Matrículas de alunos estrangeiros crescem 112% no Brasil

Rede pública de ensino congrega quase 65% dos estudantes imigrantes e refugiados que vieram da América Latina, Europa e Ásia

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Paula Calçade
Pintura na entrada do EMEF Infante Dom Henrique, em São Paulo: acolhimento a alunos imigrantes fez crescer a procura por matrículas   Foto: Paula Calçade

O bairro do Canindé, na zona norte da cidade de São Paulo, é conhecido pela diversidade étnica, racial e cultural, que toma conta das ruas estreitas próximas à Praça da Kantuta, ambiente que abriga feiras andinas aos finais de semana, roupas coloridas e danças típicas. Homens e mulheres vindos de vários países latinos, principalmente da Bolívia, dividem espaço, mais recentemente, com sírios, angolanos e nigerianos.

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Nessa mesma região, uma escola municipal, a EMEF Infante Dom Henrique recebe matrículas dos filhos de e muitos estrangeiros. O desafio de lecionar para essas crianças começou em 2011.

O fluxo de imigrantes e refugiados para o Brasil é crescente. De acordo com a Agência da Organização das Nações Unidas Para Refugiados (ACNUR), em cinco anos, as solicitações de refúgio no país cresceram 2.868%. Passaram de 966, em 2010, para 28.670, em 2015.

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Consequentemente, as matrículas de alunos refugiados e imigrantes também decolou, segundo o boletim do Instituto Unibanco que reuniu dados do Censo Escolar, entre 2008 e 2016, o número saltou de 34 mil para quase 73 mil alunos estrangeiros em escolas brasileiras, sendo que a rede pública acolhe a maioria deles, 64% de todas as inscrições. São Paulo é o estado que concentra um terço de todas as matrículas do país.

“Em 2015, começamos a receber alunos árabes, o que agravou as nossas dificuldades, a barreira da língua era muito grande”, conta o diretor Cláudio Marques da Silva Neto, do Infante Dom Henrique. Diante dessa situação, em meio a reuniões com os pais e os próprios alunos, a escola elaborou pequenas iniciativas que mudaram o convívio entre todos na escola e, mais tarde, possibilitaram o desenvolvimento escolar dos estrangeiros. As placas dentro da escola sinalizam ambientes em quatro línguas, pinturas nas paredes estimulam os alunos a pensarem sobre diversidade e tolerância e o projeto Português Para Imigrantes convida toda a comunidade estrangeira na região a se integrar melhor ao país, por meio de aulas de Língua Portuguesa para todas as idades. Uma das professoras responsável pela alfabetização na escola, Sônia Cruz lembra que, em 2017, um terço de seus alunos era de bolivianos. “Trabalho com as crianças em duplas, assim brasileiros e estrangeiros sentam juntos e um estimula o outro”, diz.

Gráfico mostra origem dos alunos imigrantes e quais estados concentram maior número   Ilustração: Instituto Unibanco

Apesar de receber muitos estudantes estrangeiros, Cláudio aponta que sua escola não é a que possui o maior número de imigrantes na região, mas que, devido ao sucesso das iniciativas, é a que mostra um crescimento contínuo de pedidos de vaga para esses alunos. “Hoje temos 21% de imigrantes na nossa escola, no começo eram apenas 10%”, diz. Promovendo a tolerância, é possível melhorar o rendimento escolar e, segundo o diretor, já existem exemplos disso, como a ex-aluna Aline Quispe, boliviana, que passou em Direito na Universidade Federal do Paraná (UFPR) e sempre aconselha os alunos da escola a buscarem o diálogo e os estudos.

O Paraná, aliás, é o segundo estado que mais recebe estudantes estrangeiros no país. De acordo com o Departamento de Planejamento e Informação da Secretaria Municipal da Educação de Curitiba são 755 alunos estrangeiros matriculados em 2016 na rede, de 44 nacionalidades diferentes. E de acordo com a Secretaria de Educação do Estado do Paraná, diante dessa realidade “foi criado o Conselho Estadual de Migrantes, Refugiados e Apatriados e ações de regularização da vida escolar do estudante foram implementadas e contemplam, para além da documentação, a realização de adaptações curriculares, ou seja, um conjunto de atividades didático-pedagógicas desenvolvidas”. Palestras, discussões e aulas de português são citadas pela Secretaria como exemplos, assim como acontece na capital paulista.

Vera Lucia Benedito, coordenadora do Núcleo Ético-Racial da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo, afirma que as atividades chegam a todos os 4970 alunos imigrantes da rede e que “palestras, oficinas e sensibilizações são propostas para os professores e alunos, como o ‘Dezembro Imigrante’, mês destinado a intensificação dessas atividades”.  

Gráfico representa distribuição de matrículas dos estudantes imigrantes entre a rede privada e pública de ensino   Ilustração: Instituto Unibanco

Diferentes realidades                                         

Sérgio Morais é professor de Geografia na EMEF Plínio Ayrosa também na zona norte da capital paulista e diz que os estrangeiros somam 45 dos 700 alunos da escola. “Os imigrantes apresentam muitas dificuldades nas aulas e sofrem preconceito dos outros alunos”, afirma. Segundo ele, a direção não repassou orientações específicas e o cronograma é seguido sem muitas adaptações. Para o professor, o interesse dos estrangeiros varia de acordo com a dedicação dos professores em cativá-los. “Eu nunca encontrei uma barreira linguística e emocional da parte desses alunos”, diz, “eles se envolvem com as minhas aulas”.

A coordenadora do Núcleo Ético-Racial da Secretaria de Educação de São Paulo afirma que a possibilidade de replicar iniciativas como a da EMEF Infante Dom Henrique depende do interesse das escolas em trazer esses programas para sua rotina escolar, o que vem crescendo, como as aulas de Português para imigrantes que acontecerão em 24 escolas em 2018 e não mais em apenas oito, graças à articulação de diretores.              

Diferente das escolas públicas, a rede privada, muitas vezes, recebe nichos de alunos estrangeiros de acordo com sua proposta pedagógica e condição financeira. Pola Papareli é coordenadora geral da escola Exatus, na zona leste de São Paulo, e explica que o colégio é procurado por uma grande quantidade de alunos nipônicos e descendentes. O continente asiático é o terceiro lugar de origem das matrículas de alunos estrangeiros no Brasil, atrás da Europa e América Latina, respectivamente, ainda segundo dados do Censo Escolar, reunidos em boletim do Instituto Unibanco. “Avós e pais imigrantes acabam trazendo as crianças por saberem do nosso trabalho de inserção social e auxílio mútuo entre alunos”. Dois alunos chineses estão passando pelo processo de adaptação nas turmas da escola e o professor de História Germano Cruz aponta que, por passarem muito tempo na escola, depois de aprenderem português, podem até tirar as melhores notas das salas.

Marinaldo de Almeida Cunha, membro do grupo de estudo e pesquisa "Movimentos Migratórios e Educação", lembra que as escolas brasileiras têm o dever de acolher quaisquer estudantes que as procurem. Para garantir esse direito, deve-se pensar em como dar suporte para que essa obrigação não se torne um problema, tanto para a escola quanto para o aluno. “Subentende-se que a imigração ou refúgio foi a última opção para essas famílias que tiveram que deixar tudo, inclusive um pouco da identidade, então encontrar uma escola acolhedora é fundamental”, afirma o doutorando em Educação no Programa de estudos Pós-Graduados em Educação: História, Política, Sociedade da PUCSP.

O pesquisador ressalta que é na escola que a criança tem a oportunidade de ampliar suas perspectivas e passa a ver o mundo tal qual ele é, aprendendo a conviver com outros. “O aluno imigrante não é um obstáculo e não deve ser encarado como tal”, afirma Marinaldo. “É um elemento enriquecedor porque garante à escola continuar sendo o ambiente mais diversificado que a criança terá contato. A escola precisa reconhecer isso e o Estado precisa respaldar o trabalho da escola”.

Cláudio Marques Neto, diretor da EMEF Infante Dom Henrique, ao lado de alunos de várias nacionalidades   Foto: Paula Calçade

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