melhor a fala.

De acordo com Patrícia Shinobu, professora da área de ensino do departamento de Geociências da Universidade Estadual de Londrina (UEL), o docente pode delimitar fontes confiáveis para pesquisa, mas jamais deve apresentar experimentos prontos para comprovar o que quer ensinar. "O papel da escola não é convencer as pessoas, e sim estimular o pensamento delas", afirma.

Vale também explicar para a turma que a ciência e o que sabemos hoje é uma construção humana e, portanto, provisória. "Nada está acabado e estamos em constante evolução, por isso a comunidade científica está sempre investigando para explicar o mundo de maneira mais abrangente", diz Leonir Lorenzetti, doutor em Educação Científica e Tecnológica e professor do Programa de Pós-Graduação em Educação em Ciências e Matemática da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Para exemplificar, basta lembrar que o modelo geocêntrico (a Terra é o centro do sistema solar) foi vencido pelo heliocêntrico (ela gira ao redor do Sol, assim como os demais planetas) porque esse último explica com mais clareza e evidências as lacunas antes deixadas pelo anterior, esclarecendo melhor o funcionamento do nosso mundo e de seu entorno. O mesmo se deu com o conhecimento sobre o formato da Terra: prevaleceu o que melhor explica os fenômenos estudados ao longo dos anos.

Ciência pode ser simples

Lembre-se que não importa o grau de simplicidade dos argumentos apresentados pelos alunos. O simples é também uma das marcas da ciência, principalmente daquela feita durante a Antiguidade. Sendo assim, depois que os estudantes discutirem as hipóteses levantadas pela classe, você pode enriquecer o debate mostrando exemplos históricos de raciocínios e experiências desenvolvidos por alguns pensadores.

Há mais de 2 mil anos, Aristóteles (384 a.C-322 a.C), o filósofo grego e professor de Alexandre, o Grande, afirmou que bastava observar as estrelas para saber que vivíamos em um mundo redondo: as diferentes constelações vistas no firmamento dependem de onde estamos. O céu observado no Hemisfério Norte é diferente daquele no Hemisfério Sul. Se a Terra fosse plana, conseguiríamos ver sempre as mesmas estrelas, estando em qualquer ponto, a qualquer momento.

Eratóstenes de Cirene (276 a.C-194 a.C), matemático grego e diretor da biblioteca de Alexandria, no Egito, também comprovou a questão com uma experiência prosaica, porém precisa. Nada de satélites ou outros instrumentos que permitissem ver o planeta estando fora dele: mediu o comprimento da sombra de uma vareta em Alexandria, ao meio-dia de 21 de junho, precisamente no dia e na hora em que sabia, com base em textos antigos, que uma vareta espetada em Assuão, também no Egito, não produziria sombra alguma. A distância entre as localidades é de pouco mais de mil quilômetros. Ora, se vivêssemos em um planeta plano, ambas as varetas teriam sombra - e do mesmíssimo tamanho. Considerando tudo isso, Eratóstenes pôde afirmar que varetas posicionadas na superfície em ângulos diferentes com relação ao sol projetam sombras de comprimentos diferentes, comprovando que o mundo tem, sim, curvatura. E, mais do que isso: que para fazer ciência, precisou somente de "varas, olhos, pés, cérebro e o prazer de experimentar".