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Sala de Aula | Língua Portuguesa


Por: Laís Semis

Alfabetizar em 2 anos? É possível

Com a Base, o ciclo de alfabetização passa de três para dois anos. Entenda quais são os impactos dessa mudança

No 2º ano, crianças elaboram perguntas para trabalhar o gênero entrevista. Crédito: Alexandre Battibugli


Texto: Laís Semis   Design: Lucas Magalhães   Edição: Rosi Rico


O tópico é sensível e divide opiniões. "Há divergências até mesmo quanto ao próprio conceito de 'criança alfabetizada'", diz Rossieli Soares, secretário de Educação Básica do Ministério da Educação (MEC). Durante toda a tramitação da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), a idade-limite para que as crianças aprendessem a ler e a escrever foi um dos tópicos de maior discussão: deveria ser no 2º ou 3º ano do Ensino Fundamental? A diretriz anterior, proposta pelo Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa (Pnaic), coloca 8 anos de idade como limite. Mas as dificuldades para cumpri-la ainda são grandes: dados da Avaliação Nacional de Alfabetização (ANA) mostram que 34% das crianças de 3º ano apresentam resultados insuficientes em escrita e 55% em leitura. A questão também se relaciona ao impacto que a mudança teria na Educação Infantil (leia mais na reportagem Ler e escrever do próprio jeito).

Na versão final da BNCC, ficou definido que o 2º ano passará a ser o prazo para que as crianças tenham se apropriado do sistema de escrita. Para o MEC, a mudança está alinhada ao que estados e municípios com melhores indicadores de alfabetização já desenvolvem, como é o exemplo do Ceará, onde o Programa Alfabetização na Idade Certa (Paic) determina que os alunos estejam plenamente alfabetizados aos 7 anos. A alteração também viria para combater a desigualdade entre escolas públicas e particulares, em que a maioria atua nesse sistema, e também entre as próprias públicas. "A decisão de trazer a alfabetização para até o 2º ano parte da premissa de que é preciso garantir esse direito igualmente para todas as crianças", afirma Rossieli.

Nas próximas linhas, esclarecemos as principais dúvidas sobre a mudança e mostramos como Mara Mansani, professora da rede estadual de São Paulo e blogueira de NOVA ESCOLA, garante que a turma avance no tempo adequado. "Com planejamento, formação de qualidade para os professores e as condições adequadas, é possível, sim, alfabetizar em dois anos", diz ela.

COMO GARANTIR QUE A TURMA AVANCE NO TEMPO ADEQUADO

Estratégias para garantir que todos aprenderão a ler e escrever até o 2º ano.

O acompanhamento regular e a realização frequente de sondagens são imprescindíveis para garantir que as crianças estejam alfabetizadas ao fim do ciclo. "É necessário investigar constantemente o que as crianças sabem e o que precisam aprender. Conforme se vai identificando, deve-se provocá-las com atividades que possam ajudá-las a avançar", propõe Maria José. Com base nisso, o professor deve pensar em situações que sejam desafiadoras para os alunos que possuam as mais diferentes hipóteses de escrita. "A diversidade está presente em qualquer sala de aula, mas, na de alfabetização, ela é vivida de forma mais intensa", considera a formadora de professores. As sequências didáticas propostas por Mara Mansani envolvem toda a turma, de acordo com as possibilidades de cada um. Ao trabalhar com o gênero entrevista, por exemplo, a professora sugeriu três rodadas de perguntas a diferentes entrevistados: a própria docente, um membro da família e uma funcionária da escola, a merendeira Marlene Machado. Após conhecer exemplos de entrevistas em vídeo e em texto, os alunos elaboraram a pauta de perguntas que gostariam de fazer. "Acompanho a escrita das questões, fazendo intervenções para que eles pensem sobre a escrita e registrem o que querem escrever. Também permito que alguns alunos ditem o que gostariam de perguntar", explica Mara. A cada nova entrevista, a turma revisa em conjunto e em voz alta as questões levantadas. "Assim, todos podem refletir juntos sobre o sistema de escrita e avançar, de acordo com suas possibilidades", conta a professora.

Ao entrevistar os funcionários, os alunos pensam nas relações entre oral e escrito. Crédito: Alexandre Battibugli

6 perguntas sobre a alfabetização na BNCC

1 O que é alfabetização na BNCC?

O documento enxerga a alfabetização como a apropriação das relações entre sons e letras, mas também reforça a importância de que os alunos tenham contato com produções escritas nos contextos em que são usadas socialmente. Não basta dominar o sistema de escrita. Elas devem ser capazes de ler e escrever textos de diversos gêneros. Esse processo segue, a partir do 3º ano, dando mais foco à ortografia. "A proposta é trabalhar, nos dois primeiros anos, a evolução da escrita e, ao longo do Fundamental, desbravar as convenções do sistema", diz Sônia Madi, coordenadora de projetos do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec).

2 O que se espera para cada ano?

Em linhas gerais, a expectativa é que as crianças cheguem à hipótese alfabética de escrita até o final do 1º ano, o que envolve dominar o sistema de escrita alfabético e também ler e escrever textos do campo da vida cotidiana, como bilhetes, cartas, regras de brincadeiras e receitas com o auxílio de colegas ou do professor. Para o 2º ano, as habilidades são aprofundadas e a autonomia para a escrita, a leitura e a compreensão textual, ampliada. Espera-se que eles já consigam usar a grafia correta de palavras conhecidas e produzam pequenos textos respeitando os temas propostos, os gêneros textuais, a situação comunicativa e a sequência dos fatos.

3 Os professores terão que "correr" com o conteúdo?

Não necessariamente. Para as escolas que precisarão se ajustar, a indicação de Maria José Nóbrega, formadora de professores e docente do Instituto Vera Cruz, é que os alfabetizadores façam o exercício de olhar as habilidades da BNCC e tentem identificar como as crianças se situam em relação a elas atualmente. "É preciso alinhar o que cada um está considerando como estar alfabetizada. É possível que algumas habilidades já sejam realizadas e outras estejam muito distantes do previsto para aquele ano", explica. Na hora de criar os currículos locais, será necessário partir dessa constatação feita pelos docentes em cada turma.

4 Como ficam as outras disciplinas?

"Podemos usar conteúdos de outras áreas para criar situações de alfabetização", diz Mara Mansani, professora do 2º ano da EE Professora Laila Galep Sacker, em Sorocaba (SP) . A ideia é criar situações em que as crianças possam explorar conteúdos de Ciências, História ou Geografia ao mesmo tempo em que avançam nas suas compreensões sobre o sistema de escrita. "Se o objeto de estudo são os animais, além de pensar nas características morfológicas típicas de determinada classe, como a das aves, a criança também está pensando em como escrever 'marreco'", exemplifica Maria José, do Instituto Vera Cruz.

5 Haverá formações para os alfabetizadores?

Em 2017, o MEC anunciou o Programa Mais Alfabetização e a Política Nacional de Alfabetização, que devem dialogar com a Base. "Essas políticas condensam iniciativas que visam garantir que todas as crianças estejam alfabetizadas até o 2º ano do Fundamental", diz Rossieli, do MEC. As ações incluem formação docente, reestruturação de materiais didáticos e apoio técnico e financeiro para as redes. Está previsto, por exemplo, aperfeiçoamento da formação do Pnaic, mestrado profissional em alfabetização e a residência pedagógica para os docentes iniciantes. Os professores regentes dos dois primeiros anos também terão o apoio de um assistente de alfabetização.

6 Como ficam as diferentes linhas de alfabetização?

Ainda há espaço para que cada professor trabalhe segundo a linha em que acredita e se sente mais confortável, mas as redes devem ter maior influência na decisão. "Vai ficar por conta de estados e municípios transformar as orientações da BNCC em currículo", diz Sônia, do Cenpec. Mas será necessário jogo de cintura. Há uma inclinação à perspectiva da professora da UFMG Magda Soares, que envolve tanto o estudo das relações entre sons e letras quanto o contato com textos. Há menções, por exemplo, ao trabalho com sílabas, não defendido por algumas correntes de alfabetização.

Mara auxilia aluno a preparar questões e rever as respostas dos entrevistados. Crédito: Alexandre Battibugli

TRABALHANDO A HABILIDADE

EF02LP22
Planejar e produzir, em colaboração com os colegas e com a ajuda do professor, pequenos relatos de experimentos, entrevistas, verbetes de enciclopédia infantil, dentre outros gêneros do campo investigativo, digitais ou impressos, considerando a situação comunicativa e o tema/assunto/finalidade do texto.

Como abordar
No gênero entrevista, apresentar exemplos e propor atividades práticas, em que as crianças sejam os entrevistadores. Revisar o material com a turma.