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É preciso ter obsessão para melhorar a Educação no Brasil

Jaime Saavedra, diretor global de Educação do Banco Mundial, diz que quando se trata de melhorar a qualidade do ensino, o Brasil é parte do problema – mas também da solução

POR:
Soraia Yoshida
Jaime Saavedra, diretor global de Educação do Banco Mundial   Foto: Divulgação

“É preciso investir mais dinheiro em Educação e garantir que esse dinheiro não seja desperdiçado”, afirma Jaime Saavedra, diretor global da área de Educação do Banco Mundial. Ao discutir o peso que os governos do mundo inteiro deveriam dar ao ensino-aprendizagem, Jaime entende que os alunos deveriam ter igualdade de condições. “E se você precisa gastar mais em um estado para que as crianças tenham as mesmas condições, então que seja”, diz.

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À frente das iniciativas de Práticas Globais de Educação, ele se diz extremamente preocupado com o que chama de “crise no aprendizado”. Indicadores do Banco Mundial apontam que nos países em desenvolvimento, o número de crianças que não são capazes de ler, escrever ou fazer operações básicas de matemática – mesmo após alguns anos na escola – é gigantesco. “Na África Subsaariana, esse número chega a 90%”, diz.

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O diretor global de Educação acredita que a maneira de virar o jogo está relacionada a mais investimentos, mas chama atenção para que esses recursos não se percam e, sim, sejam usados de maneira eficiente. “Dinheiro gasto com um professor que falta e não dá aula é dinheiro desperdiçado”, afirma. “E não podemos desperdiçar dinheiro para Educação, temos de garantir que seja usado corretamente”.

Jaime fala por experiência própria. Ele foi ministro da Educação no Peru, período durante o qual o país apresentou melhores resultados na aprendizagem. Segundo ele, por estar no comando de uma pasta de interesse nacional, ele percebeu rapidamente como as mudanças poderiam ter um impacto em todo o país. "Faço questão de dizer que trabalhar para o serviço público é uma honra porque você pode gerar impacto na vida das pessoas, principalmente dos jovens e crianças", diz.

De passagem pelo Brasil para participar do seminário “Aprendizagem: Realizando o Potencial da Educação”, em São Paulo, Jaime Saavedra discutiu suas preocupações sobre o nível educacional e como o Brasil se encaixa hoje nesse cenário. Leia a seguir os principais trechos da entrevista a NOVA ESCOLA.

 

Quando o sr. fala em uma crise de aprendizado global, do que exatamente estamos falando? E onde fica o Brasil nesse cenário?
Eu uso o termo crise devido à magnitude do problema. Não estamos enfrentando uma situação em que 10% dos estudantes não conseguem ler nem escrever, mesmo na escola. Estamos vivendo um problema global em que 50% dos estudantes dos países em desenvolvimento não conseguem aprender. Esse número varia de mais ou menos 20% em países da Europa Oriental até 90% em países da África Subsaariana. Além disso, temos 260 milhões de crianças em idade escolar que deveriam estar matriculadas no Ensino Fundamental e no Ensino Médio que não vão à escola. E, para piorar, a média de matrículas em Educação Infantil fica em torno de 50% nos países em desenvolvimento. É um problema enorme: garantir que as crianças estejam na escola e que elas tenham todas as condições para aprender. O Brasil é parte do problema e parte da solução.

De que maneira?
O Brasil é um país de dimensões continentais e em termos de aprendizado, os números ficam entre 50% e 60% - o que coloca o país na média da América Latina. Considerando os resultados do Pisa, se você olhar para o Brasil notará que houve uma melhoria durante algum tempo, mas então os resultados estagnaram. Como a maioria dos países da América Latina, fica na faixa de baixo do Pisa. O desafio de avançar na melhoria do ensino de maneira global, nós vemos também para o Brasil.

Em muitos países, a discussão é que o ensino não avança porque os professores precisam ser melhor preparados. Por outro lado, educadores chamam atenção aqui no Brasil para o fato de que pouquíssimas iniciativas, mesmo aquelas que mostram resultados, se mantêm de um governo para o outro. O sr. já disse anteriormente que os professores são parte da solução. Qual a sua visão para isso?
Quando falo que são necessárias certas condições para que as políticas se mostrem efetivas para melhorar a educação, é a isso que me refiro. Você precisa planejar os programas para que tenham o tamanho certo e estejam alinhados da maneira correta. Em muitos casos, o alinhamento político precisa ser feito entre diferentes atores, mas o importante é ter um alinhamento político que permita ao Brasil ter persistência e sustentabilidade de políticas públicas. E como você citou, entra um novo governo e quer começar tudo outra vez e aí temos problemas. Os países bem-sucedidos em termos de políticas públicas para Educação são aqueles que sustentaram essas políticas por muito tempo.  Sobre os professores, eu diria que eles têm que ser parte da solução. Não há outra alternativa, não existe reforma sem professores. Não se trata de pensar “ah, já que as crianças são tão inteligentes hoje, vamos encontrar um software para que elas aprendam sozinhas”. Isso não existe. A tecnologia é muito importante, ela permite que o aprendizado se torne mais rápido, efetivo e mais divertido. Mas terá de ser sempre uma ferramenta usada pelo professor para ensinar. Por isso eu reforço que os professores precisam ser parte da solução. E a parte importante para o país é que o Brasil tem todas as condições para avançar.

Temos razão para nos sentir otimistas, então?
Sim. Há algumas reformas que já estamos vendo, como o novo Ensino Médio, por exemplo, e é uma mudança que está indo na direção certa. Se for aprovada e implementada da maneira correta, vai colocar o Brasil em uma posição mais vantajosa para conseguir melhorar a qualidade da educação. O Brasil também precisa aprender mais com sua própria experiência. Você encontra exemplos muito bons em vários municípios. O Brasil não precisa imitar a Finlândia, a Coreia do Sul ou Cingapura. O país vai experimentar um grande progresso se imitar o que acontece de bom dentro do próprio Brasil. Agora, a questão é que não se pode parar com os primeiros bons resultados. É preciso continuar melhorando.

Uma das questões que pesa sobre o país é a desigualdade, que faz com que tenhamos mais investimento e melhores condições em algumas partes do Brasil e menos em outras, ou seja, os alunos não recebem de saída condições iguais de se desenvolver e aprender. O sr. acredita que podemos diminuir essa lacuna progressivamente ou ainda vai levar muito tempo?
É uma questão de recursos, sim, mas é uma questão de vontade política de promover mudanças.  É muito difícil diminuir a desigualdade de uma hora para outra, isso ainda vai levar algum tempo. Mas não precisa demorar 30 anos. É um processo, mas acredito que será possível ver mudanças mais rapidamente.

O sr. defende que as mudanças globais demandam que os professores se preocupem não apenas em passar conhecimento, mas também outras habilidades que permitam aos estudantes chegar mais preparados para encarar os desafios de hoje. Como atingir esse equilíbrio entre conhecimento e capacidades e de que forma os professores podem fazer isso em sala de aula?
Em primeiro lugar, é preciso garantir que os professores tenham a mentalidade de que precisam fomentar essas habilidades entre seus estudantes – e não pensar que eles vão desenvolvê-las em casa. “Eu só vou ensinar História e pronto”, não é isso. Eles precisam estar conscientes de que é parte de sua responsabilidade. E isso não está claro para todos os professores. Eu tive bons professores que faziam as duas coisas. Hoje precisamos que todos os professores estejam conscientes de que sua responsabilidade também é fomentar as habilidades socioemocionais nos alunos.

O segundo ponto é que você pode fomentar essas habilidades ao mesmo tempo em que está passando conhecimento. Se você ensina História preocupado apenas que os alunos memorizem datas, você pode mudar para ensinar o contexto histórico e incentivar o pensamento criativo. Essa é a maneira certa. Você ensina aos alunos como articular ideias e incentiva a formação do pensamento crítico, enquanto explica os acontecimentos históricos. É uma combinação, não se trata de escolher uma coisa ou outra. Dessa maneira, os alunos aprenderão as habilidades fundamentais, como ler e escrever, assim como conhecerão Matemática, História, Geografia, Economia, Ciência etc. combinadas a estas outras habilidades socioemocionais. Não existe subcategorias de perseverança e desenvolvimento de trabalho em equipe, você ensina isso enquanto ensina Biologia. 

Qual seria o seu conselho para melhorar a educação brasileira a partir de agora?
Mais do que um conselho, que não é o nosso papel no Banco Mundial, e sim acompanhar as reformas, eu diria que o que está sendo feito no Ensino Médio é um movimento na direção certa. No ano passado a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) foi aprovada e o desafio agora é implementar esse currículo, garantindo que os professores internalizem qual é maneira de ensinar esse currículo. Essa é uma prova de que as coisas precisam seguir adiante entre um governo e outro. Porque este processo de mudança no Ensino Médio e na elaboração de um currículo nacional é algo que vai ficar para o próximo governo. Todos esses processos levam anos para serem elaborados e implementados. É assim que as coisas acontecem. 

Essa é a receita?
Esse é o desafio para o Brasil. Aliás, não apenas para o Brasil, mas para todos os países bem-sucedidos em suas políticas de melhoria de qualidade do ensino. Aumentar o número de alunos matriculados e ao mesmo tempo melhorar a qualidade do ensino, o que em muitos casos está ligado a melhorias nas condições para os professores. Você precisa garantir que a sociedade tenha essa “obsessão pela educação”, a vontade de seguir em frente com reformas, permitindo a continuidade de um governo para o outro. É uma obsessão por melhorar a formação dos professores, motivá-los e escolher as melhores pessoas para que sigam nessa carreira. São coisas que não se consegue mudar da noite para o dia. Você precisa ter essa obsessão na sociedade, de tal forma enraizada, que será mantida de um governo para o outro.

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