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Sala de Aula | Educação Infantil


Por: Caroline Monteiro

Ler e escrever do próprio jeito

Após um longo debate, compreenda o que cabe à creche e à pré-escola quando o assunto é alfabetização

A professora Paula Sestari serve como escriba para os alunos da pré-escola. Foto: Marcelo Almeida

Cinco páginas, 13 artigos, a maior parte escritos em linguagem jurídica: eram assim as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil (DCNEI), determinadas por uma resolução do Conselho Nacional de Educação (CNE) e em vigor desde 2009. Fazia sentido, portanto, que não houvesse espaço para destrinchar os objetivos de aprendizagem e desenvolvimento para as crianças até 5 anos.

Mas com a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) foi diferente: desde a primeira versão, um espaço grande foi dedicado ao segmento. Coube a ele até uma organização diferente da proposta para o Ensino Fundamental. Em vez de áreas e componentes curriculares, estavam presentes os campos de experiência e, em vez de habilidades, objetivos de aprendizagem e desenvolvimento (leia mais sobre a nomenclatura na reportagem Conheça essas indicações paea se aprofundar na BNCC).

Dos cinco campos propostos, um foi o alvo de maior polêmica. Chamado nas duas primeiras versões de Escuta, Fala, Pensamento e Imaginação, ele apareceu renomeado como Oralidade e Escrita na terceira. A mudança incomodou alguns especialistas, que organizaram um abaixo-assinado contra o texto, argumentando que a mudança reduzia a função do campo. "A linguagem possui muitas outras dimensões, fundamentais para o desenvolvimento, para a aprendizagem, para o conhecimento, pois está vinculada à imaginação, à criação, ao diálogo, à expressão de saberes, afetos e valores", afirmavam. Na contramão, um outro grupo temia que as práticas relativas ao universo da leitura e da escrita fossem deixadas de lado.

Contato com o mundo escrito

Na versão aprovada em dezembro, a nomenclatura original retornou, mas boa parte dos objetivos adicionados na terceira versão continuam lá para garantir que o mundo letrado esteja presente no cotidiano dos pequenos. "Existe uma enorme diferença entre estimular a brincadeira com palavras - o contato com a leitura e a escrita - e os exercícios formais de alfabetização, que devem ser deixados para o Fundamental", diz Zilma de Moraes Ramos de Oliveira, professora aposentada da USP e coordenadora da especialização em Educação Infantil do Instituto Vera Cruz, em São Paulo.

Para os menores, a leitura pelo professor e a contação de histórias servem para que eles demonstrem interesse pelos escritos e reconheçam algumas de suas características, como a orientação em que se lê e escreve (da esquerda para a direita e de cima para baixo) e diferenciem as palavras das ilustrações. "O interesse da criança pelo que uma pessoa fala é diferente do interesse pelo que alguém está lendo em voz alta", explica Zilma.

Temas de interesse da turma são transformados em listas. Foto: Marcelo Almeida

Leitura e escrita na pré-escola

Para ler e escrever, os pequenos não precisam dominar plenamente os códigos, que devem ser trabalhados mais intensivamente apenas no início do Ensino Fundamental. É isso o que define a BNCC, baseada nos diversos estudos sobre alfabetização conduzidos nas últimas décadas e inspirados nas descobertas de Emilia Ferreiro. Por isso, a prática da escrita espontânea é fundamental: ao estimular a turma a escrever da maneira como souber - mesmo que seja apenas criando garatujas - e depois ler suas próprias produções, o contato com o mundo letrado se intensifica.

Além disso, o convívio com diversos gêneros faz com que as crianças se apropriem desses textos e sejam capazes de criar oralmente histórias que lembrem seus livros literários favoritos ou ditar legendas informativas para seus desenhos que se pareçam com as de revistas e livros científicos.

O professor pode atuar como o escriba da turma, registrando de maneira visível as orientações passadas pela criançada. Esse é, inclusive, um dos objetivos de aprendizagem e desenvolvimento presentes para a faixa etária dos 4 aos 5 anos e 11 meses (leia destaque abaixo). Para Mônica Baptista, professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e membro do Fórum Mineiro de Educação Infantil (FMEI), essa atuação do professor reforça a ideia de que a criança já é autora de textos, mesmo sem entender o sistema e a lógica por trás das palavras. "Ela já domina vários outros conhecimentos", diz a especialista.

A professora Paula Sestari, do CEI Namir Alfredo Zattar, em Joinville, Santa Catarina, acredita na ampliação do repertório das crianças com experiências baseadas em situações reais. "Eu entendo a escrita e a leitura como parte do cotidiano, da mesma forma que trabalhamos as demais linguagens, como a fotografia, a música e a dança."

Ao ditar bilhetes para os pais, as crianças refletem sobre quem receberá as mensagens. Fotos: Marcelo Almeida


Uma das atividades feitas pela professora - eleita Educadora do Ano em 2014 - é a escrita de listas ditadas pelas crianças com base em perguntas geradoras relacionadas ao universo dos pequenos. "Quais os materiais necessários para brincar de detetive?" e "Quais são os animais que vivem no mar?" são algumas das questões levantadas por ela, que registra em um cartaz as respostas. Em seguida, vale incentivar que eles relacionem as letras das palavras com as letras dos próprios nomes. "Eles olham o crachá e apontam o que têm em comum entre os termos", explica.

As atividades de reconto também fazem parte da rotina. Juntas, as crianças narram uma história já conhecida, como Chapeuzinho Vermelho, ou criam uma nova. Enquanto isso, a professora estrutura e registra em cartaz, sempre com o aval da garotada. "É dar forma para aquilo que eles estão dizendo", explica Paula.

Outra possibilidade é mudar o suporte, da cartolina para o computador. Com isso, os pequenos observam a diferença no padrão de escrita (a caligrafia e as tipografias do computador) e refletem sobre o destino da mensagem. Uma alternativa é construir, com base no que eles dizem, um bilhete para as famílias. Enquanto a turma dita a mensagem, a professora digita no computador. "Com essa dinâmica, as crianças aprendem coisas como o sentido do texto no papel", diz ela

TRABALHANDO A HABILIDADE
EI03EF05
Recontar histórias ouvidas para produção de reconto escrito, tendo o professor como escriba.

Como abordar
Recupere uma história conhecida da turma e sugira que as crianças a recontem para que você registre em papel ou na lousa. Intervenha para que elas recorram à linguagem típica do gênero escolhido