Ainda há tempo para recuperar...

...E garantir que todos sejam aprovados no fim do ano. A chave é montar um grupo de apoio pedagógico para acelerar a aprendizagem daqueles que ainda estão com mais dificuldade

POR:
Roberta Bencini
Apoio pedagógico na Recuperação

As professoras Marilda e Gisela, da EE Comendador Mário Dedini, em Piracicaba, conhecem os problemas dos alunos e fazem questão de acompanhá-los. Foto: Alexandre Battibugli

 O segundo semestre já está a todo vapor, mas ainda é possível garantir que todos os alunos aprendam os conteúdos previstos - e sejam aprovados no fim do ano. E nem é preciso fazer mágica. Basta organizar grupos de apoio pedagógico que ofereçam às crianças e aos jovens com mais dificuldades o suporte necessário para que eles avancem conforme o esperado. A chave é proporcionar a atenção individualizada em turmas menores. Muitas redes de ensino disponibilizam professores eventuais para essa missão. Outras programam as atividades de reforço desde o início do primeiro semestre. Mas mesmo quem não começou o trabalho em março (nem conta com ajuda extra) tem perfeitas condições de alcançar o sucesso. "Agora, o momento precisa ser encarado como de emergência. Essa é a última chance de rever o que está sendo feito e planejar ações certeiras", explica Célia Prudêncio de Oliveira, formadora do programa Ler e Escrever da Secretaria de Educação de São Paulo.

Cinco são os passos fundamentais:
. Um diagnóstico preciso das necessidades de aprendizagem de cada um dos estudantes;
. O estabelecimento de metas de curtíssimo prazo;
. Um programa de seqüências de atividades referentes aos conteúdos (diferentes das feitas na sala regular);
. Um cronograma bem definido;
. Uma avaliação que comprove que cada etapa está sendo vencida.

É importante destacar que o restante da turma também precisa de atenção - daí porque todo o trabalho precise ser bem planejado, com definição clara de funções, tanto para os professores regentes como para os responsáveis pelos grupos de apoio.

Apoio pedagógico na Recuperação

Em Campo Limpo Paulista, a professora Márcia Cardoso de Souza divide seus 27 alunos entre as turmas para dar atenção especial àqueles que mais precisam. Foto: Tatiana Cardeal.

Atividades no contraturno

A EE Comendador Mário Dedini, em Piracicaba, no interior paulista, tem experiência com grupos de apoio formados pelos próprios professores. Todo ano, alguns assumem a função de garantir que nenhum estudante fique para trás. Em 2007, a tarefa cabe a Marilda Fátima Vitti Quartarolo e Gisela Rosalem. "Ninguém conhece melhor a turma do que nós. Sabemos exatamente onde estão os nós de cada estudante e não vamos abrir mão de acompanhar os que mais precisam", dizem elas.
No ano passado, 12 crianças iniciaram o segundo semestre com dificuldades. Agora, apenas 5 dos 69 alunos das 1as séries não conseguiram avançar conforme o esperado. Todo o trabalho, realizado duas vezes por semana no contraturno, é acompanhado de perto pela coordenadora pedagógica Daniela Cristina Guion Moreira, que sugere intervenções (leitura em voz alta, escrita de textos memorizados, lista de nomes e objetos, caça-palavras e jogo de cartas) e o uso de recursos como textos e jogos.
Marilda e Gisela sabem que não faz sentido empregar as mesmas estratégias já usadas na sala regular - sem efeito. Variar o cardápio de modo a apresentar desafios apropriados para cada estudante é a grande dificuldade (aliás, comum a muitos professores). "Dedico um bom tempo a planos de aula diferentes e individualizados", diz Marilda, que está confiante na estratégia.

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Em Curitiba, Márcia, Sonia e Darcilene formam grupos de apoio com professores da própria escola e com os eventuais. Foto: Joel Rocha

Divisão de tarefas

Em Campo Limpo Paulista, na Grande São Paulo, a Secretaria Municipal de Educação mantém uma equipe de professores eventuais para auxiliar nas atividades de reforço. Na EMEF Governador Mario Covas, porém, a solução encontrada também foi interna. Os titulares das 1as séries se organizaram para redefinir algumas tarefas e permitir que todos progridam corretamente. Márcia Rodrigues Cardoso de Souza tem 27 crianças em sua turma. Três vezes por semana, ela divide a garotada entre as outras salas. Tudo para permitir que ela dê atenção especial aos que mais precisam (são 25 no total, sendo oito da classe dela). O histórico da maioria das crianças é o mesmo: pouco contato com a língua escrita fora da escola e dificuldades para evoluir no processo de alfabetização. Mas Márcia está convicta de que todos alcançarão a hipótese de escrita alfabética até dezembro, ou seja, terminarão o ano sabendo ler e escrever - e serão aprovados junto com os colegas que já estão mais avançados.
Para que isso efetivamente ocorra, as regentes fazem diagnósticos individuais apurados. Na sala dos professores, uma grande tabela aponta a situação de cada um, conforme os níveis de conhecimento. Toda a equipe acompanha a evolução e sugere atividades. No grupo de apoio, Márcia realiza trabalhos alternativos aos propostos na sala regular. Assim, ela dá novas opções para as crianças construírem suas hipóteses e descobrirem seus caminhos rumo à alfabetização. No início de agosto, 20 estudantes ainda freqüentavam a classe diferenciada, mas Márcia garante que seis vão dispensar o reforço agora, em setembro, e outros quatro em outubro. Os dez restantes, acredita ela, precisarão das aulas extras até o fim do ano. "Meu plano é ficar em cima deles para não deixar o interesse e o empenho escaparem".

Ajuda externa

Na rede estadual do Paraná, as ações de reforço estão cada vez mais integradas. O objetivo é impedir que tantas crianças sofram com a repetência (em 2005, segundo dados do Ministério da Educação, 20% dos alunos paranaenses foram reprovados na 5ª série). "Muitos só dominam os saberes adquiridos até a 3ª série. Acabar logo com esse ciclo de estagnação é imprescindível para evitar a evasão", afirma Renata Cristina Lopes, da equipe pedagógica da Secretaria Estadual de Educação.
Por isso, há três anos, todas as turmas de 5ª série têm à disposição um professor eventual para montar grupos de apoio no contraturno. Eles atuam em parceria com os regentes, que ficam com a responsabilidade de fazer diagnósticos individuais e acompanhar as atividades e produções dos alunos, mais a avaliação. Assim, ninguém fica acomodado, achando que a tarefa de ensinar passou para as mãos do colega. "Não é possível conceber a Educação como uma linha de montagem e se eximir dessa responsabilidade", adverte a formadora Célia Oliveira.
No Colégio Estadual Jayme Canet, em Curitiba, Sonia Marin leciona Língua Portuguesa para as 8as séries e atua como eventual (e responsável pelo grupo de apoio das turmas de 5ª série). "Conhecer a realidade da escola e da comunidade ajuda muito", acredita ela. Com a experiência de quem faz cursos de capacitação regularmente, Sonia faz uma parceria afinada com Darcilene Paiva de Souza, a professora titular da classe. "Estamos a todo momento conversando sobre os alunos". No início do segundo semestre, oito jovens estavam nas atividades de reforço. "O trabalho tem tudo para dar certo porque as duas professoras gostam de desafios, estudam muito, propõem atividades diversificadas e têm o compromisso de ensinar", completa Clélia Ignatius Nogueira, formadora e professora da Universidade Estadual de Maringá, no Paraná.

Didática
O papel de cada um
Cabe ao professor regente
. Participar, com a equipe pedagógica e o professor do grupo de apoio pedagógico, da definição de ações educativas.
. Manter contato freqüente com o professor do grupo de apoio para acompanhar os avanços da turma.
. Dar continuidade ao trabalho feito com os estudantes.

Cabe ao titular do grupo de apoio
. Analisar as produções dos alunos para identificar as principais dificuldades.
. Planejar com a equipe pedagógica e os regentes os encaminhamentos metodológicos.
. Planejar estratégias de ensino diferentes das usadas em sala.

 

Quer saber mais?

Colégio Estadual Jayme Canet, R. Ana Aparecida Lobos Canet, s/nº, 81710-210, Curitiba, PR, tel. (41) 3275-2526
EE Comendador Mário Dedini, R. Ricardo Pinto César, s/nº, 13405-432, Piracicaba, SP, tel. (19) 3421-5886
EMEF Governador Mario Covas, R. Armando Lenhanholi,137, 13230-000, Campo Limpo Paulista, SP, tel. (11) 4812-6900

 

 

 

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