Sala de aula | Língua Portuguesa

Nossa língua é uma viagem!

O português difere em Angola, Portugal e entre as regiões do Brasil... leve os alunos para descobrir essa riqueza

POR:
Renan Simão

"Essa fila tá garrada." Só mesmo estando na capita mineira para ouvir a expressão. Incomum aos ouvintes de outros estados, "garrado" ou agarrado significa lerdo, que não anda. Já um mineiro precisa de explicação quando algum paulista descreve que "aquele rapaz é coxinha", pois para ele a palavra não é mais do que o popular petisco frito. Mesmo que seus alunos já estejam acostumados a ouvir expressões e modos de falar de vários cantos do Brasil, principalmente na voz de youtubers do momento, as variantes linguísticas ainda causam estranhamento.

Entender se o registro da língua é formal ou informal, em qual contexto e ambiente está sendo utilizado, identificar se ele tem característica regional, urbana ou rural são competências descritas na Base Nacional Comum Curricular (BNCC). E, o mais importante, o documento orienta a respeitar a variação linguística - usada por grupos regionais e de diferentes camadas sociais - e rejeitar qualquer tipo de preconceito.

Estudar o tema ajuda os alunos a se comunicar com pessoas de origem distintas, mas que falam o mesmo idioma. Além disso, facilita a leitura de obras literárias em variantes do português. Orientar para isso, porém, não é simples. Afinal, como olhar com empatia para costumes tão diferentes? Quando as turmas de 9º ano do Colégio de Aplicação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) foram para Itá, município do oeste catarinense, houve um choque. Os estudantes têm falas rápidas de influência dos Açores, arquipélago português, e os locais revelam um sotaque herdado dos italianos. "Em um primeiro momento vem a zoação", lembra a professora Lisiane Vandresen. "As palavras que chamavam a atenção eram as com dois erres, que lá são articuladas com um só. Barragem vira 'baragem', por exemplo."

Dentro da iniciativa da escola de Florianópolis, que já ocorre há mais de 15 anos, as crianças viajam para encontrar mais faces do nosso idioma. Elas são agrupadas em equipes de três, escolhem um foco de pesquisa e elaboram um projeto. "Antes de irem a campo para gravar as falas e tirar fotos, os alunos aprontam o questionário e fazem um simulado das entrevistas", conta a docente. Ela os orienta a explicar à pessoa abordada qual o objetivo do trabalho, perguntar se há autorização para o uso das falas e avisar que está sendo gravada. Feito isso, eles saem conversando com moradores e registram suas impressões pessoais, tomando cuidado para não rir ao ouvir uma palavra diferente. A atitude deve ficar restrita à sala de aula, e faz parte do contato com as variantes.

A ideia é que eles entendam, na prática, que é preciso respeitar todo tipo de fala e que cada uma tem seu motivo. Em Minas Gerais, nas cidades históricas de Ouro Preto e Mariana, as expressões "uai, sô" e "lavar a égua" foram as mais discutidas (veja significados na ilustração abaixo). Mas a aprendizagem não fica apenas restrita à escuta: as entrevistas são transcritas e eles elaboram um texto jornalístico, editam fotos e legendas.

Se a sua instituição não permite saídas a campo, Lisiane sugere que os alunos gravem entrevistas com conhecidos. "Certamente a variação linguística ainda estará presente, seja pela idade, seja pela presença de pessoas de diferentes regiões na escola ou no entorno", diz ela.

Talho - Lá onde se corta

...carne. Sim, para os portugueses, ir ao talho é fazer compras no açougue. Faz sentido!

Lavar a égua - De outros tempos

Essa expressão mineira significa sorte grande e deriva da prática dos escravos de esconder ouro no pelo do animal.

Zinguelar - Atitude ranzinza

Em Angola, essa gíria significa reclamar. "Estás a zinguelar", por exemplo, é você está reclamando.

Cacunda - Palavra engraçada

Outro jeito de dizer costas ou ombros. Também é sinônimo de corcunda.

Meter - Diferente daqui

O verbo, quando usado pelos angolanos, corresponde a colocar, pôr, como em "Meter um carimbo na carta".

Camisola - Não é pijama

Nem o que as moças usam para dormir. Em Portugal, significa camiseta.

Uai, sô - Imigração histórica

A expressão local é um aportuguesamento de "Why, Sir" desde a chegada de ingleses na exploração do ouro em terras mineiras.

Pequeno almoço - Na língua mãe

É desse jeito simpático que os portugueses chamam o nosso café da manhã, uma influência direta da língua francesa.

Boneco - Cotidiano infantil

É dessa forma que as crianças angolanas chamam o desenho animado.

Olá, malta - Entre amigos

Usada informalmente em Portugal, como um cumprimento, a expressão equivale a "Oi, gente".

Paia - Gíria descolada

Para quem está em cidades de Minas Gerais, quando uma coisa é paia, é sem graça, não tem "nada a ver"

Isso é bué, fixe - Influência africana

Bué é uma influência africana incorporada ao português. Quer dizer muito. A expressão pode ser traduzida como "isso é muito legal".

Da conversa às cartas

Se a diversidade é imensa no nosso território, imagine longe das fronteiras. A língua portuguesa é o idioma oficial para nove países e 260 milhões de falantes! De tão múltipla, ganhou no primeiro semestre de 2017 um Vocabulário Ortográfico Comum (VOC). Ele padroniza a escrita de 310 mil palavras de cinco países lusófonos: Brasil, Portugal, Moçambique, Cabo Verde e Timor-Leste (acesse voc.cplp.org). Segundo seus apoiadores, o VOC pretende dar à língua um indicador técnico e político para a integração cultural dessas nações. Mas alguns teóricos portugueses veem nele uma interferência nas especificidades da escrita de cada país. Para o linguista Carlos Alberto Faraco, membro da comissão brasileira que elaborou o VOC, o recurso amplia a compreensão da língua, preservando a sua diversidade.

Para colocar os alunos da EE Doutor Samuel de Castro Neves, em Piracicaba (SP), em contato com as variantes, a docente Lidia Camargo e a mestranda em Educação Isabel Barbosa promoveram a troca de cartas entre as crianças do 5º ano daqui com as de Luanda, capital de Angola. "Um dos objetivos foi proporcionar o entendimento do outro", conta Isabel, que é angolana. Além das distinções de pronúncia, termos como o prato típico "mufete", "boneco" (desenho animado) e "ginguba" (amendoim) geraram curiosidade nos brasileiros. Nomes de comida de origem italiana, como pizza e lasanha, programas de TV e jogos de videogame surpreenderam os angolanos.

Os alunos observaram em vídeo suas cartas sendo lidas pelos colegas de além-mar, e vice-versa. Os brasileiros riram dos erros de leitura dos angolanos e Lidia discutiu com eles o contexto social por trás da dificuldade. "Trabalhei a ideia do estranhamento e por que eles julgaram existir superioridade no uso linguístico, já que nos dois casos o objetivo de comunicar foi alcançado", diz.

Para a linguista e professora associada da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP) Vanda Elias, o docente deve promover o entendimento das variadas interações e contextos da língua. "Não existe só uma forma correta. O que seria um erro num livro pode ser uma adaptação da linguagem a um público do YouTube", diz. Ela relembra a frase de Evanildo Bechara, coordenador da produção brasileira do VOC: "No fundo, a grande missão do professor de língua materna é transformar seu aluno num poliglota dentro de sua própria língua". Bora lá?