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Blog de Alfabetização

Troque experiências e boas práticas sobre o processo de aquisição da língua escrita.

Lenga-lenga: Diferentes hipóteses de escrita envolvidas em um mesmo projeto didático

O segredo para dar conta de todos está na organização e em propostas desafiadoras

POR:
Mara Mansani
Meus alunos fotografatos pela NOVA ESCOLA em 2014. Autoria é protagonismo!

Olá, queridos professores!

Nos últimos dois posts aqui do blog, falei com vocês sobre as diferentes hipóteses de escrita na Alfabetização e como fazer os alunos avançarem nesse processo. Tudo com base nas pesquisas de Emilia Ferreiro.

Porém, na vida real, a dinâmica é mais complexa e tudo acontece ao mesmo tempo. Como trabalhar uma mesma situação de aprendizagem que envolva a todos que estão em diferentes hipóteses? Acredito que uma das maneiras é desenvolver projetos pedagógicos de leitura e escrita.

Por isso, compartilho com vocês o projeto "Escrevendo com lenga-lengas", que me deu duas grandes alegrias: além de contribuir na alfabetização de meus alunos, me proporcionou o Prêmio Educador Nota Dez, da Fundação Victor Civita, em 2014. 

Desde então, vendo desenvolvendo o mesmo projeto todos os anos com minhas turmas e vou contar como o projeto foi aplicado no ano passado.

A lenga-lenga é um texto construído com frases curtas, que geralmente rimam, ajudando na sua memorização. Ela se baseia na repetição de sons, rimas, palavras ou expressões e estruturas textuais. Geralmente está associada a brincadeiras e jogos infantis. Da tradição oral portuguesa, da era Medieval, as lenga-lengas são transmitidas de geração em geração.

Outro fator que me fez realizar esse projeto com meus alunos foi a possibilidade de suas escritas se transformarem em livros coletivos. Eu sbaia que isso seria um grande motivador e todos dariam o seu melhor. Há alguns anos, eu mesma diria que seria impossível propor a alunos de 6 e 7 anos que escrevessem seus próprios textos, mas essa foi a proposta de meu projeto para meus alunos: que eles escrevessem textos de autoria, levando em conta as características do gênero (lenga-lenga), para a produção de livros coletivos.

No que dizia respeito ao processo de alfabetização, meu objetivo era criar situações desafiadoras que levassem os alunos a refletir sobre sua própria escrita e o sistema alfabético, avançando em suas hipóteses. A ideia era que eles chegassem à hipótese alfabética ou se aproximassem o máximo possível dela.

O passo a passo

1) Diagnostiquei os saberes e as dificuldades dos alunos através de sondagens que deram o retrato da situação de sua aprendizagem;

2) A partir das necessidades levantadas, estabeleci os objetivos que mencionei no inícioo e selecionei os conteúdos: apreciação de texto literário, leitura de texto com a ajuda da professora, escrita de textos de próprio punho individuais e coletivos, ainda que com erros ortográficos;

3) Apresentei o projeto aos meus alunos. Expliquei que faríamos um livro de lenga-lengas, os envolvi e motivei, explicando que, além de aprender a ler e escrever melhor, eles ainda seriam autores de livros. Empolgação geral!

4) Modelizei: repertoriei a turma com leituras, para prepará-los para o momento de escrever. Fizemos um passeio na biblioteca, onde apresentei e li o livro "Dez sacizinhos", da Tatiana Belinky, escrito em forma de lenga-lenga, que explora rimas, repetições de sons e palavras e também a contagem regressiva do dez ao zero. Eles adorara! Nessa leitura, explorei as características do gênero. Contei para eles também um pouco da vida da autora.

Em outros momentos, levei outros modelos de textos de lenga-lenga, de domínio público, como "Tangolomango" e "Tumba la Catumba". Como os textos apresentam repetições de frases e expressões, a turma conseguiu acompanhar boa parte da leitura que fiz a eles. Então podemos dizer que "lemos juntos".

Explorei novamente as características do gênero, perguntando o que os novos textos tinham de semelhante com o livro da Tatiana, quais rimas apareciam, como começava cada parte dos textos, o que acontecia com os personagens, etc. Eles destacaram as rimas entre os números e o que acontecia com cada personagem dos textos, as repetições de frases e os fatos que acharam engraçados.

5) Montei os agrupamentos produtivos. Dividi os grupos levando em consideração as hipóteses de escrita de cada um, tentando organizar hipóteses próximas para um trabalho produtivo, mas deixando em cada grupo pelo menos um aluno em hipótese alfabética ou silábico-alfabética para garantir o andamento das discussões enquanto eu estivesse acompanhando os demais.

6) Criei um "circuito de intervenções pedagógicas" para atender aos grupos. Nos momentos de escrita, cada grupo ficava ao redor de uma mesa, sempre com uma cadeira extra para que eu pudesse acompanhar uma parte das discussões e fizesse as intervenções pedagógicas necessárias.

Eu passava pelas mesas e sentava com cada grupo por volta de 10, 15 minutos, pelo menos quatro vezes ao longo das aulas de escrita, em um rodízio constante para orientar, mediar e facilitar o trabalho.

Minhas orientações gerais para começar foram: "Cada grupo deveria escolher um personagem e um lugar onde se passaria sua história, e escrevê-la da melhor maneira possível, combinando seus personagens com rimas dos números de 1 a 10, escrevendo em forma de lenga-lenga". Parece complicado, mas como os modelos apresentados anteriormente foram claros, não surgiram dúvidas.

Em cada grupo, havia um aluno que era o escriba, independentemente da hipótese em que se encontrava. Eu acompanhava sua escrita e fazia as orientações de forma que todos os alunos, em diferentes hipóteses, dessem suas contribuições. Nesse confronto de ideias e hipóteses, as crianças foram se apropriando de suas escritas.

Na vez seguinte em que eu voltava ao grupo, o escriba era outro aluno. Os outros grupos, enquanto isso, estava pensando no que escrever, que rimas utilizar, quais seriam as situações para cada personagem. Dessa forma, consegui atender a todos os alunos.

Nas intervenções, eu provocava os alunos a refletirem sobre suas escolhas na escrita ("Por que escolheu esta letra? Quais outras palavras têm o som parecido com a que seu colega está escrevendo? A escrita dele está diferente da sua?") e sobre o gênero proposto ("O que não podemos deixar de colocar no texto para que ele fique parecido com os textos que vimos?"). Também pedia que os alunos lessem o que estavam escrevendo, e assim os textos foram saindo, não sem muito escreve e apaga.

A mistura de hipóteses nos grupos foi muito proveitosa. Houve trocas de saberes entre os participantes, e muitos comentários como "É assim que escreve?" "Tá faltando letra!" "Vamos ler de novo?" que eu ouvia pela sala enquanto fazia os atendimentos. Foi satisfatório ver os alunos gostando de suas escritas. A cada parte do texto concluída, eu lia alto para todos da sala, estimulando os demais grupos a continuar. O período de escrita durou três semanas, e duas vezes por semana eu repetia o circuito de intervenções pedagógicas.

7) Finalmente os textos ficaram prontos, foi chegado o momento de editar os livrosFiquei mais ansiosa que as crianças e muito feliz com as produções e os avanços na escrita dos alunos. Li para eles todos os textos e expliquei que era preciso corrigir as escritas e digitar os textos para que se transformassem em livros, mas que o original, a escrita de próprio punho deles, não seria alterada.

Coerentemente, minha proposta de início era que escrevessem alfabeticamente ainda que com erros ortográficos. Não caberia, nesse momento, uma revisão textual com alunos, afinal eles estavam em processo de alfabetização. Mas, projetando a tela do computador, fui mostrando para eles como haviam ficado os textos digitados e revisados, explicando que as editoras também faziam a revisão dos textos de seus escritores. Deu tudo certo e aproveitei mais uma vez, agora fora do circuito de intervenções, para explicar algumas escritas, mas os textos não foram alterados.

Pedi que cada grupo fizesse as ilustrações para seu livro de acordo com suas escritas e que fizessem as dedicatórias, que eles já sabiam o que era por terem visto em todos os outros livros que lemos. Deixei as crianças palpitarem sobre como colocar os desenhos no livro, e assim eles ficaram com a carinha deles! Uma combinação perfeita de bons textos, suas ilustrações e a liberdade de criação das crianças. Acabei fazendo também edições animadas dos livros no PowerPoint e meus alunos adoraram! Foram produzidos cinco livros com os seguintes títulos: "A águia", "Os dez cachorrinhos, "As dez borboletas", "Os dez gatinhos" e "Os dez menininhos".

8) Lançamento dos livros

Foi um grande acontecimento para todos. Encomendei sacolas de algodão e imprimi os desenhos dos livros e o nome do projeto em folhas de papel transfer. Com um ferro de passar, consegui por minha conta estampar as sacolas para cada aluno levar seu exemplar no dia do lançamento. Em dezembro, fizemos o evento cm a presença dos pais, prfoessores, toda a equipe escolar, alunos e outros convidados. Apresentei os livros com a turma e todos ficaram maravilhados com os textos e o fato de alunos do 1º ano já serem autores. Não estranhei a surpresa de todos, afinal eu mesma, há tanto tempo alfabetizando, não acreditava que seria possível. Mas foi!

Apesar de trabalhoso, creio que o grande ganho do projeto está no circuito de intervenções pedagógicas. Realmente funcionou muito bem, e foi uma boa maneira de organizar o tempo e o trabalho dos alunos e o meu próprio em sala. O circuito foi responsável pelos bons resultados das escritas dos grupos, pois deu oportunidade de todos os alunos participarem do processo de criação do livro de forma ativa.

Espero que tenham gostado do projeto! Se quiserem compartilhar quais projetos de leitura e escrita vão desenvolver este ano ou fizeram no ano passado com suas turmas, escrevam nos comentários! Vamos trocar experiências!

Um abraço e até semana que vem,

Mara Mansani

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