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07 de Março de 2018 Imprimir
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Diego Mahfouz é o brasileiro entre os finalistas do “Nobel da Educação”

Conheça mais sobre a trajetória do diretor que transformou uma escola pública do interior de São Paulo e agora concorre ao Global Teacher Prize, em Dubai

Por: Laís Semis
O diretor Diego Mahfouz na Escola Municipal Darcy Ribeiro, em São José do Rio Preto  Foto: Eric Men

Aos 30 anos - 14 destes dedicado à Educação -, Diego Mahfouz Faria Lima é um dos 10 finalistas do Global Teacher Prize (“Prêmio Professor Global”, em tradução livre), considerado o “Nobel da Educação”. O trabalho que leva Diego a Dubai no próximo mês para a premiação foi realizado em 2014, como diretor da Escola Municipal Darcy Ribeiro, em São José do Rio Preto (SP). Em 2015, o gestor foi reconhecido com o Prêmio Educador Nota 10 e eleito Educador do Ano, pela mesma premiação.  “Fui parar por acaso na Educação e acabei me encontrando nela. Estar entre os finalistas de um prêmio mundial é algo que eu nunca imaginei”, diz.


Em tradução livre: O maravilhoso Diego Mahfouz Faria Lima é um dos nossos 10 finalistas do #TeacherPrize: http://vky.io/2GfKFox  

A trajetória do acaso, logo mostrou que ele estava no caminho certo. “Comecei a fazer estágio na Educação porque o curso dava uma bolsa de estudos equivalente a um salário mínimo e a nossa situação na época estava difícil. Minha mãe estava doente e meu pai desempregado”, relembra o diretor. Como gostava de estudar - um incentivo que vinha muito forte da mãe -, Diego, aos 16 anos, não pensou duas vezes para se inscrever no curso. Mesmo com o falecimento da mãe durante seu primeiro ano e com o novo emprego do pai, ele seguiu os estudos para manter a cabeça ocupada. Foi quando Diego começou o estágio que mudaria pra sempre sua relação com a Educação.

LEIA MAIS: O que é o Global Teacher Prize, que pode eleger um brasileiro como o melhor professor do mundo

“Fiquei encantado ao ver as crianças chegando, no que é hoje o antigo pré, sem saber ler e saindo de lá alfabetizadas. Aquilo me despertou para a área”, recorda. Após concluir o magistério, Diego foi cursar Pedagogia em uma rotina que envolvia trabalhar em duas escolas, uma em cada cidade, e fazer faculdade numa terceira. “Era muito puxado. Os meus dias começavam às 4h da manhã, pegando três ônibus pra chegar na primeira escola, e eu só voltava para casa meia noite”. Ao ser chamado para assumir aulas do 5º ano na prefeitura de São José do Rio Preto, a cidade em que morava, Diego também decidiu se inscrever para o programa Mais Educação em uma escola vizinha à que lecionava. “O programa existia, mas não funcionava. Eram diversos problemas administrativos e de prestação de contas. A comunidade não participava das atividades”, conta. A mobilização de Diego para resgatar o programa e o resultado deste trabalho, rendeu a ele o convite para assumir a coordenação pedagógica de uma outra escola. Com o afastamento por saúde da diretora, o Educador Nota 10 mostrou que era capaz de gerenciar tanto o pedagógico quanto o administrativo com maestria.

Logo um novo convite apareceu: a vice-direção de uma das piores instituições de ensino básico da região. As manchetes dos jornais eram desanimadoras... alunos com armas, tráfico pelos buracos do muro da escola, violência. “A secretaria já tinha oferecido o cargo para outras pessoas, mas ninguém tinha aceitado. Fui conhecer a escola e fiquei horrorizado com a situação. Achei que o desafio era muito grande para mim e que seria melhor continuar onde estava”, relata. Ao mesmo tempo, na volta para casa, uma frase repetida por ele muitas vezes ao longo da faculdade não saía de sua cabeça: “Eu sempre disse que queria fazer algo que tivesse um grande impacto na Educação”. Aquela poderia ser uma oportunidade. E, assim, Diego partiu para o novo desafio.

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O cenário que Diego encontrou quando chegou à Darcy Ribeiro era o pesadelo de qualquer diretor: alunos ateando fogo em cestos de lixo, atirando restos de merenda contra o diretor, 60 suspensões por semana e 200 alunos evadidos no ano. As paredes eram marcadas pelos vestígios de cortinas queimadas, banheiros estavam sem portas ou privadas e a instituição frequentemente estampava manchetes negativas nos jornais locais. Os próprios estudantes tinham vergonha de estudar ali. “Um mês após minha chegada, a diretora e a coordenadora tinham se afastado. Uma delas pediu até exoneração do cargo”, diz. “Fiquei sozinho na gestão daquela escola que tinha mais de mil alunos e funcionava nos três períodos”.

Foi a partir de uma gestão participativa com mediação de conflitos entre pares, tutoria, mudança no modelo de avaliações, projetos extra-curriculares e atividades aos finais de semana que o gestor transformou, com o apoio da comunidade, o espaço físico, as relações, o olhar para a aprendizagem, participação dos jovens e a maneira de lidar com indisciplina. Ao fim daquele mesmo ano, uma nova Darcy Ribeiro nasceu pra estampar - agora com reconhecimento pelos resultados da gestão e dos projetos desenvolvidos pelos alunos - as manchetes não só da região de Rio Preto, mas de todo o Brasil.

Conheça mais sobre essa transformação:

Hoje, depois de ter sido reconhecido nacionalmente, Diego segue para o reconhecimento mundial do seu trabalho com as escolas públicas do país. “Mas o maior prêmio que eu ganhei nesse percurso foi fazer a diferença na vida de tantos jovens e tornar a escola atrativa diante de um mundo de criminalidade que os cercava. A valorização dos alunos, das mães e da comunidade é muito gratificante”, reflete o diretor olhando para sua trajetória. “Apesar de todas as dificuldades que encontramos no dia a dia do professor, temos que lembrar que nossa profissão é capaz de transformar vidas e todo seu entorno e precisamos assumir o papel de agente transformador”, aconselha.

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