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Gestão Escolar

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Especialistas | MUDANÇA DE HÁBITO


Por: rodrigo ratier

Precisamos saber o que a Base não é

Compreender os “nãos” da BNCC pode ser útil para participar melhor das decisões que vêm por aí

Como você deve ter percebido, ao longo desta edição buscamos descrever e analisar diversos aspectos da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) para explicá-la melhor. Um trabalho bacana que me trouxe um desafio extra: como contribuir, na última página da revista, para enriquecer essa discussão?

Uma resposta apareceu quando olhei para meu próprio aprendizado. Entendi melhor sobre a BNCC com base em definições negativas, aquelas que designam algo com a explicação da noção contrária. Em outras palavras, compreender o que a Base não é me pareceu tão útil quanto saber o que ela é. Fiz uma pequena lista sobre esses "nãos". Talvez eles auxiliem você a refletir onde sua participação pode ser mais efetiva.

  • A Base não é uma folha em branco. O óbvio dos óbvios que não custa relembrar. O Brasil tem agora mais do que um norte para o ensino - boa parte do "que ensinar" está lá e precisa aparecer nas aulas de todas as escolas.
  • A Base não é currículo. De tão repetido, também ficou óbvio. Mas é o conceito principal tanto para entender o que ainda precisa ser feito quanto para o que não pode ser mexido. Tentando uma metáfora, a Base talvez represente os materiais que vão sustentar uma casa - tijolos, cimento, telhas e vigas. O currículo são as paredes já de pé, o piso e o telhado. Além de contemplar as habilidades e objetivos de aprendizagem expressos na BNCC, ele também define, por exemplo, quanto tempo dedicar a cada um deles e a ordem em que serão ensinados.
  • A Base não traz tudo o que ensinar. Falta definir a parte diversificada, em que as redes e as escolas podem acrescentar conteúdos que espelhem a realidade regional, de cada estado, município ou bairro. Na imagem da construção, estamos falando do acabamento - pintura, esquadrias, portas e janelas.
  • A Base não diz como ensinar. O documento não trata da metodologia de ensino. Isso pode ser sugerido pelas redes, mas o martelo só será batido no interior de cada escola.
  • A Base não é camisa de força. O núcleo básico tem de ser respeitado, mas está nas mãos dos educadores trabalhar, nas redes e nas escolas, para que o currículo respeite a autonomia docente, seja na forma de ensinar e na criação de projetos didáticos, seja na ênfase aos conteúdos que fazem sentido para sua comunidade.
  • A Base não vai sair do papel sem apoio geral. Um elemento-chave para uma política virar verdade é o engajamento. Penso que a implantação da Base, no estágio atual, apresenta possibilidades de envolvimento mesmo para quem vê o documento com desconfiança. Muitas decisões vêm por aí. Ocupar os espaços de discussão e fazer ouvir sua voz é um desafio que se apresenta a toda professora e todo professor.

RODRIGO RATIER é editor especial de NOVA ESCOLA e doutor em Educação pela Universidade de São Paulo (USP)